Opinião: Irã abre as portas para os negócios e a diplomacia prova que funciona

Roger Cohen

  • Xinhua/Ahmad Halabisaz

    Presidente do Irã, Hassan Rouhani

    Presidente do Irã, Hassan Rouhani

Netanyahu e Rubio estão errados. A rigidez não passa de agressão vazia quando não admite estar errada

Algumas pessoas não suportam as boas notícias. Isso perturba sua visão rígida do mundo. Entre elas, está o senador Marco Rubio, candidato republicano à presidência, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que ficaram contrariados com a confirmação da reversão do programa nuclear do Irã e a libertação de vários norte-americanos, inclusive Jason Rezaian do "Washington Post".

Tentem sorrir, meus caros. A rigidez não passa de agressão vazia quando não admite estar errada. A diplomacia funciona.

Rezaian volta para casa depois de um ano e meio de prisão sem motivo. Um pastor norte-americano e um ex-fuzileiro naval voltaram para suas famílias. O Irã tinha mais de 19 mil centrífugas de primeira geração instaladas; este número agora é de 6.104. Suas centrífugas avançadas foram reduzidas de mais de mil para zero. Seu estoque de urânio enriquecido foi reduzido de 8.600 kg para 300 kg.

O caminho do plutônio até a bomba foi cortado. O Irã está submetido ao que o presidente Obama chamou de "o regime de inspeção mais amplo e intrusivo já negociado para monitorar um programa nuclear." O tempo de "break-out" do país --o período necessário para chegar à bomba-- passou de dois a três meses para um ano.

A psicose iraniano-americana, causada por um trauma desde o nascimento da República Islâmica, em 1979, foi superada. Dois diplomatas incansáveis, o secretário de Estado John Kerry e o ministro das Relações Exteriores iraniano educado na Universidade de Denver, Mohammad Javad Zarif, conversam quando é necessário. Marinheiros norte-americanos que se perderam nas águas iranianas são libertados em 24 horas. Uma disputa financeira que existia desde 1981 é resolvida. A 18ª maior economia global está prestes a se juntar ao resto do mundo, numa época em que a economia mundial em queda está precisando de um empurrão. O acordo nuclear, mesmo agora no começo, não é hermético. Ele abre portas.

Para tudo isso Rubio responde que Obama "colocou um preço na cabeça de todos os norte-americanos no exterior" quando deveria ter usado "sanções aleijantes" (ah, por favor, não essa frase aleijada de novo). Netanyahu de fato alega que se não fosse por Israel "liderar" as sanções, o "Irã teria uma arma nuclear há muito tempo." O Irã "não desistiu de sua ambição de ter armas nucleares", ele afirma com sua voz de barítono.

Isso pode ser verdade --ou não. Todos nós podemos dar um palpite no bazar iraniano. É muito fácil encontrar comentaristas sobre o Irã.

O que está claro é que o Irã está mais longe de uma arma nuclear por causa da diplomacia corajosa de Obama, Kerry, Zarif e do presidente iraniano, Hassan Rouhani, que confrontaram eleitorados hostis em seus países para conseguir fazer o acordo.

Para o Irã, a chegada do "dia de implementação" significa a retirada de todas as sanções relacionadas à questão nuclear e o acesso a cerca de US$ 100 bilhões em bens congelados. Um grande país está aberto para os negócios novamente, de volta ao sistema financeiro e ao mercado mundial de petróleo.

Netanyahu, Rubio e seus pares acreditam que o Irã usará a boa sorte para fazer o pior. Isso não pode ser desconsiderado. Os Estados Unidos e o Irã continuam hostis em muitas frentes, desde a Síria até Israel. Os linhas-dura da Guarda Revolucionária não beberam da mesma escola de diplomacia de Rouhani-Zarif. A imposição de sanções leves por parte de Obama por causa de testes de mísseis foi uma lembrança dessas diferenças.

Mas se os acontecimentos dos últimos dias demonstram alguma coisa, é que o Irã, 37 anos depois de sua revolução, está posicionado delicadamente entre os linha-dura e os reformistas, e nenhum deles pode ditar o curso do país, cada um precisa do outro por enquanto. As eleições parlamentares iminentes podem indicar qual campo está crescendo. O que quer que aconteça, é difícil argumentar que um maior contato com o mundo seria ruim para a geração mais jovem, escolarizada e em processo de modernização. O Irã é um país pró-americano com um refrão anti-americano cansativo. Ele tem uma comunidade bem-sucedida na diáspora, pronta para reavivar o país --se for permitido.

O avanço com o Irã é a maior conquista de política externa de Obama, e pode ter um efeito transformador na região. A próxima década mostrará até que ponto. O potencial é o que tem deixado os aliados norte-americanos, da Arábia Saudita a Israel, tão perturbados. Eles preferem o status quo.

É claro que tudo pode se desfazer. Prever o fim do mundo é fácil. Mas com trabalho duro, acredito que há mais chances de que as relações diplomáticas entre o Irã e Estados Unidos sejam restauradas em cinco anos.

A revista "The Economist" resumiu bem por que a reintegração do Irã é tão importante e significativa. Ela observou que "as perspectivas pós-acordo com o Irã são inúmeras". O país não "é um Estado rentista encharcado de petróleo", como alguns de seus vizinhos, mas "uma potência regional e uma economia industrial" --ainda que mal administrada. Sua população de 80 milhões de habitantes tem boa escolaridade, e suas reservas de petróleo e gás são enormes. A demanda reprimida do país por investimento estrangeiro pode chegar a US$ 1 trilhão. O Irã, a revista concluiu, está "se preparando para decolar".

Tente dizer a palavra Irã sem dizer a palavra "nuclear". Chegou a hora. Na verdade, já passou da hora, ainda que as boas notícias sejam demais para alguns.
 

Tradutor: Eloise De Vylder

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