Censura de livro sobre amor entre judia e árabe acirra debate entre israelenses

Shmuel Rosner*

Em Tel Aviv (Israel)

  • Gil Cohen/AFP Photo

    31.dez.2015 - A escritora israelense Dorit Rabinyan posa com seu romance "Uma Barreira Viva"

    31.dez.2015 - A escritora israelense Dorit Rabinyan posa com seu romance "Uma Barreira Viva"

A escritora israelense Dorit Rabinyan tirou a sorte grande: primeiro, seu livro mais recente, "Borderlife" (Uma Barreira Viva, em português), tornou-se tema de intenso debate e controvérsia. Depois, ele se transformou num símbolo da liberdade e do progresso. E então, é claro, virou um best seller.

O que desencadeou a boa sorte de Rabinyan? Uma decisão burocrática de pouca importância. Em dezembro, o Ministério da Educação decidiu não incluir "Uma Barreira Viva" na lista de leituras obrigatórias para as provas de admissão.

Muitos livros não são incluídos na lista de leituras obrigatórias para os estudantes do ensino médio, é claro. Mas a decisão de omitir o livro de Rabinyan se transformou numa discussão nacional. "Uma Barreira Viva" conta a história de amor entre uma judia israelense e um muçulmano palestino. "Casar-se com alguém que não seja judeu não é algo que o sistema educacional queira endossar", disse um funcionário do ministério.

O impasse político que se seguiu foi de certa forma previsível. À frente da oposição, o líder do Partido Trabalhista, Isaac Herzog, disse que tinha comprado "várias cópias" do livro. O ministro da Educação, Naftali Bennett, do partido Lar Judaico, defendeu a decisão de seu ministério, alegando que o livro fala mal das Forças de Defesa Israelenses. (Ele não fala.) Entre a esquerda, a decisão de não colocar o livro na lista de leitura se tornou mais um sinal do fim da nossa democracia, uma cortesia da direita israelense e das facções religiosas. Um representante do Partido Meretz, de esquerda, chamou a decisão do Ministério da Educação de "censura racista". À direita, o ataque contra o ministério foi visto como prova de que a esquerda não se preocupa com o caráter judaico de Israel.

Nada nesta guerra de palavras foi particularmente interessante de forma isolada. Mas o incidente trouxe à tona a abordagem confusa de Israel quanto à identidade judaica e a questão da assimilação. Ele mostrou que muitos israelenses sentem a necessidade de aderir a uma entre duas escolhas artificiais: apoiar a proibição do livro ou endossar o casamento entre judeus e não-judeus.

De certa forma, isso atinge uma questão no cerne do Estado de Israel. Os judeus correspondem a um quinto de 1% da população mundial. Os judeus em Israel são uma pequena minoria numa vasta região muçulmana, e os judeus em outros países são uma pequena minoria entre cristãos. O medo judaico de uma calamidade demográfica tem fundamento e está profundamente enraizado na psique judaica. Os judeus acreditam que são perseguidos em tempos ruins, e assim a sua capacidade de prosperar como um grupo distinto é desafiada. E eles acreditam que, nos tempos bons, quando são bem recebidos e integrados, sua capacidade de prosperar como um grupo distinto é desafiada de outra forma.

A criação de um Estado judeu deveria tratar destes dois desafios, oferecendo aos judeus um lugar onde eles são a maioria no poder, salvando-os do ódio e da discriminação, e dando-lhes um lugar onde são a cultura majoritária, salvando-os da assimilação.

Tem havido complicações, mas no geral tem funcionado. Os judeus de Israel estão a salvo de discriminação religiosa e --ao contrário de seus irmãos em outros países-- não são assimilados. Eles não podem ser assimilados, porque são cerca de 80% da população, e não se casam fora da comunidade porque a grande maioria dos outros cidadãos de Israel são árabes, com os quais os judeus têm relações contenciosas. Além disso, o casamento entre um judeu e um não-judeu ainda não é legalmente possível.

Esta é uma bênção para a continuidade judaica --mas aparentemente é também uma maldição para a consciência da identidade judaica em Israel. Quando a controvérsia sobre "Uma Barreira Viva" obrigou os judeus israelenses a tomarem uma posição sobre a questão altamente complexa da assimilação e dos casamentos mistos, muitos deles se mostraram despreparados para lidar com ela.

De um lado estavam aqueles que tiveram uma reação cômica e exagerada a uma história fictícia de amor não realizado. Esta não foi a primeira vez que a questão surgiu. Já houve erupções ocasionais de respostas histéricas a alguns incidentes isolados de relações inter-religiosas no passado. Então, claramente, o medo da assimilação está muito vivo em Israel. Isso sugere que muitos judeus israelenses esqueceram que viver em um Estado judeu deveria livrá-los desse medo. Se até mesmo um judeu de Israel não pode deixar de se preocupar se seus netos serão judeus, então um dos argumentos mais convincentes para a existência do país torna-se vazio.

Do outro lado, estavam aqueles que se mostraram incapazes de rejeitar a justificativa idiota do ministério para não incluir o livro em sua lista de leitura, e ao mesmo tempo achar razoável a posição do Estado judeu de não querer incentivar a assimilação. Os alunos devem ser expostos a livros controversos, mas isso não significa que a decisão do ministério simboliza o quanto Israel se tornou um país intolerante. Muitos parecem ter esquecido que um Estado judeu é um lugar onde a aspiração natural e saudável pela continuidade judaica não precisa e não deve se desculpar por nada.

Mas houve uma pessoa que recusou a escolha binária que dominou o discurso público: Rabinyan. Embora ela seja, sem dúvida, crítica em relação a muitas das políticas de Israel, ela também é uma sionista convicta. É ridículo que o ministério tente retratá-la como uma defensora da assimilação.

Ela não tinha a intenção "de endossar as relações românticas entre árabes e judeus", disse-me recentemente. Ela também falou que considera extremamente importante ter uma maioria judaica em Israel --uma razão pela qual muitos israelenses, inclusive Rabinyan, pedem o fim da ocupação da população palestina na Cisjordânia. Muito parecida com a história de amor conflituosa em seu livro, a resposta complexa de Rabinyan para a controvérsia poderia servir como um bom ponto de partida para uma discussão sobre a identidade israelense --uma discussão de que o Estado judaico parece precisar.

*Shmuel Rosner é editor de política do The Jewish Journal e um membro do Instituto de Política do Povo Judeu
 

 

Tradutor: Eloise De Vylder

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