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Opinião: Uso de força militar americana contra a Venezuela seria catastrófico

24.jan.2019 - Mike Pompeo (ao centro), secretário de Estado dos Estados Unidos, em reunião com o Conselho Permanente da OEA (Organização dos Estados Americanos) sobre a situação na Venezuela - Mark Wilson/Getty Images/AFP
24.jan.2019 - Mike Pompeo (ao centro), secretário de Estado dos Estados Unidos, em reunião com o Conselho Permanente da OEA (Organização dos Estados Americanos) sobre a situação na Venezuela Imagem: Mark Wilson/Getty Images/AFP

Fred Kaplan

30/01/2019 00h01

O analista conservador Hugh Hewitt disse no programa de TV "Meet the Press" no domingo (27) que uma boa guerrinha na Venezuela "nos uniria". Um comentário ridículo, a não ser porque o presidente Donald Trump, dos EUA, vem pensando em enviar tropas para lá desde seus primeiros dias no cargo, e tão recentemente quanto duas semanas atrás.

Certamente a Venezuela é um candidato apropriado para o que costumava ser chamado de "intervenção humanitária". Nos últimos cinco anos, sob o regime corrupto e repressor de seu presidente eleito de forma fraudulenta, Nicolás Maduro, a Venezuela, que já foi um dos países mais prósperos da América do Sul, caiu na miséria: sua economia encolheu pela metade, a inflação se aproxima de 1 milhão por cento, a saúde pública e outros serviços desmoronaram, há escassez de comida, 90% da população estão pobres e muitos, as estimativas vão de 2 milhões a 4 milhões, fugiram para países vizinhos.

Trump aumentou as apostas na quarta-feira (23), quando reconheceu formalmente Juan Guaidó, o presidente eleito democraticamente da Assembleia Nacional da Venezuela e líder do movimento anti-Maduro, como presidente interino do país. Em uma medida incomum para um governo que não gosta de consultar aliados, o secretário de Estado, Mike Pompeo, convenceu líderes de outros países do hemisfério, incluindo Canadá, Brasil, Peru e Colômbia, a acompanhá-lo.

E agora?

Os militares graduados da Venezuela ainda apoiam Maduro, que, aliás, lhes deu ricos benefícios por seu apoio. O presidente russo, Vladimir Putin, fez o mesmo, denunciando o reconhecimento de Guaidó como um ato "destrutivo" de interferência externa que "viola diretamente as normas do direito internacional". China, Turquia e Irã uniram-se a Putin no apoio à situação vigente.

E assim vimos um alinhamento de forças semelhante ao que houve no Oriente Médio, replicado no hemisfério ocidental. A política interna por trás da posição de Trump também desprende um sopro de dinâmica da nova Guerra Fria. "The New York Times" relatou no sábado (26) que o senador republicano Marco Rubio, da Flórida, foi a principal força que reuniu outros políticos, e que se apoiou em Trump para fazer algo sobre o caos na Venezuela. Rubio, cujos eleitores incluem muitos exilados cubanos, também liderou os pedidos de maior pressão contra o regime Castro antes, e até certo ponto depois, de Barack Obama reabrir as relações.

Shannon O'Neil, o principal especialista em América Latina no Conselho para Relações Internacionais, comentou em um e-mail os "notáveis paralelos" entre os antigos movimentos contra Castro e os atuais contra Maduro, como "o mesmo conjunto de atores e o mesmo conjunto de abordagens".

Mas embora alguns países vizinhos tenham seguido Trump para reconhecer os líderes de oposição, é improvável que algum deles apoiaria, e muito menos se somaria, a uma intervenção militar. O espetáculo de tropas americanas em solo venezuelano despertaria lembranças do "imperialismo ianque" em toda a América Latina e poderia até reforçar o apoio a Maduro.

Digamos que os militares americanos consigam depor Maduro do poder. A capital da Venezuela, Caracas, fica debruçada na costa norte do país. Se Trump ordenar que o Pentágono apresente um plano, poderíamos imaginar navios de guerra despachados ao Caribe, lançando ataques aéreos contra "alvos de comando e controle" de Maduro e descarregando fuzileiros navais em suas praias.

Mas isso quase certamente seria apenas o primeiro passo de uma longa ocupação. A Venezuela é um país grande, duas vezes maior que o Iraque e com população quase igual. Digamos que grande parte dos militares venezuelanos poderia ser atraída para o lado da oposição; Guaidó está negociando com alguns oficiais, e o adido militar da Venezuela em Washington desertou recentemente. O resto dos militares poderia ficar ao lado de Maduro. Nós poderíamos entrar em uma guerra civil e em grande medida provocá-la. E isso deixa de fora o 1,6 milhão de membros de uma milícia civil armada, cujos líderes pró-Maduro dizem estar prontos para repelir uma "força invasora imperialista".

Em suma, a guerra não é o melhor caminho, mas isso deixa vários cursos de ação sobre a mesa. Reforçar as sanções contra Maduro e seu entorno poderia ter um impacto. Isolar os militares, e até oferecer aos oficiais chaves um melhor acordo sob o novo regime, poderia fazer o governo atual oscilar. A boa e velha diplomacia, incluindo negociações com a Rússia, a China e a Turquia, merece ser tentada. Nenhum líder desses países tem um interesse vital em apoiar Maduro, e é improvável que queiram se emaranhar com os EUA no hemisfério ocidental só para mantê-lo no poder.

Ian Bremmer, presidente do Eurasia Group, cita uma "autoridade graduada canadense" que, depois de falar com o Kremlin, disse que os russos estão "procurando uma casa para Maduro em Cuba".

Seja qual for a ação de Trump (e parece que ele vai fazer alguma coisa), é importante que não siga seu "modus operandi" preferido de saltar para dentro, explodir alguma coisa, declarar vitória e saltar para fora. A Venezuela está uma confusão, e mesmo que a saída de Maduro ocorra pacificamente (por exemplo, se os russos encontrarem essa casa em Cuba), é provável que o país fique mais confuso. Alguém terá de restaurar os serviços e a estabilidade; algo terá de ser feito sobre as milícias armadas. Ajuda e perícia terão de fluir para os ministérios em Caracas; refúgios terão de ser encontrados para os milhões de exilados.

A tragédia da Venezuela está longe de terminar. Seu reparo exigirá um esforço prolongado de muitas agências de muitas entidades que têm mais interesse em fazer esse tipo de coisa e mais talento para tanto. Trump deveria manter um perfil discreto. Não está claro se ele é capaz de fazer isso.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves