Emmanuel Macron é o futuro ou representa velhas ideias em um novo pacote elegante?

Isaac Chotiner

  • Presidence de le République Francaise/AFP

    Foto oficial do presidente francês, Emmanuel Macron, no Palácio Eliseu, em Paris

    Foto oficial do presidente francês, Emmanuel Macron, no Palácio Eliseu, em Paris

Nesta semana, o presidente Donald Trump está na França para um novo encontro com o novo presidente francês, Emmanuel Macron. Apesar de ser um ex-ministro do governo e membro do establishment francês, Macron saiu do Partido Socialista para fundar seu próprio "movimento", o En Marche!, o usando como plataforma para chegar à presidência. Seu novo partido então conquistou a maioria na Assembleia Nacional. Macron conseguiu tudo isso prometendo restaurar o "destino" francês perdido, mas dentro de um contexto de uma Europa mais forte.

Na véspera da visita de Trump, eu troquei e-mails com Cécile Alduy, uma professora de estudos franceses da Universidade de Stanford e autora de livros sobre a líder nacionalista francesa de direita, Marine Le Pen, e sobre a política francesa. Ao longo de nossa conversa, que foi editada e condensada para fins de clareza, nós discutimos se a nova imagem de Macron contém alguma substância, o motivo do colapso da popularidade de Le Pen e se os atritos de Macron com Trump são responsáveis por parte de seu sucesso.

Isaac Chotiner: O que mais surpreendeu você nas primeiras semanas de Macron como presidente?

Cécile Alduy: Macron tem sido um mestre em pegar as pessoas de surpresa desde o início. Primeiro, foi o lançamento de seu movimento "En Marche!" em abril de 2016, que ninguém pensou que decolaria e atualmente alega contar com 375 mil membros (não pagantes). Depois sua candidatura à presidência por conta própria e contra a tradição de esperar pelo presidente no poder declarar sua própria candidatura. E finalmente sua vitória.

Mas não deveríamos nos surpreender, porque, toda vez, o que ele fez foi seguir a conclusão lógica de uma análise fria do estado da opinião pública francesa. Os eleitores franceses queriam "mudança" e "renovação" nas pesquisas de opinião para as eleições de 2017: ele forneceu isso. A confiança nos partidos políticos tradicionais caiu para 14% entre os cidadãos pesquisados em 2016; ele então construiu um movimento (com uma estratégia) "esquerda e direita" em vez de preservar afiliações partidárias.

Como novo presidente, Macron continua sendo cheio de surpresas ao atender exatamente o que as pesquisas de opinião revelaram, mas algo que ninguém de fato ousa fazer. As pessoas expressaram uma forte preferência por autoridade e desprezavam o ex-presidente Hollande por confiar demais nos jornalistas e por ser "normal" demais.

Macron impôs uma cenografia grandiosa ao seu acesso ao poder, marchando para o Arco do Triunfo passando pelo pátio do Louvre, depois desfilando em um tanque militar na Champs-Élysées no dia de sua posse. As pessoas desconfiam de políticos e queriam rostos novos: ele investiu em centenas de novatos, que nunca antes buscaram um cargo eletivo antes, como candidatos para as eleições legislativas, etc.

O que ainda me surpreende é que ele está conseguindo fazer com que dê certo. Ele é um mestre do simbolismo e consegue personificar ao mesmo tempo juventude, renovação e autoridade, mas apresenta políticas que não são novas, mas ninguém parece considerar isso um blefe.

Por exemplo, seu novo projeto de lei de reforma trabalhista é uma continuidade da política de Hollande, ou de seus próprios projetos de lei como ex-ministro da economia de Hollande, por exemplo. Porém há uma "Macron-mania" real, uma adoração por tudo o que ele diz ou faz.

Michel Euler/AP
O presidente da França, Emmanuel Macron, desfila em carro militar pela Champs-Elysées durante sua posse


Chotiner: Ele está começando a ser tratado como um "neogaullista", uma nova versão da liderança e visão de mundo de Charles de Gaulle. O que exatamente isso significa em 2017?

Alduy: Há dois aspectos diferentes nessa comparação, uma ideológica e uma institucional. Os comentaristas notam acertadamente que os eventos políticos recentes (uma profunda renovação dos políticos no Congresso, a coalizão de personalidades de direita e esquerda em um "movimento" formado em torno de um líder carismático, os socialistas em ruínas) nunca foram vistos antes, exceto quando De Gaulle chegou ao poder em 1958. Logo, há um paralelo histórico válido entre os contextos políticos de 1958 e 2017.

Macron também deseja personificar uma figura presidencial "gaulinesca" (em vez de gaulista): uma figura com autoridade que é aplaudida diretamente e conduzida ao poder pelo povo (fora de qualquer partido político), mantendo-se como um semimonarca digno acima da fosse das brigas entre políticos.

Mas o adjetivo "neogaullista" implicaria em um posicionamento político à direita no espectro político, e uma posição ideológica que favoreceria a independência nacional da França de organizações internacionais (De Gaulle se retirou do comando integrado da Otan –Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental– e também suspeitava da União Europeia), assim como em uma afirmação de uma política externa independente, mas esse não é o caso com Macron.

Chotiner: É como se você estivesse dizendo que Macron está pregando um nacionalismo muito amistoso com o internacionalismo. Essa é uma caracterização correta?

Alduy: Eu não chamaria a linha política dele de nacionalista ou nacionalística. Em vez disso, ele está invocando o patriotismo de um modo mais amplo e mais aberto. Macron quer devolver aos franceses seu orgulho, mas o faz sem apontar um inimigo que seria culpado pela atual baixa autoestima. É um tipo de orgulho nacional "aberto ao mundo".

É bem típico do estilo de política de Macron: sua campanha é a vitória da política emocional, um apelo às emoções ("otimismo", "energia", "desejo", "benevolência" são suas palavras-chave) em vez de valores ou políticas.

É claro que ainda é cedo para avaliar o impacto da presidência de Macron, Temos que diferenciar entre seu lado político e suas políticas. Estas últimas são uma combinação de medidas culturais de mentalidade liberal (licença maternidade para todos; um plano para redução da desigualdade de gênero na política e na economia) e políticas neoliberais (desta vez no senso de "laissez-faire") na frente econômica.

Menos impostos, especialmente para aqueles na faixa mais alta e para investidores e empresas; menos governo; mais "flexibilidade" no mercado de trabalho, o que significa o relaxamento das negociações entre empresas e sindicatos e menos obstáculos para demissão de funcionários. Logo, nada de novo aqui.

Em termos de seu lado político, a forma como está exercendo o poder, organizando o processo de tomada de decisão em torno dele, mudando os modos dos políticos para sua geração, haverá algo substantivo quando e se ele cumprir sua promessa de promover mudanças institucionais para redução do tamanho do Congresso, mudança do sistema eleitoral para melhor representação dos movimentos políticos menores e a "moralização" da forma como as autoridades eleitas trabalham com lobistas ou se deparam com conflitos de interesse.

Entretanto, algumas dessas mudanças exigirão aprovação tanto do Congresso quanto do Senado com dois terços dos votos, o que é difícil. E o Senado já está empacando.

Até o momento, o que temos visto é um aumento do domínio do Executivo sobre o Parlamento, com uma maioria silenciosa do "En Marche" aplaudindo toda e qualquer palavra falada pelo presidente. É uma verdadeira preocupação.

Carolyn Kaster/AP
13.jul.2017 - Os presidentes Donald Trump (esq) e Emmanuel Macron e as primeiras-damas Brigitte Macron (esq) e Melania Trump jantam no restaurante Jules Verne, na Torre Eiffel, em Paris


Chotiner: Algum dos partidos políticos existentes parece ter uma resposta a ele e ao En Marche?

Alduy: Surpreendentemente, a Frente Nacional quase deixou de existir como voz política de oposição. O desastroso debate presidencial de Marine Le Pen, os números insignificantes da Frente Nacional na Assembleia Nacional, as divisões internas do partido, tudo isso os deixou sem fala e ininteligíveis.

Isso é um choque: há apenas um ano, Marine Le Pen estava exibindo a Frente Nacional como o "Primeiro Partido da França", e de forma justificada, com sucessos eleitorais recordes em 2015 (28%). Agora tudo terá que se reconstruído de novo do zero.

O Partido Socialista está em morte cerebral no momento: seu candidato, Benoît Hamon, conseguiu obter a pior votação em toda a história da Quinta República com 6,5% dos votos, e apenas 31 candidatos socialistas foram eleitos para o Congresso, em comparação a 295 em 2012!

O Partido Republicano está sofrendo de seu mal habitual: divisões e brigas em público. A única força que encontrou uma voz pública forte e elegível é a "France Insoumise" de Jean-Luc Mélenchon, mas é difícil dizer quão eficazes podem ser em mobilizar e atrair outras correntes devido às tendências autoritárias de Mélenchon.

Chotiner: Como você entende o colapso de Le Pen?

Alduy: Marina Le Pen vinha navegando em patamares estratosféricas com números altos nas pesquisas de opinião pública até janeiro de 2017. Seus sucessos anteriores em eleições locais, seus bons números nas urnas e o estado abissal da esquerda e da direita, todos esses elementos deram grandes esperanças a seus simpatizantes: "É a nossa vez" era o espírito.

Mesmo que não conquistasse a presidência, eles esperavam que ela se sairia muito melhor e então conseguiria 50 ou mais representantes no Congresso.

Mas Marine Le Pen ruiu durante o debate final com Macron: o desempenho dela foi péssimo, mesmo aos olhos de seus fãs. Ela pareceu agressiva, até mesmo assustada, e incompetente em assuntos fundamentais de sua plataforma, como a saída da zona do euro. Como consequência, houve uma queda no comparecimento às urnas dos eleitores da Frente Nacional, ao mesmo tempo em que os simpatizantes de Macron se mobilizaram em massa, tanto na eleição presidencial quanto depois, por seus candidatos à Assembleia Nacional.

Os simpatizantes da Frente Nacional ficaram desmotivados ao verem todos seus esforços irem por água abaixo em um único debate público lamentável. Em vez de se sentirem energizados pela posição histórica de Marine Le Pen no segundo turno da eleição presidencial, eles jogaram a toalha.

Chotiner: Quão grande é a história na França dos atritos de Macron com Trump e quão importantes são para o sucesso dele?

Alduy: Para colocar de forma branda, Donald Trump tem uma reputação bastante negativa na França, de modo quase geral (exceto talvez dentro das fileiras da Frente Nacional). As discussões de Macron com alguém amplamente visto como um valentão irracional dá certo orgulho aos franceses, algo raro e bem-vindo.

Macron pareceu forte, viril, moderno e do lado certo da história, tudo parecendo apontar para sua capacidade de defender sua posição em nome da França no cenário internacional, apesar de sua inexperiência e juventude. A mensagem subliminar é de que Macron é o "Obama francês".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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