Opinião: Centenas de jovens continuam a desaparecer no Egito, e ninguém acredita no governo

Mona Eltahawy*

No Cairo (Egito)

  • Amr Nabil/AP

    Parentes de presos que estão desaparecido protestam no Dia das Mães, no Cairo (Egito)

    Parentes de presos que estão desaparecido protestam no Dia das Mães, no Cairo (Egito)

Meu amigo Mostafa Massouny tem uma das coleções de música mais ecléticas que conheço. Primeiramente eu havia digitado "tinha" e "conhecia", porque temo que Mostafa esteja morto.

Nós nos conhecemos em uma festa na qual fiquei impressionada pela playlist de músicas núbias que ele tocou. Desde então, ele compartilhou peças de sua coleção comigo, muitas vezes via mensagens no Facebook ou no Twitter enviadas nas horas mais estranhas, acompanhadas de um simples "escute".

Os dois últimos presentes que recebi dele, no ano passado, foram Chet Baker e Paul Desmond tocando "Autumn Leaves" e Hugo Díaz em "Guitarra Miami". Sempre foi uma delícia receber dele um link do YouTube ou do SoundCloud.

Estou envergonhada, e imensamente triste, por não ter respondido à última mensagem que ele me enviou, uma frase curta que visava quebrar o gelo de uma mensagem anterior não respondida e tentativas de encontro fracassadas. Mas nós sempre pensamos que podemos ser descuidados, especialmente com amigos mais jovens.

Em 26 de março ele fez 27 anos. Seu aniversário também marcou os nove meses desde que ele --conhecido por seus amigos simplesmente como Massouny-- desapareceu depois de sair do apartamento de um amigo no centro do Cairo para comprar comida.

Massouny não foi acusado de nada, não há registro de sua detenção em lugar algum e seu corpo não apareceu em nenhum necrotério. Tudo o que sabemos é que duas semanas depois de seu desaparecimento a agência de Segurança Nacional ligou para seu emprego, onde ele era editor de vídeo, para confirmar se trabalhava lá.

Sua família disse que a agência lhes informou que Massouny estava sob sua custódia e seria libertado após o término de uma investigação.

No início de outubro, uma campanha nas redes sociais com o hashtag #WhereIsMassouny tornou-se tendência no Egito. Depois disso, o Ministério do Interior negou que Massouny tivesse sido preso pela polícia ou por qualquer aparelho de segurança afiliado.

Não temos motivos para acreditar neles.

 

Afinal, esse é o mesmo Ministério do Interior que culpou um bando, que segundo ele, se fantasiava de policiais e sequestrava estrangeiros, pelo assassinato de um estudante de doutorado italiano chamado Giulio Regeni, cujo corpo foi encontrado em uma estrada no deserto no início de fevereiro, vários dias depois de seu desaparecimento no aniversário da Revolução de 25 de janeiro de 2011.

No mês passado, o Ministério do Interior disse que os quatro membros do bando tinham sido mortos em um tiroteio com a polícia.

O ceticismo sobre essa afirmação se refletiu no desprezo que muitos nas redes sociais egípcias dedicaram ao ministério e ao governo do presidente Abdel Fattah el-Sisi por essa tentativa absurda de encerrar um caso que colocou seus brutais serviços de segurança sob a atenção internacional. Investigadores e políticos italianos e a família de Regeni recusaram a explicação conveniente do rapto e morte de Regeni.

Grupos de direitos humanos e ativistas egípcios afirmam que os sinais inconfundíveis de tortura no corpo do jovem indicam que ele foi morto pelos serviços de segurança, uma denúncia que o regime refuta.

Regeni era um estrangeiro cujo governo parece determinado a descobrir a verdade, um luxo que poucos egípcios têm, como Massouny. Especialmente os jovens egípcios estão entre os mais vulneráveis aos desaparecimentos forçados desde que Sisi liderou a deposição do governo da Irmandade Muçulmana do presidente Mohamed Morsi, em 2013.

A Coordenação Egípcia por Direitos e Liberdade afirma ter registrado 1.840 desses casos em 2015.

As evasivas do Ministério do Interior e a falta de transparência são especialmente preocupantes em um momento em que as autoridades, sempre atentas para a moral pública da polícia, estão combatendo os que relatam "falsas notícias". 

Ministério do Interior do Egito/AP
Documentos do estudante italiano Giulio Regeni

No mês passado, um tribunal condenou um blogueiro chamado Taymour el-Sobki a três anos de prisão com trabalhos forçados por tal acusação, depois que ele disse em um programa de TV que muitas mulheres egípcias estavam dispostas a trair seus maridos.

O escritor Ahmed Naji está servindo uma sentença de dois anos proferida por um tribunal de apelação em fevereiro por violar a "decência pública", depois que trechos de sexo explícito de seu romance foram publicados em uma revista literária. (Naji acaba de receber um prêmio da organização de escritores PEN.)

Por que um governo militar que luta contra uma insurgência islamista no norte do Sinai, com uma economia deficitária e uma crise de reservas se preocupa em processar blogueiros e escritores?

Porque é isso que faz um regime paranoico, ciente de suas falhas, mas igualmente consciente da relutância de seus aliados ocidentais a responsabilizá-lo.

Os grupos de direitos humanos no Egito afirmam que desde a nomeação do major-general Magdi Abdel-Ghaffar como ministro do Interior, em março de 2015, o desaparecimento forçado tornou-se a política de segurança de fato do governo de Sisi.

Nesse ambiente, é imperativo compreender que para cada Massouny --uma pessoa desaparecida com um nome e um rosto amplamente conhecidos-- há inúmeros outros cujo relativo anonimato esconde sua ausência da visão pública.

Em 26 de março, um corajoso grupo de jovens mulheres, usando camisetas com a imagem de Massouny, protestou diante do palácio presidencial em Heliópolis, um subúrbio do Cairo.

Uma delas, Sanaa Seif, sabia muito bem do risco que estavam correndo. Em 2014 ela foi condenada a três anos de prisão por violar uma lei antiprotestos aprovada logo depois que Sisi chegou ao poder. Mais tarde ela foi perdoada pelo presidente, mas seu irmão, Alaa Abd el-Fattah, continua preso por uma condenação semelhante.

Massouny não tem um governo estrangeiro que procura tenazmente a verdade sobre o que lhe aconteceu. Mas ainda há egípcios que, contrariando as probabilidades e apesar dos perigos reais, continuam dispostos a protestar diante das "falsas notícias" do próprio governo Sisi.

*Mona Eltahawy é autora do livro "Headscarves and Hymens: Why the Middle East Needs a Sexual Revolution" e colabora com artigos de opinião

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos