Análise: Colapso venezuelano tem origem no mito de que o dinheiro do petróleo pode tudo

Isaac Chotiner

  • Ariana Cubillos/AP

    "Na Venezuela não tem nada", diz cartaz de manifestante em Caracas

    "Na Venezuela não tem nada", diz cartaz de manifestante em Caracas

Em uma eleição contenciosa e altamente irregular no domingo, a Venezuela votou pela criação de uma nova Assembleia Constituinte, que daria ao presidente Nicolás Maduro um maior controle de um país dividido e caótico. Desde a votação, o governo de Maduro continuou a prender representantes da oposição reprimida do país, e o governo Trump está impondo novas sanções a Maduro.

O presidente venezuelano e sucessor de Hugo Chávez, que morreu em 2013, está governando em meio a uma escassez horrível de alimentos e medicamentos, assim como crescente caos e violência.

Para discutir os eventos recentes na Venezuela, eu conversei por telefone com Terry Lynn Karl, uma professora emérita de ciência política e estudos latino-americanos da Universidade de Stanford e autora de "The Paradox of Plenty" (O paradoxo da abundância, em tradução livre, não lançado no Brasil). Ao longo de nossa conversa, que foi editada e condensada para fins de clareza, nós discutimos como Maduro difere de Chávez, o que os Estados Unidos deveriam e não deveriam fazer para resolver a crise e por que o petróleo é uma maldição.

Isaac Chotiner: Como você descreveria o que estamos testemunhando na Venezuela?

Terry Lynn Karl: Acho que o que é incrível é estarmos testemunhando o colapso de um grande país moderno e rico que tem tanto uma tradição democrática quanto autoritária. Fica a apenas poucas horas dos Estados Unidos e tem as maiores reservas mundiais de óleo cru. A Venezuela é um barril de pólvora e o pior cenário agora seria uma guerra civil.

Acho que esse cenário provocaria uma crise de refugiados. Poderia espalhar instabilidade. Provocaria ainda mais criminalidade na América Central e no Caribe do que já ocorre, de modo que trata-se de uma crise realmente séria e uma crise que ninguém parece estar dando a devida atenção.

Chotiner: Qual você considera ser a principal causa disso? Você a traça às políticas de Chávez ou às de Maduro?

Karl: Acho que está enraizada no colapso do sistema de dois partidos e da democracia. Há uma resposta mais ou menos simples de como chegaram a este ponto, que é o colapso dos preços do petróleo, a dependência excessiva deles do petróleo, os gastos excessivos do governo Chávez e agora do governo Maduro, o fato de haver um governo sem freios e contrapesos, com seu ultrapresidencialismo governando por decretos de emergência, que reprime a dissensão e é altamente corrupto.

O problema com tudo que acabei de listar é que tudo isso existia também na democracia. Tudo isso. O colapso do sistema partidário é o que levou a Chávez. O sistema partidário sofreu colapso, no meu entender, porque não fez nada pelos pobres. O slogan na época era: "Onde está o dinheiro do petróleo?" Todo esse dinheiro está entrando, mas onde está? Isso é o que levou a Chávez.

Assim, o que Chávez fez é o mesmo que o sistema partidário fez, que foi depender excessivamente das receitas do petróleo, que é responsável por mais de 96% de suas exportações. É como obtinham suas reservas de moeda estrangeira. Eles abusaram do petróleo ao começarem a gastar dinheiro com os pobres com tudo, desde gasolina a US$ 0,02 até imóveis residenciais e atendimento médico gratuitos, assim como a construção de clínicas.

Todas essas coisas eram, eu acredito, por ter vivido na Venezuela por muito tempo, muito necessárias e muito admiráveis, mas não se pode gastar dinheiro que não tem. O mito na Venezuela é que há receita de petróleo suficiente ali para apoiar qualquer governo que esteja no poder e qualquer coisa que o governo queira fazer. Esse era o mito durante a democracia, continuou sendo um mito sob Chávez e continua sendo um mito hoje.

Chotiner: Então me parece que você está dizendo que eles passariam por uma variedade de crises por causa da dependência do petróleo, independente da característica do regime.

Karl: Exatamente. Ela destruiu a democracia existente no sistema de dois partidos, que era uma democracia muito falha. Ela destruirá o atual governo. Ela destruiu o governo militar em 1958. Esse não é um problema apenas venezuelano. Esse também será o problema do Iraque, ou já é o problema do Iraque, ou (o problema) de qualquer exportador de petróleo que viva apenas de petróleo. Não se pode depender e administrar uma economia com base em apenas uma única commodity que é extremamente volátil.

Chotiner: Você pode falar especificamente como isso contribuiu para o colapso do sistema de dois partidos?

Karl: Esse é o motivo para Chávez ser considerado um grande herói para tantos venezuelanos. O sistema de dois partidos ficou muito esclerosado, corrupto. Ele gastava dinheiro que não tinha. Ele fez todas as coisas que vemos agora, exceto que havia uma solução, que era Chávez.

O que o sistema partidário fez foi agir como se houvesse dinheiro suficiente para todos, e então quando Carlos Andrés Pérez retornou ao poder para seu segundo mandato, isso foi no final dos anos 1980, ele prometeu que daria dinheiro aos pobres. Em vez disso, ele deu uma meia volta e instalou um programa de austeridade neoliberal que aumentou o preço do petróleo.

le o fez de forma muito abrupta, de modo que em 1989 ocorreu uma imensa explosão social, com muito mais mortes do que vemos hoje, a propósito, que é chamada de Caracaço. As forças de segurança do Estado do sistema partidário mataram na ocasião centenas de manifestantes e muitas pessoas acreditam que o número chegue a milhares.

Para os venezuelanos que se recordam de 1989, o sistema partidário era o inimigo e Chávez era o herói, porque acima de tudo as coisas melhoraram sob ele. O preço do petróleo subiu. Ele começou a abrir clinicas gratuitas, e ensino primário, atendimento de saúde universal, alimentos subsidiados etc. etc. etc., mas agia como se houvesse dinheiro suficiente para sustentar tudo isso.

Quando você distribui dinheiro que não tem, há apenas duas soluções. Você toma emprestado, que é o que os EUA fazem, ou imprime dinheiro. Isso também é o que os EUA fazem. O problema com a impressão dos bolívares venezuelanos é que ninguém os quer. Uma coisa é imprimir dólares. Outra coisa completamente diferente é imprimir bolívares, não é? Ninguém os quer. Assim, quando fazendo isso, eles causam inflação, e no momento a previsão é de que a inflação seja de 720%.

Chotiner: Existe uma linha clara entre Chávez e Maduro, especialmente em termos de atitude em relação à oposição e a liberdade de imprensa?

Karl: Acho que há uma linha clara, mas há duas diferenças realmente importantes. Uma é que Chávez nunca fez nada sem uma eleição que pudesse ser verificada, de modo que continuava vencendo eleições, e quando mudava algo como a Constituição, que ele mudou, havia um mandato imenso para fazê-lo.

Hoje, Maduro não está usando eleições livres e justas da mesma forma que Chávez. A crise é muito mais profunda e o fato é que os apoiadores de Chávez ainda amam Chávez. Ele morreu na hora certa, se é que eu possa colocar dessa forma. Eles ainda o amam. Ele foi um líder muito poderoso, carismático e autoritário, e eles realmente respondiam a ele. Esse não é o caso com Maduro.

Acho que Maduro está longe de ser um líder como Chávez. Acho que o que é difícil para os americanos entenderem a respeito de Chávez é que ele próprio era pobre. Ele tinha pele escura. Os venezuelanos se identificavam com ele, não apenas por suas noções de que um país rico como esse não deveria ter tantos pobres, mas também por sua aparência e forma de falar.

Ele tinha um pouco, mas não tanto, daquele toque de Fidel Castro, se é que possa colocar dessa forma. Maduro não tem nada disso, e quando um líder autoritário tem isso, ele pode fazer uso de eleições, porque provavelmente vencerá, mas Maduro não tem nada disso.

Chotiner: A solução do governo americano no momento parece ser encher Maduro de sanções. Eu me pergunto qual você acha que seria uma solução para essa crise, se há uma alternativa para uma guerra civil, que anteriormente você disse temer.

Karl: Bem, eu acho que o principal a se fazer é não causar mal, pois a última coisa que alguém desejaria é levar a Venezuela a uma guerra civil. Quero dizer que essa é uma possibilidade, porque a) todo mundo tem uma arma na Venezuela, e b) há duas narrativas completamente diferentes.

Há a história que o pessoal de Maduro diz, que é: "O motivo para termos uma crise econômica é que os ricos deste país e os EUA estão travando uma guerra econômica contra nós, e tudo mais é notícia falsa".

E então há a oposição, que está dividida. Há pessoas que desejam um retorno ao sistema partidário, e querem austeridade, e querem uma economia de mercado sem restrições, que no meu entender nunca acontecerá na Venezuela, e elas também, muitas delas, defendem um confronto mais violento com o governo, nada de negociações e etc. E há a oposição chamada Primero Justicia, que insiste em um caminho constitucional, um caminho institucional para uma solução melhor. O problema é que a primeira oposição tem muito mais laços com os EUA e retrata isso como uma história de socialismo contra capitalismo.

Nesse contexto, o que fazer? Bem, eu acho que a primeira coisa a se fazer é nada que seja unilateral. Os EUA não deveriam ser unilaterais, porque isso reforça a noção de que estamos tentando derrubar o governo. Há uma longa história e tradição na Venezuela de envolvimento americano, e as pessoas acreditam que é o que está acontecendo mesmo quando não é.

A segunda coisa que realmente deveríamos fazer é um embargo de armas. O Brasil acabou de suspender a venda de gás lacrimogêneo para a Venezuela e acho que deveríamos suspender todas as armas à Venezuela, porque não queremos mais armas circulando por lá.

Chotiner: Que papel exerceria uma ação envolvendo o petróleo?

Karl: Falar sobre sanções ao petróleo é extremamente perigoso, pois poderia mergulhar a Venezuela em uma crise humanitária ainda maior do que a que enfrenta agora. Não há comida. Não há medicamentos. Não há papel higiênico. Não há pasta de dente. Não há nada.

As pessoas passam o tempo todo em filas, de modo que há um enorme mercado negro que está beneficiando as pessoas mais ricas, de modo que não queremos criar mais disso, porque seria devastador e manteria a queda livre econômica.

Há muitos cálculos aqui que são muito delicados. A última coisa que eu diria é que provavelmente a Venezuela dará um calote em suas dívidas, e todo mundo com alguma memória se lembra do que aconteceu quando tivemos a crise do México. Nós não gostamos de países... quando digo "nós", falo do sistema internacional, não gosta de países que dão calote em suas dívidas. É algo muito perigoso, pois pode se tornar contagioso.

Se a Venezuela o fizer, talvez a Argélia e Angola, dois países de petróleo em dificuldades terríveis no momento, também o façam.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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