Donald Trump vira vilão

Roger Cohen

  • Mary Altaffer/AP

    19.jan.2016 - Sarah Palin, ex-governadora do Alasca, anunciou apoio ao pré-candidato republicano Donald Trump, bilionário que quer ser presidente dos Estados Unidos

    19.jan.2016 - Sarah Palin, ex-governadora do Alasca, anunciou apoio ao pré-candidato republicano Donald Trump, bilionário que quer ser presidente dos Estados Unidos

Palin fala em "squirmishes" no Oriente Médio. É somente janeiro e 2016 já causa contorções.

Eu pensava que 2015 tinha sido ruim, mas isso foi antes das primeiras semanas de 2016. Ainda é janeiro, e Donald Trump, o principal candidato à indicação do Partido Republicano, já disse: "Eu poderia ficar no meio da Quinta Avenida e atirar em alguém e não perderia nenhum eleitor, OK?"

A parte realmente assustadora --sem falar no que esta linha de pensamento poderia pressagiar em termos dos atos de Trump, se ele chegar ao Salão Oval-- é que talvez ele esteja certo. Trump Teflon: nada cola.

As pessoas gostam de ser intimidadas quando o mundo parece de ponta-cabeça e ameaçador demais; quando, como diz Trump em um de seus clichês preferidos, "Alguma coisa está acontecendo". Trump está usando Dylan, por mais odiosa que seja essa ideia: "Algo está acontecendo aqui/ Mas você não sabe o que é/ Sabe, Mr. Jones?"

Vamos descobrir exatamente o que nos próximos meses. Napoleão costumava perguntar sobre seus generais prospectivos: "Ele tem sorte?" Trump parece ter. Isso também é assustador.

A parte mais assustadora, porém, é que Sarah Palin apoia Trump e disse: "A candidatura de Trump, ela expôs não apenas aquelas trágicas ramificações daquela traição da transformação de nosso país, mas também expôs a cumplicidade dos dois lados da ala que a permitiu, OK? Ora, Trump, o que ele conseguiu fazer, o que está realmente irritando as pessoas, e fico feliz por isso, ele está sendo vilão à esquerda e à direita, cara, é por isso que está indo tão bem [sic]."

OK!

Ou, como colocou James Joyce em "Finnegans Wake": "Did you aye, did you eye, did you everysee suchaway, suchawhy, eeriewhigg airywhugger?" (*)

Não admira que Stephen Colbert, preparando-se para imitar Palin em "The Late Show", primeiro disparou uma arma elétrica contra "a parte do meu cérebro que compreende a estrutura das sentenças". Isso resolveu o caso.

Sem seu lobo occipital, Colbert ficou bem à vontade com a frase de Palin: "Bem, e então, engraçado, ha-ha, não engraçado, mas agora, o que eles estão fazendo é se lamuriando: 'Ora, Trump e seus, hã... hã... hã... Trumpeteiros, eles não são suficientemente conservadores'".

Hã, hã?

Eu me pergunto o que Palin dirá se o ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg, horrorizado por esse espetáculo político, decidir gastar um bilhão de dólares de seus trocados para ser um candidato presidencial vilão de centro. Poderia acontecer. Ou imaginar isso é ser "esperancista e mudancista" demais?

Mas ainda tenho de ceder a Palin. Sua nova palavra, "squirmish", é útil. Ela caracterizou o Oriente Médio como um lugar de "'squirmishes' que acontecem há séculos".

O mundo em 2016 nos causa contorções ["squirms"]. Em apenas três semanas, cerca de US$ 8 trilhões foram eliminados dos mercados de títulos globais por uma "correção". Os motivos não parecem claros, o que não é muito tranquilizador.

A China está desacelerando. Não há uma próxima China. Os preços do petróleo afundam, uma tendência que deveria ter benefícios, mas parece ter poucos neste momento. As terríveis relações entre Irã e Arábia Saudita, isto é, os mundos muçulmanos xiita e sunita, apenas ficaram muito mais terríveis.

Ninguém realmente sabe o que fazer sobre o Estado Islâmico, a menos que seja Palin, que por um lado quer "chutar a bunda do EI" e por outro quer "deixar Alá decidir as coisas".

Alá tem um dom para "squirmishes", se você lhe der o tempo necessário.

E não é que o ano tenha começado em alta. Na verdade, 2015 já foi um verdadeiro baixão. Houve o massacre do "Charlie Hebdo", o massacre de Paris, a chacina de San Bernardino, a ascensão e internacionalização do Estado Islâmico, o número de mortos na Síria em cerca de 250 mil, a chegada de mais de um milhão de migrantes e refugiados desesperados à Europa, o pequeno Alan Kurdi morto em uma praia turca, uma guerra saudita sem sentido no Iêmen, as ofensivas de Putin em várias frentes, o ano mais quente já registrado, o bombardeio norte-americano a um hospital da Médicos Sem Fronteiras no Afeganistão e inúmeros outros desastres.

Pelo menos uma embaixada norte-americana em Havana foi aberta. Houve o acordo do clima em Paris.

Não procure além deste mundo perturbado para compreender Trump e os vários populistas de direita que fazem muito barulho nas margens europeias. Pegue duas guerras perdidas, salários estagnados para a maioria das pessoas, ameaças de terrorismo, planos de aposentadoria em colapso e a ansiedade galopante e coloque tudo isso junto com um "showman" tarimbado que promete restaurar a grandeza, e você terá a volatilidade de Weimar desta América à deriva.

Bem, pelo menos nevou. Nevou muito. Nevou na capital do país. Nevou em Nova York. Fomos encobertos pela cobertura --a escalada, a nevasca, a pós-nevasca. Pelo menos a neve era branca, ao contrário das bandeiras pretas do EI, e pelo menos realmente não tinha nada a ver com Trump ou Palin.

A menos que, e confesso que fiz isso, você se visse imaginando Trump abrindo fogo na Quinta Avenida contra algum desertor que não estivesse empunhando uma pá e manchando a neve de vermelho com sangue, sob o clamor dos "Trumpeteiros".

(*) A tradução desta obra (1939) é considerada dificílima. No Brasil, ela já foi feita por Donaldo Schüler para a editora Ateliê. Um novo trabalho está em andamento pelo professor e tradutor Caetano W. Galindo. (nota do tradutor)

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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