Opinião: países pós-comunistas da Europa se rebelam contra as normas políticas

Sylvie Kauffmann

Em Paris (França)

  • Alik Keplicz/AP

    Lech Walesa, ex-presidente da Polônia

    Lech Walesa, ex-presidente da Polônia

Há 25 anos, em fevereiro de 1991, os líderes da Polônia, Tchecoslováquia e Hungria se reuniram em Visegrad, uma cidade húngara com vista para o Danúbio. Esses três países tinham se libertado recentemente do bloco soviético e seus líderes recém-eleitos, Lech Walesa, Vaclav Havel e Jozsef Antall, tiveram participação ativa na libertação. Dois, Havel e Walesa, foram presos por suas atividades.

A reunião em Visegrad tinha um propósito central: acelerar a integração dos três países a uma Europa livre, democrática e próspera, por meio da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar do Ocidente) e da então Comunidade Econômica Europeia de 12 países membros. Os líderes da Europa Ocidental viam de modo favorável o Grupo de Visegrad: os centro-europeus poderiam praticar a cooperação regional antes de se juntarem ao grupo dos adultos do que viria a se tornar a União Europeia.

Visegrad era onde os reis da Boêmia, Hungria e Polônia realizaram uma conferência em 1335. De lá para cá, esses países passaram por muitas guerras e ocupações, suas fronteiras foram redesenhadas várias vezes ou até mesmo dissolvidas.

Hoje, o bloco de Visegrad está passando por uma espécie de ressurgimento. Em uma fragmentação familiar na Europa Central, os Três de Visegrad se tornaram quatro: a Tchecoslováquia deixou de existir em 1993, dando lugar à República Tcheca e à Eslováquia.

Todos os quatro se juntaram à União Europeia em 2004. Mas ao se reunirem hoje, é para combater a união. Ao longo dos séculos, eles foram dominados pela Prússia, Áustria, Alemanha e Rússia; em 2016, o inimigo comum é Bruxelas. Para os europeus ocidentais, é perturbador ver o surgimento de uma nova divisão Leste-Oeste, ameaçando fraturar a própria União Europeia.

A oposição dos países de Visegrad a Bruxelas é diferente da do Reino Unido. Eles não querem deixar a união, apenas se recusam a obedecer algumas de suas regras. O cientista político francês Pierre Hassner, nascido romeno, nos recordou do conceito de "neurose coletiva", uma noção concebida pelo filósofo húngaro István Bibó em seu livro de 1946, "The Misery of the Small Eastern European States" (a miséria dos pequenos Estados da Europa Oriental, em tradução livre, não lançado no Brasil). Bibó descreveu a angústia existencial dos países do Centro e Leste da Europa que às vezes os levam à "histeria política".

A histeria política reina hoje em torno da iniciativa da Comissão Europeia de destinar cotas de refugiados para cada país membro. Havel e Antall, as vozes da razão, já faleceram. Walesa, o herói do movimento Solidariedade, está combatendo as acusações de ter colaborado com as antigas autoridades comunistas da Polônia. Nas eleições parlamentares na Eslováquia, onde o primeiro-ministro Robert Fico adotou uma feroz retórica anti-imigrantes, um partido de extrema-direita com laços neonazistas acabou de conquistar 14 cadeiras.

Os novos governantes em Varsóvia, Praga, Bratislava e Budapeste recusam veementemente a receber refugiados muçulmanos. Eles não querem que a hegemonia étnica, religiosa e cultural de suas sociedades mude. Eles veem o multiculturalismo como um modelo fracassado.

Ouvir mensagens como essa de um Donald J. Trump ou Marine Le Pen já é ruim o bastante, mas de líderes de novas democracias?

A forma como esses líderes praticam a democracia, dobrando as leis até onde podem dentro de um governo eleito, é igualmente perturbadora para as democracias mais velhas da Europa Ocidental. Outro cientista político francês, Jacques Rupnik, nascido tcheco, identificou duas tendências convergentes.

"Estamos testemunhando uma regressão democrática e tensões em torno da imigração relacionadas à identidade, e ambos os fenômenos estão reforçando um ao outro", ele me disse. "O mesmo autoritarismo nacionalista conservador atuando na política doméstica também se aplica à resposta à crise dos refugiados, de forma notadamente diferente da resposta da Comissão Europeia e da maioria dos demais Estados membros."

Antes exemplos da transição pós-comunista, esses países não deveriam ter dado essa guinada. Com seu chamado "socialismo goulash", a Hungria era o mais liberal dos satélites soviéticos e aderiu pacificamente ao governo democrático. A Polônia foi mais turbulenta, mas depois que foi catalisadora do colapso do comunismo, administrou a terapia de choque da mudança para uma economia de mercado com disciplina impressionante. A esperança era de que tchecos e eslovacos se comportariam como os herdeiros esclarecidos de Havel.

Mas nenhum país comunista jamais experimentou essas mudanças radicais para democracia e economia de mercado. Apenas a Tchecoslováquia desfrutou de um governo democrático genuíno entre as duas guerras mundiais. O fim da Guerra Fria deixou os europeus eufóricos: assim que instituições democráticas fossem construídas, eleições livres fossem realizadas e economias centralizadas fossem substituídas por capitalistas, todos presumiram que o trabalho estaria feito.

O ingresso na Otan e na União Europeia era a cobertura do bolo. Em 2008, com a arrogância do "fim da história", um relatório do Banco Mundial proclamou que a transição estava encerrada. Missão cumprida.

Obviamente, não estava. O esforço de transformar a economia foi tão exigente para as novas elites democráticas que pouca atenção foi dada ao cultivo de uma nova cultura política. Políticos húngaros e poloneses modernos parecem dilacerados pelo legado do comunismo, pela dificuldade em dividir o poder, por teorias de conspiração e pelo discurso que exclui os oponentes.

Outro fator subestimado é que a maioria das pessoas nesses países ainda é pobre. Apesar do crescimento econômico ininterrupto desde 1992, o produto interno bruto da Polônia ainda equivale a apenas 68% da média per capita da União Europeia. Quando o ministro das Relações Exteriores da Polônia, Witold Waszczykowski, diz que o mundo não deve se mover em uma única direção, "para uma nova mistura de culturas e raças, um mundo de ciclistas e vegetarianos", ele está rejeitando os valores sociais progressistas percebidos como parte do modelo econômico da Europa Ocidental.

O bloco de Visegrad apreciou receber os subsídios da União Europeia, tão cruciais para seu desenvolvimento. Mas nós da Velha Europa nunca realmente insistimos que uma cultura democrática e diversidade também faziam parte do acordo; não achávamos que precisávamos.

Será que a ascensão da chamada democracia não liberal ameaça a coesão da união? Talvez. Mas os movimentos populistas eurocéticos estão longe de ser um fenômeno puramente centro-europeu; eles também estão avançando nos Estados membros fundadores da união. Vinte e cinco anos depois da cúpula de Visegrad, a Europa ainda está à procura de unidade, mas o sentimento mudou: da solidariedade para a recriminação.

*Sylvie Kauffmann é diretora editorial e ex-editora-chefe do jornal francês "Le Monde".

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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