Depoimento: As lições que aprendi ao comprar sapatos com uma podóloga

Heather Schwedel

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Recentemente, realizei um antigo sonho: fui comprar sapatos junto com uma podóloga.

Vou explicar: eu adoro sandálias. Elas são como minha kryptonita --eu as desejo, sinto-me impotente diante de sua atração. Quero especificar que geralmente não sou uma mulher louca por sapatos --mas aí começa o verão e meus pés querem se sentir livres. Meus artelhos desejam sentir o ar do verão. Minha mãe disse que ela e eu somos "nudistas pédicos". O modo como eu imagino que os nudistas se sentem ao deixar tudo pendurado, ela e eu sentimos sobre desnudar, ou quase, nossos pés.

Não sou, entretanto, uma "nudista pédica" que se contenta em usar Birkenstocks ou algo similarmente antiestético --preciso de sandálias que pareçam italianas, delicadas e feitas à mão. Mas as sandálias são uma amante cruel: quanto mais bonitas, mais elas machucam. É como aquela frase de Anna Karênina: as sandálias confortáveis são todas iguais (feias); toda sandália desconfortável é desconfortável à sua própria maneira.

Seja a irritação resultante de uma bolha horrorosa ou a falta de apoio ao arco do pé ou tiras trançadas que cortam o peito do mesmo, toda sandália que eu compro consegue encontrar uma nova maneira de ferir minhas extremidades. Em agosto, meus pés e o resto do meu corpo estão exaustos e ainda tenho pela frente pelo menos dois meses de sandálias.

Por isso decidi buscar ajuda profissional. Eu esperava que analisar as sandálias com uma verdadeira especialista pudesse finalmente me livrar do ciclo de sofrimento.
Encontrar uma podóloga disposta a ir às compras com uma jornalista seria um desafio, e encontrar uma que tivesse bom gosto para calçados era realmente uma missão delicada.

Mas quando Karen Langone, que tem um consultório de podologia em Southampton, em Nova York, me disse pelo telefone que ultimamente está "muito fã de circular nos meus tênis Stan Smith" --isto é, o Adidas usado por todo mundo, de Kanye West aos modetes do Brooklyn e atualmente, comentou ela, o calçado mais popular no mundo--, eu soube que tinha encontrado a pessoa certa para o cargo. Marcamos uma hora para nos encontrarmos em Manhattan na Bloomingdale's. (Langone achou que tinha uma seleção melhor que a da Macy's.)

Começamos pelas bordas externas do salão de calçados super-refrigerado, um arquipélago de ilhas carpetadas povoadas por toda a variedade de sapatos, cada ilha com sua topografia de prateleiras e caixas de calçados fabulosos. Começamos avaliando a seleção de Sam Edelmans. Langone frequentemente aconselha suas pacientes na escolha de calçados, por isso tem muitas dicas. "Uma coisa que sempre se deve fazer é comprar os sapatos no final do dia, porque é quando seus pés vão..." --ela fez uma pausa para examinar o calçado que segurava-- "inchar e aumentar. Se houver algum problema, você provável vai perceber melhor no fim do dia."

Uma podóloga praticante há 28 anos, Langone é miúda, com cabelos curtos. Ela se parece muito com a sua mãe --se as opiniões da sua mãe sobre Uggs fossem apoiadas pela ciência médica. (As botas não oferecem apoio, disse ela. Mas as sandálias da marca não parecem tão ruins.) Sua intuição sobre calçados é mais que intuição; é quase um sentido de Homem-Aranha: depois que admiti que os chinelos Vans' que eu estava usando não eram tão confortáveis quanto eu esperava, ela diagnosticou o problema com um único olhar: estavam um pouco largos para mim na parte de trás.

Examinando um par de sandálias, suas mãos imediatamente procuraram a palmilha. "Se você apertá-la, eles colocaram um pouco de enchimento aqui, por isso parece gostoso, o que o torna mais confortável para caminhar do que sobre uma plataforma fina de couro." O interior, porém, era de cor clara, o que o tornava vulnerável a ficar sujo e descolorido por causa do óleo da pele dos pés: isto me pareceu exatamente o tipo de detalhe que ninguém, a não ser uma especialista em pés, pensaria com antecedência. Foi admirável. Quando pedi a opinião dela sobre um par de sapatos que não eram exatamente chinelos, mas tinham uma divisória para o dedão, ela disse: "Se não for um couro realmente macio e realmente bem acabado dos dois lados, você provável vai ter atrito" --que é o maior dos pecados em sandálias.

Quando ela encontrava algo que valia a pena, parava para examinar os pontos positivos: procurava a estrutura que ajuda o pé a ficar no lugar e apoiado, com espaço para que os dedos não fiquem espremidos, e um leito suficiente --a palmilha onde repousa a sola dos seus pés-- para que "você não caminhe sobre a espessura de uma nota de um dólar". Idealmente, seria feita de materiais de alta qualidade e bem acabados (como couro realmente macio), sem bordas ásperas e costuras que se desmancham.
Simplesmente ter pés é um exercício de vulnerabilidade em torno de uma podóloga.

Ela é exigente --"Os sapatos nunca devem se dobrar. Isto não é um calçado", disse ela seriamente sobre sapatilhas que anunciavam como vantagem a capacidade de ser comprimidas para guardar. Quando chegamos a uma nova linha cara de sapatos de salto, ela disse: "Devo dizer que do ponto de vista da qualidade não estou impressionada", comentando o tecido esgarçado e material de aparência barata. "Por esse preço, deveria ser um bom calçado. US$ 400 deveriam lhe comprar algo que você coloca no armário e dura 20 anos."

Isso não quer dizer que ela não entenda a conexão íntima dos calçados com a moda: "Estes são interessantes, iguais aos da Rihanna", disse ela quando nos aproximamos de uma vitrine com tênis-plataformas e chinelos de cetim. Estes, com suas solas arredondadas no estilo Birkenstock, receberam um gesto de aprovação. Não posso imaginar que a maioria dos podólogos aprove a coleção Fenty.

Simplesmente ter pés é um exercício de vulnerabilidade em torno de uma podóloga. Meu passo estaria comunicando coisas que eu preferia não revelar? Quando decidi experimentar alguns pares na frente de Langone, não pude deixar de sentir que estava me submetendo a uma irmandade com seu ritual (provavelmente apócrifo) em que as candidatas ficam nuas diante das irmãs e as deixam apontar todos os seus defeitos. Eu estava pronta para ouvir tudo o que havia de errado com meus pés? Estava disposta a ouvi-la dizer que os sapatos que eu amo não apenas estão machucando meus pés agora, como estarão nos próximos anos?

Langone rapidamente recomendou órteses sob medida, do que eu já tinha ouvido falar --o primeiro dia na escola de podologia deve ser só sobre órteses sob medida. "Isso vai estabilizar seu metatarso [os ossos do pé que se conectam aos ossos dos artelhos] o suficiente para que seus joanetes não continuem crescendo. E você praticamente congela as coisas do jeito que estão hoje. Porque você está até ficando com o segundo dedo dobrado para baixo. Vê como ele está torto, com a primeira junta vermelha?" Fiquei muito envergonhada.

Mas as órteses sob medida não são exatamente compatíveis com a temporada de sandálias --nesta época do ano, é o encaixe que importa mais. "Eu tento realmente educar as pessoas sobre o tamanho do sapato, porque acho que estatisticamente cerca de 75% das pessoas usam o tamanho errado", disse Langone. "Isso acontece muito porque as pessoas realmente não experimentam mais. Alguém aparece, despeja um monte de calçados na sua frente, você fica por conta própria. Não há ninguém para dizer: 'Não, esse não serve, está grande demais, ou pequeno demais'."

É isso o que me interessa: espaço para os artelhos (incluindo um pouco entre o topo do dedão e onde o sapato começa), mas não tanto espaço que o calçado fique saindo. Se algo a incomodar quando estiver experimentando, siga em frente: não vai melhorar conforme você continuar usando. Uma máxima de Langone a se cultivar: "Não 'invada' os sapatos. Ou eles servem e são confortáveis ou não os compre".

Minhas experiências mais desconfortáveis com sandálias surgiram de compras online, e embora eu provavelmente não precisasse contratar uma podóloga para me dizer para comprar sapatos pessoalmente e depois de um rigoroso processo de experimentação, eu gosto de pensar que isso ajudou.

Langone aplicou o mesmo olhar perspicaz que ela usa para todos os calçados a como os pares serviam em mim especificamente: "Seu pé é mais largo que o sapato", disse ela sobre o primeiro par de sandálias que experimentei: desclassificação automática. "Seu calcanhar vaza antes de você se levantar. Para que o calçado seja confortável, isso não pode acontecer. Se já está vazando não ficará confortável". Ouvir que você está tentando espremer seu pé em um sapato que é pequeno para ele é bastante desanimador --senti-me como uma das irmãs adotivas feias--, mas talvez elas fossem menos feias se seus sapatos lhes servissem adequadamente.

Experimentei vários pares, e quando encontrei um pelo qual me interessei Langone recomendou que eu caminhasse pela loja com eles seis vezes antes de comprar. Foi como um exercício de consciência para ter certeza de que eu realmente queria colocar esses sapatos na minha vida --e afinal eu não queria. (Ela também deu o tipo de sugestão útil que não tinha nada a ver com tamanho, mas de qualquer modo fez dela uma boa companheira de compras: "Falando com você como eu falaria com minhas filhas --e se não fosse preto?") Examinando as duas tiras de couro preto que cobriam meu pé, eu suspirei. Eram femininos o suficiente? Eu estaria sacrificando a beleza pelo conforto? Estava mostrando os dedos o suficiente?

Foi aí que eu soube que meu credo de verão, o "nudismo pédico", pode ser inerentemente antiético às melhores práticas podológicas. Eu pensava que como não queria usar chinelos de dedo ou Manolos eu tivesse expectativas razoáveis. Acontece que uma das próprias coisas que eu amo nas sandálias --a liberdade que seus pés sentem nelas-- é uma das coisas que as torna tão arriscadas.

Se seu pé estiver livremente solto e a sandália não oferecer uma base de sustentação, bem, você poderia estar nua. E embora esse seja meu ideal certamente não é o de Langone --talvez seja bom para ficar em volta da piscina, mas para caminhar ou trabalhar o dia inteiro você precisa de estrutura, sustentação. Desculpem todas as sandálias minimalistas chiques que salvei em meu painel no Pinterest. (Sempre prudente, Langone me disse que prefere sapatos de inverno e botas aos modelos de verão: dão mais cobertura.)

O que Langone me disse que mais me marcou foi sua própria filosofia pessoal para comprar sapatos: ela já tem algumas marcas que sabe que dão certo, e são as que ela compra (no verão, alterna entre essas marcas confiáveis e tênis). Ela ficou surpresa que eu não tivesse um conjunto semelhante de preferências. Os calçados podem ser feitos para as massas, disse ela, mas cada marca usa um modelo ligeiramente diferente para seu pé padrão.

Isso confirmou minha desconfiança de endossos pessoais: a diversidade de formato dos pés significa que o que é confortável para você pode não ser confortável para mim. "Eu acho que todo mundo pode encontrar um fabricante que funciona para eles, que faz um calcanhar que corresponde ao calcanhar deles, e a ponta do pé semelhante à deles", disse Langone.

Aparentemente, eu ainda não encontrei o meu.

Foi como perceber que eu nunca havia me apaixonado. Revi minha vida em sapatos, pulando de marca em marca, uma série de Sketchers e sandálias baratas que desmanchavam e sapatilhas J. Crew de que eu não gostava muito. Nunca encontrei um que eu quisesse por mais de um caso de verão. Armada desse conhecimento e uma maneira mais judiciosa de avaliar calçados pessoalmente, senti-me novamente poderosa para continuar minha busca por sandálias no verão de 2017. Até agora foi mais sobre dizer não aos calçados incômodos que cruzam meu caminho do que realmente encontrar os certos. Mas tenho esperança. Meu par perfeito ainda pode estar por aí.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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