Opinião: Twitter precisa monitorar os tuítes de Trump para evitar uma guerra acidental

Jennifer Grygiel

  • Josh Haner/The New York Times

    29.set.2015 - Donald Trump navega pelo seu perfil no Twitter em seu escritório no Trump Tower, Nova York

    29.set.2015 - Donald Trump navega pelo seu perfil no Twitter em seu escritório no Trump Tower, Nova York

Quando o presidente Donald Trump fez um controverso anúncio-surpresa a respeito de proibir pessoas transgênero nas forças armadas, ele não realizou uma entrevista coletiva à imprensa, nem emitiu um comunicado. Ele tuitou três vezes, em seu característico estilo confuso e fragmentado no Twitter, em um período de 13 minutos. É verdade que a proibição de transgêneros é claramente algo que precisa ser discutido, e felizmente isso está acontecendo. Mas também precisamos falar sobre moderação no Twitter e a necessidade de evitar que o mundo se envolva em uma aniquilação nuclear.

Ao anunciar a proibição, o presidente apavorou um monte de gente, inclusive o alto escalão do Pentágono, de acordo com o BuzzFeed.

Bobagem. Só pessoas na sede do Departamento de Defesa imaginando se estávamos atacando a Coreia do Norte ou não.

As ações mais recentes do presidente no Twitter deveriam ser um sinal de alerta para o Twitter e seu CEO, Jack Dorsey. E se o presidente estiver tuitando de luva e apertar as teclas erradas, ameaçando a segurança nacional? Felizmente os erros de digitação de Trump como "covfefe" não são letais em si, do contrário estaríamos todos mortos, mas isso não significa que um erro de digitação não possa causar grandes danos. E se Trump tuitasse "Depois de consultar meus generais estou anunciando uma escalada na ação militar com a Síria" em vez de "Depois de consultar meus generais estou anunciando uma desescalada na ação militar com a Síria"? Três letras podem fazer muita diferença.

Ou se ele perder a cabeça e disser algo que seja visto como uma ameaça militar, ainda que sua intenção não passe de uma bravata vazia? Ou ainda, se alguém hackear sua conta e tuitar que estamos prestes a, digamos, bombardear um aliado? Nós já sabemos que os tuítes de Trump podem influenciar o mercado financeiro. Será que realmente queremos descobrir se eles podem mobilizar caças?

Muitas pessoas pediram para que o Twitter banisse Trump por violar os padrões da comunidade sobre discurso de ódio e assédio --existe até mesmo um abaixo-assinado online com milhares de assinaturas pedindo isso. O deputado Keith Ellison (Democrata-Michigan) afirmou que o presidente devia ser banido porque ele é um "bully das mídias sociais". Após sua eleição, quando começou essa conversa, o Twitter disse que banir Trump era possível, declarando: "As regras do Twitter se aplicam a todas as contas, inclusive contas verificadas". Mas a empresa não o baniu, e duvido que o faça algum dia. O Twitter teria dificuldades para manter sua relevância --afinal, o presidente é uma grande atração-- e a empresa provavelmente sofreria uma enorme pressão para reverter sua decisão.

Mas, por mais preocupantes que sejam, discurso de ódio e assédio não são as preocupações mais urgentes aqui, e sim a segurança. Como um erro de digitação ou um acesso de raiva podem levar a um grande incidente internacional, precisamos de uma salvaguarda. Por sorte existe uma solução. Moderar previamente o conteúdo é a única maneira de garantir que tuítes não autorizados (ou particularmente perigosos) do presidente não sejam publicados. Implementar um sistema como esse seria uma batalha árdua e profundamente polêmica. Mas seria o melhor para todos.

Um sistema de moderação prévia tenderia fortemente a favor de publicar tuítes --na verdade, se funcionasse, o Twitter raramente se envolveria de fato. Não seria como um sistema de comentários no qual cada declaração precisa ser aprovada antes de ser publicada. Seria algo muito mais passivo. Haveria, digamos, um delay de 30 segundos para cada tuíte (então um pouco mais do que um delay de TV ao vivo), tempo durante o qual alguém da equipe do Twitter precisaria olhá-lo. Essa não seria uma tarefa para algoritmos --precisaríamos de humanos inteligentes de verdade para o trabalho. (O Twitter teria de pagar muito bem a essas pessoas e fazer um rodízio frequente entre elas, é claro --passar o dia inteiro olhando para uma tela, esperando por um punhado de tuítes de Trump seria algo horrível.)

Se não houvesse nada claramente perigoso, o tuíte seria publicado normalmente. Mas se surgisse uma questão importante --como uma ameaça de ação militar, ou algo que sugerisse que a conta foi comprometida-- então o representante do Twitter se certificaria de que o tuíte não fosse publicado. O Twitter precisaria de uma triagem detalhada de mídias sociais e de um plano de crise de comunicação, um que definisse como as coisas devem ser priorizadas e gerenciadas.

Então, por exemplo, digamos que o presidente tenha tuitado algo como "alguém deveria atacar a Coreia do Norte... vocês têm minha bênção". O moderador do Twitter de olhar aguçado perceberia o tuíte, seguraria sua publicação e ligaria para um contato pré-determinado do governo para resolver a questão.

Embora tivesse que ser aplicado a somente um pequeno grupo para funcionar, ele poderia ir além de Trump, incluindo algumas outras contas de influência global especialmente ampla. Se Kim Jong-un algum dia decidisse entrar no Twitter, eu certamente esperaria que seus tuítes passassem por uma moderação prévia.

Dorsey pode achar que está fazendo a coisa certa ao confirmar recentemente que o presidente Trump precisa seguir as mesmas regras do Twitter como todas as outras pessoas. Mas simplesmente tratar o presidente da mesma forma como usuários comuns é irresponsável. (O Twitter já assinalou que algumas contas são mais importantes que outras e são tratadas de forma diferente --são as chamadas contas verificadas.) Sem uma moderação prévia, o Twitter pode ser usado como uma arma, seja intencionalmente (com Trump ameaçando um ataque, ou um grupo de hackers comprometendo seu ataque) ou não intencionalmente (através de erros de digitação).

Está na hora de o Twitter reconhecer sua responsabilidade ética. Ele precisa fazer uma moderação prévia dos tuítes do presidente e remover ou reter qualquer um que possa ter implicações sérias para este país e para a humanidade. A melhor analogia histórica pode ser com o secretário de defesa do presidente Richard Nixon tentando garantir que um presidente bêbado não pudesse ordenar um ataque nuclear sozinho. Só que nesse caso, Dorsey não estaria minando a autoridade do presidente --ele é dono da empresa e é quem manda. Moderar o presidente seria um poder que, espero, o Twitter nunca teria de exercer. Mas a empresa precisa de um plano para como gerenciar tuítes que ameacem a segurança nacional.

Se você está com receio de isso ser uma mordaça para Trump, não se esqueça: essa não seria uma questão de Primeira Emenda. Como empresa, o Twitter determina suas próprias regras e condições de serviço. Além disso, o governo tem uma infinidade de meios de se comunicar com o público. Ele poderia divulgar um comunicado de imprensa oficial com todas as informações de uma só vez em vez de pingá-las aos poucos em surtos de 140 caracteres. Ele poderia dar uma declaração através da secretária de imprensa, onde ela poderia responder a perguntas importantes de uma maneira oportuna. Trump também poderia fazer um discurso televisionado a partir do Salão Oval. Não tenho certeza de que o presidente se lembra de que existem opções além dos tuítes, mas seria bom lembrá-lo.

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos