Opinião: Sentimento antijaponês volta como bumerangue contra sul-coreanos

Se Woong Koo*

Em Seul (Coreia do Sul)

  • Jung Yeong-je/AFP

    1.abr.2015 - Manifestantes sul-coreanos cortam figura do premiê japonês, Shinzo Abe, durante protesto contra o Japão em Seul

    1.abr.2015 - Manifestantes sul-coreanos cortam figura do premiê japonês, Shinzo Abe, durante protesto contra o Japão em Seul

Em 28 de dezembro, os ministros das Relações Exteriores da Coreia do Sul e do Japão anunciaram que a resolução "final e irreversível" da controvérsia sobre a escravização sexual de mulheres coreanas por militares japoneses, do início dos anos 1930 até o fim da Segunda Guerra Mundial. Eles disseram que nenhum dos governos voltará a mencionar o assunto.

Enquanto organizações de mídia estrangeiras elogiavam o acordo e uma minoria de sul-coreanos o aceitava, houve uma forte reação em todo o espectro político local. O principal partido de oposição, Minjoo, condenou a "consciência histórica complacente da presidente Park Geun-hye" por conclamar o público a aceitar o acordo.

Uma sobrevivente, falando ao canal de esquerda OhmyNews, foi direta: "Precisamos substituir a presidente Park Geun-hye, essa filha de um colaborador dos japoneses".

Até alguns jornais conservadores que normalmente apoiam Park resmungaram que o pedido de desculpas do primeiro-ministro Shinzo Abe não pareceu sincero. Os protestos continuam diante da embaixada japonesa.

A reação ao acordo, tanto pela direita como pela esquerda, mostra o quanto a história do período colonial continua moldando a política interna da Coreia do Sul.

Políticos e ideólogos de todos os matizes há muito insuflam o sentimento antijaponês simplesmente para promover suas próprias agendas. Eles não parecem se importar que essa obsessão pelo passado esteja impedindo o avanço de seu país.

A Coreia do Sul se tornou uma locomotiva econômica, mas grande parte da era do pós-guerra foi dominada pela pobreza e pelo regime ditatorial. Entidades externas como a Coreia do Norte, os EUA e o Japão são habitualmente culpadas pelos problemas do país. Os sentimentos em relação a Pyongyang e Washington são mais complexos; entretanto, o sentimento antijaponês é partilhado praticamente por todos e informa a narrativa nacional: a glória da Coreia foi prejudicada pelo Japão, um país inferior moral e culturalmente.

Falando com sul-coreanos sobre o Japão hoje, você poderia pensar que eles ainda estão combatendo uma força ocupante. A partir da escola elementar, as crianças aprendem a não gostar do Japão. Muitos sul-coreanos de certa idade usam linguagem pejorativa para falar dos japoneses.

Livros como o best-seller "O Japão não tem nada", publicado em 1993, e "A mentira de que o Japão é um país avançado", traduzido do japonês em 2008, agradaram à multidão. Uma pesquisa de 2015 mostrou que mais de 72% dos sul-coreanos tinham impressões desfavoráveis do Japão.

O sentimento antijaponês serve particularmente bem à esquerda, ao desacreditar a direita. Muitos colaboradores da época da guerra se transformaram na era pós-independência em figuras pró-americanas, pró-empresas, anticomunistas e tornaram-se atuantes na política conservadora.

É fácil fazer a acusação, talvez justa, de que os conservadores e as elites empresariais de hoje são os rebentos biológicos e ideológicos dos colaboradores.

Em uma era em que os ocupantes forçaram os coreanos a adotar nomes japoneses, o pai de Park, o general Park Chung-hee, que serviu no Exército Imperial do Japão, supostamente mudou seu nome uma segunda vez para fazê-lo soar ainda mais autenticamente japonês.

Durante a guerra, o pai de Kim Moo-sung, o atual líder do partido Saenuri, no governo, foi um colaborador que supostamente pediu que os coreanos fizessem doações para financiar a máquina de guerra japonesa.

Os conservadores são igualmente culpados de explorar o sentimento antijaponês. Abalado por índices de aprovação muito baixos, o antecessor de Park, Lee Myung-bak, inesperadamente levantou a questão das "mulheres de alívio" durante uma viagem ao Japão em 2011 e visitou as ilhotas de Dokdo, disputadas pela Coreia do Sul e o Japão, em 2012.

Apesar da aprovação do acordo de 28 de dezembro, Park dificilmente é ingênua de capitular ao sentimento antijaponês: seu Ministério da Justiça está processando um acadêmico acusado de difamação criminosa por escrever um livro que contesta a visão predominante da questão das mulheres de alívio na Coreia do Sul.

O livro pode ter defeitos, mas os sinais do governo são claros: ninguém deve manchar a causa nacionalista, e Park não é uma colaboradora dos japoneses.

Esse jogo de quem confronta melhor o Japão contribui para o rompimento de nossa política. Enquanto certos políticos japoneses provocam os sul-coreanos questionando verdades históricas estabelecidas, o Japão oferece uma desculpa conveniente para os políticos ignorarem questões mais importantes.

A oposição derrubou o primeiro-ministro nomeado por Park em 2014 porque ele havia comentado uma vez que a colonização da Coreia foi "vontade de Deus" e que o Japão não era obrigado a indenizar as mulheres de alívio, com base em um tratado bilateral de 1965.

Apesar de o nomeado ter mais tarde renunciado sob pressão, o governo teve de enfrentar a acusação de que ele era pró-japonês, o que fez investigando durante 15 meses o avô do homem, simplesmente para provar que ele havia lutado pela independência.

A última eleição geral, em 2012, também foi enlameada por um enfoque nas ligações de certos candidatos com o Japão. Um candidato do partido governante foi limado pelo fato de que anos antes tinha escrito que os coreanos da era colonial "poderiam ter pensado no império japonês como sua pátria".

Um candidato de oposição, por sua vez, teve sua elegibilidade questionada por ser neto de um colaborador. Essa tendência infeliz deverá se agravar ao aproximar-se a eleição geral de abril.

As emoções antijaponesas também superam a segurança. Apesar da crescente ameaça nuclear da Coreia do Norte, a Coreia do Sul e o Japão deixaram de assinar um pacto de compartilhamento de informações em 2012; o governo Lee recuou na última hora por causa das tensões de sempre.

Os dois países prometeram em dezembro de 2014 partilhar informações sobre as armas da Coreia do Norte, mas somente por meio dos EUA. Em julho passado, Seul descartou qualquer possibilidade de um pacto formal de inteligência militar com o Japão.

Outras questões internas estão sendo postas de lado. O governo e a oposição discutem o que o governo realmente quis dizer ao se oferecer para "solucionar" as preocupações de Tóquio sobre a estátua memorial às mulheres de alívio na frente da embaixada japonesa; a mídia sul-coreana criticou a insistência de Abe no Parlamento em 18 de janeiro, de que não houve recrutamento forçado de mulheres durante a era colonial.

Duas sobreviventes voaram para Tóquio em 25 de janeiro para pedir a anulação do acordo. Mais uma vez, seguiram-se recriminações.

As vítimas do regime colonial devem continuar fazendo suas reivindicações, e o Japão deveria tentar melhorar seus pedidos de desculpas. Existe farta evidência de que esse sistema foi um crime contra a humanidade. Mas depois de décadas sob uma classe política que acusou o Japão de culpado por inúmeros problemas, o sentimento antijaponês ganhou vida própria.

A Coreia do Sul está em um estado perpétuo de emoções exacerbadas. Seus líderes alimentam constantemente esses sentimentos, aparentemente às custas de tudo o mais. Todo esse ódio volta como um bumerangue e atinge os sul-coreanos.

*Se-Woong Koo é o editor-chefe de "Korea Exposé", uma revista online especializada na península da Coreia. Ele está escrevendo um livro sobre a sociedade e a política contemporâneas da Coreia do Sul

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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