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Homem transgênero processa Trump para poder ingressar na Força Aérea

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Teddy D'Atri é um homem trangênero que quer ingressar na Força Aérea Imagem: Facebook
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Mark Joseph Stern

03/05/2018 00h01

Em 23 de março, o presidente Donald Trump apresentou seu plano para proibir pessoas transgênero de servirem nas Forças Armadas, cumprindo sua promessa tuitada de excluir minorias de gênero das fileiras militares. Em resposta, a União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU, na siga em inglês) adicionou seis novos querelantes que desejam se alistar, mas seriam impedidos pela proibição por Trump.

O juiz responsável pelo caso já bloqueou a política antitrans, decidindo que ela "choca a consciência" e viola as garantias constitucionais de devido processo e proteção igual. Os novos querelantes não alteram os argumentos da ACLU, mas dão ao tribunal um quadro maior dos danos infligidos pela proibição aos americanos transgênero.

Um dos querelantes é Teddy D'Atri, um morador de Rhode Island que estava iniciando o processo de recrutamento quando Trump tuitou sua política em julho. Na segunda-feira (30), eu falei com D'Atri sobre seus esforços para alistamento, seus motivos para servir e sua decisão de se tornar querelante em um grande processo de direitos civis contra o presidente dos Estados Unidos. Nossa entrevista foi editada para fins de clareza.

Mark Joseph Stern: Por que você decidiu se juntar às Forças Armadas?

Teddy D'Atri: É uma coisa de geração. Meu pai e meu avô serviram no Exército. Meu pai serviu por 12 anos e dar continuidade ao legado da família sempre foi algo que quis fazer. Além disso, amo meu país. Tenho sorte de viver aqui e as Forças Armadas americanas são as melhores do mundo. Tornar-me parte disso, de algo maior do que eu, defender este país que amo tanto, seria uma honra.

Stern: Você temia que sua identidade de gênero o impediria de se alistar?

D'Atri: Honestamente, não. Não senti nada disso. Trabalho com algumas pessoas que são veteranas ou servem na reserva das Forças Armadas. O consenso geral é de que ninguém realmente liga para o que você faz na vida assim que está nas Forças Armadas. Elas apenas ligam para se você é capaz de realizar seu trabalho. Sei que sou mental e fisicamente capaz de lidar com a vida militar. Desejo ingressar na Força Aérea, para trabalhar nas Forças de Segurança ou como artilheiro aéreo. Não acho que minha identidade de gênero atrapalhará a realização desse trabalho.

Stern: Quando você tentou se alistar pela primeira vez?

D'Atri: Fui até meu recrutador inicial em julho do ano passado. Ele conversou comigo sobre para que gostaria de me alistar e, naquele momento, eu senti: "É isto que devo fazer". Eu me senti feliz, como se estar lá fosse a decisão certa e dei início ao processo. Minha identidade de gênero realmente não foi um problema.

Isso ocorreu uma semana antes de Trump tuitar a respeito da proibição.

Stern: Como você tomou conhecimento dos tuítes?

D'Atri: Eu soube assim que foram tuitados. Meu amigo me enviou uma mensagem de texto. Eu fiquei sentado pensando: 'Como um sujeito que fugiu cinco vezes do alistamento pode me dizer que não posso me alistar? Fiquei furioso e confuso. Pensei: 'O que o levou a fazer isso?' Contatei meu recrutador, mas ele me disse que não tinha recebido nenhuma instrução de um superior e que ninguém falou nada a respeito. Ele disse que não havia nenhuma base para aquilo e questionou todo seu propósito. Ninguém sabia o que fazer. Parecia completamente desnecessário.

Stern: Os tribunais federais parecem ter concordado, bloqueando totalmente a proibição. Qual foi sua reação à decisão de outubro de que a proibição provavelmente viola a Constituição?

D'Atri: Fiquei realmente feliz. Provavelmente o mais feliz que já estive há algum tempo. Eu estruturei toda minha vida em torno de servir meu país. Esse juiz finalmente viu que a proibição era realmente estúpida. Isso me deu esperança. Me fez pensar que talvez possa de fato fazer isso.

Stern: O governo Trump ainda está tentando implantar a proibição e parece que a questão poderá chegar à Suprema Corte. O que você faria se os ministros a mantivessem?

D'Atri: Honestamente, provavelmente ficaria arrasado. Isto é o que realmente quero fazer. Nunca imaginei que tentar me alistar nas forças armadas seria tão difícil.

Stern: Como você entrou em contato com seus advogados?

D'Atri: Eu sigo a conta da ACLU no Twitter. É como me atualizo sobre coisas como a proibição de transgênero e questões LGBT por todo o país. Vi o tuíte do Chase (Strangio, o advogado do Projeto LGBT & HIV da ACLU) dizendo que se você fosse uma das pessoas diretamente afetadas, para que entrasse em contato com ele. Eu fiz isso em questão de minutos. Eu disse: "Estou tentando entrar na Força Aérea e isso arruinará minha vida". Naquela tarde, conversamos por telefone. Eu senti como se ainda restasse alguma esperança.

Stern: Mesmo assim, pode não ser uma decisão fácil se tornar querelante em um grande processo de direitos civis contra o presidente dos Estados Unidos.

D'Atri: Eu me recordo do momento em que contei aos meus pais que me juntei ao processo. Eles me olharam tipo: você está falando sério? Você entende que está ajudando a mudar a história? Seu nome será para sempre cimentado como "versus Donald Trump". Todo meu corpo desabou na cadeira. Você não percebe a magnitude do que está fazendo até conversar com outra pessoa a respeito.

Mas parte do motivo para querer ingressar nas Forças Armadas é ajudar pessoas como eu. Eu sabia que pela primeira vez seríamos autorizados a nos alistar e servir abertamente. Nós pessoas novas poderíamos ir para um campo de treinamento e provar nosso valor. Eu queria ajudar a mostrar para as pessoas que somos normais, apenas tomamos alguns hormônios. Ainda posso realizar o mesmo trabalho que você, talvez até melhor. Quero facilitar para que pessoas que tentem fazer isso no futuro não precisem enfrentar o mesmo que eu.