Como ex-fotógrafo da Casa Branca se tornou emblema de sede por resistência

Por Katy Waldman

  • Charles Dharapak/AP Photo

    O ex-fotógrafo da Casa Branca, Pete Souza

    O ex-fotógrafo da Casa Branca, Pete Souza

Desde a eleição, o ex-fotógrafo da Casa Branca, Pete Souza, está inundando o Instagram com cartões postais da presidência de Barack Obama. O momento de cada postagem é deliberado, visando contrastar a graça e postura do ex-presidente com a malícia do atual. A conta de Souza no Instagram, que tem atualmente cerca de 1,5 milhão de seguidores, parece com um espelho mágico repleto de imagens de um passado mais brilhante.

Depois que o presidente Donald Trump discursou no Encontro Nacional dos Escoteiros se gabando da noite da eleição em 2016, Souza apresentou uma foto de Obama apertando a mão de um menino uniformizado admirado. "Posso assegurar a você, o presidente não está dizendo a esse lobinho e aos escoteiros que se seguiram sobre sua vitória no Colégio Eleitoral", ele escreveu.

E quando @RealDonaldTrump humilhou publicamente o secretário de Justiça, Jeff Sessions, ao condenar sua "fraca posição a respeito dos crimes de Hillary Clinton", Souza lembrou de uma época perdida de lealdade e fraternidade. Ele ofereceu uma imagem tranquilizadora de Obama e Eric Holder, lado a lado, com suas mãos sobre seus corações.

Os comentários eram ilustrativos. "Eu me sentia tão seguro quando esses dois homens honrados e brilhantes estavam no comando! FAÇA OBAMA PRESIDENTE DE NOVO!" respondeu um usuário. "Não consigo parar de rir, sua postagem devolveu minha vida", disse outro. Os seguidores de Souza encheram a imagem de "emojis" de aprovação.

As alfinetadas fotográficas de Souza têm sido energicamente documentadas por uma imprensa liberal sedenta por heróis da resistência. Como da vez em que Trump tuitou que viu a apresentadora da "MSNBC", Mika Brzezinski, "sangrando feio de um lifting facial" após ela criticá-lo no ar, e Souza respondeu exibindo cinco fotos do presidente Obama conversando, buscando conselho, abraçando e rindo com mulheres, uma série que ele intitulou de "Respeito pelas mulheres".

Isso levou a uma enxurrada de artigos sobre como Souza "trolla" Trump, textos que exploram o "feed" do fotojornalista em busca de evidência de como Obama lidou de forma superior com James Comey, Vladimir Putin e o papa Francisco. Quando o projeto de reforma da saúde de Trump naufragou, Souza dançou sobre o túmulo do projeto com uma imagem do ex-presidente "convencendo democratas indecisos" a votar pela Lei de Saúde a Preço Acessível. ("Meu presidente para sempre!" foi coro dos comentários.) "O fato de ele conhecer os detalhes do projeto de lei e as complexidades da política de saúde tornou os telefonemas mais eficazes e, portanto, mais bem-sucedidos", observou Souza na legenda, girando a faca.

Outra foto mostrava Obama realizando seu característico cumprimento com o punho por uma fila de americanos em uniformes médicos. "Lutando por uma boa causa: o atendimento de saúde", esclareceu Souza. Por mais encenada que tenha sido a foto, ela sugere um presidente à vontade, saindo do roteiro para se conectar com eleitores agradecidos. A foto marcou uma pausa em relação a atual mixórdia de "selfies" desajeitadas por iPhone e retratos afetados. Olhar para ela é ao mesmo tempo restaurador e de partir o coração, como a ilusão tremeluzente de um oásis após se arrastar pelo deserto por dias.

O que é, é claro, a principal coisa que o "feed" de Souza no Instagram promete: sombra. "Não consigo ver o sol porque há sombra demais aqui", brincou um usuário nos comentários, referindo-se a uma imagem na qual Obama se ergue sobre Putin em uma reunião que "foi exposta à imprensa".

Com Trump no poder, servido pelas servas do inferno, Jared Kushner e Steve Bannon, o passado com frequência parece como um universo alternativo. Souza busca nos familiarizar de novo com esse mundo desaparecido, onde as normas predominavam, homens eram homens e as palavras tinham significado, onde o sol se erguia nos templos de nossos ancestrais e seis virgens guardavam incessantemente o fogo sagrado. É importante lembrar como é ser "presidencial", para o caso de a civilização sobreviver a Trump e termos a oportunidade de trocá-lo por alguém mais qualificado. É crucial lembrar da resistência platônica de certos códigos de comportamento político, códigos que transcendem o pântano, o muro, a proibição, o Mooch e o restante dos substantivos grosseiros que atualmente regem nosso discurso. (Estou apenas brincando, Mooch já está fora. Mesmo sem comparar uma foto atemporal, este governo inverte a si mesmo mais rápido que um mestre de ioga.)

'Obama partiu, mas Souza permanece, brandindo o acesso que teve como um candelabro coberto de teias de aranha.'

Mas não está claro quão útil é essa nostalgia para um partido com dificuldade de conseguir um retorno. Apesar das lembranças brilhantes de Souza não chegarem a se qualificar como escapismo (a comparação com a terra de Trump é explícita demais), elas mantêm nossos olhos nos dias idealizados do passado. E em uma época em que o caminho mais certo para curtidas é bajular as inclinações dos demais cidadãos de sua bolha partidária, o ex-documentarista da Casa Branca se transformou em um coçador das coceiras masoquistas e um fornecedor de autoparabenização requintadamente malfadada. Obama partiu, mas Souza permanece, brandindo o acesso que teve como um candelabro coberto de teias de aranha. Ele se tornou um emblema de um fenômeno impropriamente moderno: a sede por resistência.

Há no momento uma tendência geral na esquerda de amar ostensivamente os objetos de amor mais óbvios e odiar os objetos de ódio mais conspícuos. As tenras cartas de amor visuais de Souza para Obama parecem um caso particularmente claro dessa tendência. Elas ilustram quão fácil é para os liberais se autoacalmarem em meio à nossa oposição, erguendo nossos próprios traseiros em busca de um "amém".

Passar algum tempo na conta de Souza no Instagram significa chafurdar em uma deliciosa tristeza. Para cada comentarista se alegrando com o "chá" ou "sombra", há dois que alegam estar "destruídos" ou "quebrados" diante da lembrança do presidente que tínhamos. Eu passei uma tarde checando as imagens de Obama de autoria de Souza com meus colegas. "Esta aqui me matou", disse um editor, citando uma foto do ex-presidente radiante diante de uma criança cheia de curiosidade. Uma outra colega de trabalho confessou que, quando viu a foto de uma criança escutando o coração do ex-presidente com um estetoscópio, "fiquei com os olhos marejados".

De que nos serve ficar sentados chorando pelo paraíso perdido? Depois de algum tempo, Eneias teve que se animar, aceitar que Troia foi saqueada e fundar Roma. Adão e Eva tiveram que parar de esperar por tâmaras maduras caírem em suas bocas e começar a plantar. Se capitão Ahab tivesse superado, Herman Melville poderia ter passado sua idade madura pescando serenamente no Hudson, em vez de escrevendo "Moby Dick". Há algo nauseante na forma como o "feed" beatifica Barack Obama em um rei Arthur ianque. Assim como Kamala Harris ou Elizabeth Warren, ele se tornou um avatar das esperanças e sonhos da esquerda, um líder cuja apoteose nos nega a oportunidade de aprender com seus erros.

Basta olhar para uma recente lembrança postada na conta de Souza no Instagram. Essa imagem mostrava Obama pedindo uma refeição no Chipotle, com seu antebraço pendurado sobre o anteparo higiênico separando os ingredientes do burrito dos clientes. "Lembra deste escândalo de 2014?" diz a legenda de Souza para a imagem. "Isso foi culpa minha e sou o único responsável. Se não tivesse postado esta foto, ninguém saberia que ele ultrapassou o anteparo higiênico da Chiplote."

Que transgressão! (Piscadela) Previsivelmente, a postagem provocou lamentos pelos dias em que o ultraje mais urgente na Casa Branca era o presidente ter ultrapassado o anteparo higiênico de um restaurante fast food. (Obama não seria o último político a se comprometer devido a uma paixão imprópria por comida mexicana falsa.) Mas essa história divertida esquece as falhas e erros reais de Obama, sua ocasional ineficácia, os ataques não autorizados com drones que mataram centenas de civis. Talvez Obama esteja se transformando, para a esquerda, no que Ronald Reagan passou a representar para a direita, uma figura telegênica, reverenciada após o fato, capaz de personificar os melhores e mais verdadeiros instintos do partido. O sujeito que demonstrava sua autoridade de forma tão gentil que fazia bebês se encherem de felicidade. (Todos nós já fomos aquele bebê em algum momento.)

A postagem que pode mais bem cristalizar a sede por resistência de Souza é uma foto, postada em 22 de julho, de Obama no volante de um carro de luxo. "Quem dera isso fosse uma máquina do tempo", escreveu Souza como legenda para a imagem. "Infelizmente, aquele é Robert Gibbs à direita, não 'Doc' (Brown)."

A foto não poderia ser mais diferente da foto de Trump que ela evoca: o atual presidente, com o rosto contorcido de forma maníaca, fingindo dirigir um caminhão no gramado da Casa Branca. Apesar de parecer espontânea, a foto de Souza é elegantemente enquadrada e iluminada de modo belo; é até mesmo possível sentir o cheiro do couro macio do assento e sentir os ternos claramente bem passados. Obama parece calmo e no comando. Gibbs parece estar sorrindo. E há aquele desejo presente na legenda.

Com seu Instagram, Souza construiu um santuário pacífico, um espaço no qual a esquerda pode ignorar Trump e sonhar com seu antigo governo voltando à vida. Mas o tipo de fantasia que vende evapora no segundo em que você fecha a janela. Assim que você decide viver no mundo real, não há muito o que se possa fazer com um espelho mágico que mostra aquilo que você quer ver, em vez de como as coisas realmente são.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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