Opinião: EUA e a UE precisam parar de satisfazer a Turquia

Behlul Ozkan*

  • ADEM ALTAN/AFP

    Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia

    Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia

Ocidente se engana ao considerar os refugiados e a Síria mais importantes que a democracia turca

No mês passado, mais de 1.200 acadêmicos turcos e estrangeiros assinaram um documento pedindo atenção para a crise humanitária em muitas cidades de maioria curda no sudeste da Turquia, que são o palco de combates entre o Exército turco e o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).

A petição lamentava o bombardeio de áreas urbanas pelo Exército e a imposição de toques de recolher de 24 horas, que deixaram muitos civis impossibilitados de enterrar seus mortos ou de obter alimento. O presidente Recep Tayyip Erdogan denunciou publicamente os signatários como "supostos intelectuais" e "traidores". Dias depois, a polícia antiterror havia detido e assediado dezenas deles.

Os atos de Erdogan não deveriam causar surpresa. O presidente tem um histórico de prender jornalistas e atacar companhias de mídia que criticam suas políticas. Mas desta vez a reação de seus seguidores foi excepcionalmente assustadora: um chefão do crime organizado que defende Erdogan proclamou: "Vamos tomar um banho com seu sangue", enquanto a porta do escritório de alguns acadêmicos era marcada com uma cruz vermelha.

O primeiro-ministro Ahmet Davutoglu, que como ex-acadêmico deveria ter saído em defesa de seus colegas, anunciou que "não considera a petição como recaindo sob a rubrica da livre expressão". Então ele iniciou uma viagem a vários países europeus para incentivar o investimento estrangeiro na economia periclitante da Turquia.

Na Inglaterra e na Alemanha, Davutoglu teve uma calorosa recepção do primeiro-ministro britânico, David Cameron, e da chanceler alemã, Angela Merkel. A reação da UE à repressão aos dissidentes na Turquia provocou pouco mais que uma declaração, que chamou de "extremamente preocupante" a perseguição de acadêmicos.

Muitos críticos ocidentais proeminentes e organizações não governamentais foram veementes ao censurar a perseguição sofrida por seus colegas turcos. A inação da UE em relação à repressão aos direitos humanos na Turquia seria portanto inexplicável, se não fosse por um detalhe crucial: enquanto a UE enfrenta sua maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra, os 2,5 milhões de sírios que estão atualmente na Turquia são uma enorme moeda de troca para Ancara. Os líderes europeus bem sabem disso.

Semanas antes das eleições antecipadas na Turquia, em 1º de novembro, Merkel veio a Istambul para se reunir com Erdogan e fechar um acordo: se a Turquia ajudasse a conter o fluxo de refugiados para a Europa, a Alemanha ajudaria a avançar as negociações para o ingresso da Turquia na União Europeia. Muitas pessoas temem que Merkel tenha oferecido mais uma compensação em troca de ajuda para a questão dos refugiados: que a UE toleraria as violações aos direitos humanos cometidas pela Turquia e sua atuação intolerável no conflito curdo.

Os EUA, que têm bases aéreas cruciais na Turquia, não podem alienar o governo Erdogan, mesmo que o vice-presidente Joe Biden, em visita recente ao país, tenha feito questão de se encontrar com jornalistas que foram demitidos por pressão do governo. Mas depois Biden declarou que o governo turco é um "parceiro estratégico" dos EUA --um aparente gesto de reconciliação de Washington. Como muitos governos ocidentais, o de Obama se distanciou de Erdogan desde sua repressão aos protestos no Parque Gezi em 2013.

O ato de equilíbrio diplomático não pode continuar indefinidamente. O grupo curdo sírio conhecido como Partido da União Democrática, ou PYD, um ramo do PKK, é um aliado dos EUA contra o Estado Islâmico e recebeu ajuda militar americana. Enquanto isso, a Turquia continua sua tentativa de derrubar o regime de Bashar al-Assad apoiando o grupo rebelde sírio Jaish al-Fatah, que inclui a Frente al Nusra, filial síria da Al Qaeda.

A Turquia e os EUA também não concordam a respeito do Estado Islâmico. Washington vê o grupo como uma ameaça de alta prioridade e pressiona a Turquia a construir um muro em sua fronteira de quase 100 quilômetros com o território controlado pelo grupo jihadista. Ancara, em comparação, vê o EI como um sintoma de um problema maior --a presença continuada de Assad em Damasco-- e estimula Washington a apoiar um grupo rebelde dominado por islamistas. Os EUA estão pouco à vontade sobre essa situação, mas acreditam que não têm opção além de apoiar Erdogan.

A Turquia e a UE estão em um emaranhado mais complexo. Atualmente, a UE exerce poder considerável sobre a Turquia, como mercado para mais de 40% de suas exportações e como árbitro de sua antiga proposta de ingresso no bloco. A atual estratégia europeia de aplacar Erdogan em nome de seus próprios interesses em curto prazo é desorientada. Como demonstraram os atentados em Paris e Istambul, a Europa e o Oriente Médio fazem parte de um sistema aberto: caos e conflito em uma região certamente terão repercussões na outra. Os milhões de sírios que buscam refúgio no Ocidente, assim como os milhares de jihadistas que vão da Europa à Síria, hoje são o problema da Europa --um problema que não pode ser solucionado pela construção de muros.

Com o Oriente Médio destruído pelo radicalismo religioso e o sectarismo, a UE e os EUA não podem permitir os brutais esforços militares do governo turco contra os curdos ou sua guerra antidemocrática aos acadêmicos e jornalistas.

Somente uma Turquia democrática e secular que possa constituir um baluarte regional contra os grupos radicais trará estabilidade ao Oriente Médio e à Europa. Enquanto Erdogan tenta eliminar toda oposição e criar um regime de partido único, a UE e os EUA devem encerrar sua política de acomodação e sua reprovação ineficaz e lhe informar francamente que esse é um beco sem saída.

*Behlul Ozkan é professor-assistente na Universidade de Marmara em Istambul e autor de "From the Abode of Islam to the Turkish Vatan: The Making of a National Homeland in Turkey"

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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