Mulheres afegãs: o que o Ocidente não entende

Bina Shah

Em Karachi (Paquistão)

  • Wakil Kohsar/AFP

Derrotar a crueldade exige uma agenda de origem doméstica.

Em janeiro, uma história horrível veio do Afeganistão, sobre a mutilação de uma mulher de 20 anos chamada Reza Gul. Ela fez objeção a seu marido tomar como segunda mulher uma sobrinha de 6 ou 7 anos. O marido retaliou decepando o nariz dela com um canivete e então fugindo.

Enquanto autoridades do governo, organizações de direitos humanos e até mesmo o Taleban condenavam o ataque, Reza Gul se tornou o mais recente exemplo das promessas fracassadas de libertar as mulheres afegãs da tirania do Taleban e, por extensão, de muitos homens afegãos. Mas essas promessas eram falhas desde o início.

Ativistas de direitos da mulher afegã assim como ativistas de fora do Afeganistão conhecidas como feministas interseccionais, que por definição entendem quão complexa pode ser a opressão às mulheres, dizem com frequência que as feministas ocidentais deturpam intencionalmente o apuro das mulheres afegãs; Spogmai Akseer até mesmo escreveu que retratá-las como "vítimas silenciosas e passivas de sua cultura, seus homens e suas políticas" serve apenas para justificar uma invasão imperialista disfarçada como missão humanitária de resgate.

Lina Abirafeh, uma especialista em violência baseada em gênero e que trabalhou no Afeganistão de 2002 a 2006, concluiu que os programas de ajuda ao país ignoraram um problema básico: destiná-los apenas às mulheres, sem também tratar dos homens, pode complicar a busca política pelos direitos das mulheres. De fato, a continuidade da violência contra as mulheres é alimentada em grande parte pelo ressentimento dos homens, assim como de muitas mulheres, com a agenda acelerada de mudança que consideram imposta a eles por forasteiros.

Ambas as análises apontam para a imensa diferença entre a forma como os ocidentais entendem a experiência feminina afegã e como as mulheres afegãs veem a si mesmas. Na verdade, a imagem própria de um grande número de mulheres afegãs não se enquadra na de vítimas, que é como os trabalhadores de ajuda humanitária ocidentais as veem. Em vez disso, elas veem a si mesmas como corajosas, capazes e fortes. O Islã é importante para elas, assim como é sua honra. Elas desejam mais liberdades, é claro, mas querem ser participantes ativas de sua própria libertação e determinarem o próprio ritmo para a luta.

Abirafeh argumenta que as mulheres afegãs sempre foram conscientes de seu sofrimento, mas se ofendem com a ideia de que precisam da intervenção de estrangeiros em prol delas. A escritora e advogada Rafia Zakaria argumenta que "intervenções imperialistas" são incapazes de "produzir as mudanças morais em solo que precisam ocorrer dentro do Afeganistão para tornar suas mulheres seguras".

Pouco antes do ataque a Reza Gul, uma cineasta afegã chamada Sahraa Karimi falou em Karachi. Ela disse que trabalhadores de desenvolvimento enriqueceram com "projetos de empoderamento da mulher" e "projetos de interesse das minorias", enquanto muitas intelectuais afegãs deixaram o país, resultando em uma "evasão de cérebros" debilitante.

É difícil demais para elas suportarem as condições de trabalho perigosas e o ambiente social sufocante fora das instalações ocidentais fortificadas no Afeganistão. Mas ela insistiu que outras mulheres afegãs agora são capazes de falar em seu próprio nome, com a ajuda de organizações internacionais de apoio. Oficinas e treinamento permitem que contem suas próprias histórias de sofrimento, em seus próprios termos, em vez de terem ocidentais falando por elas.

Devo confessar que também cometi o erro de ver as mulheres afegãs por um prisma míope. Em 1996, alarmada pelas notícias do status delas sob o Taleban, escrevi um conto que se concentrava em suas burcas e no aprisionamento forçado em casa. Na reviravolta final, revelei que estava falando na verdade sobre um futuro que poderia se desdobrar no Paquistão se ignorássemos o apuro de nossas irmãs afegãs. Agora eu olho para trás e me pergunto sobre como escrevi aquela história sem nunca ter me encontrado com uma mulher afegã real.

Isso só foi acontecer em 2013, quando viajei para Konya, Turquia, para uma conferência sobre a poesia e vida do místico sufi Rumi. Nossa delegação incluía duas mulheres jovens afegãs. Uma, gentil e reservada, era diretora de uma casa de cultura no norte do Afeganistão e editora de sua revista mensal. Ela estava estudando literatura dari na universidade, realizou extensa pesquisa sobre Rumi e já tinha compilado poesia jovem escrita na língua dari. A segunda mulher era uma poeta sem papas na língua e incendiária que escrevia para um jornal feminista e dirigia uma emissora de rádio.

As duas não eram vítimas, não eram exemplos para a invasão, apesar de terem viajado a Konya graças a uma subvenção estrangeira e seus projetos em casa serem financiados por organizações internacionais. Elas eram assim como eu quando tinha na faixa dos 20 anos: estudavam, trabalhavam e desenvolviam uma vida para si mesmas. Elas mantinham seus cabelos cobertos o tempo todo; a acadêmica com um lenço leve, a poeta com turbantes coloridos. Mas argumentavam e debatiam, riam e cantavam com todas nós enquanto seguíamos de Konya para a Capadócia.

Certo dia nossa delegação visitou uma minúscula igreja em uma caverna que inspirava reverência sob o peso de sua ancestralidade. Quando voltamos à forte luz do dia, a poeta subiu em uma beirada de pedra acima de nós e recitou poemas de Rumi, enquanto o restante de nós permanecia abaixo, extasiadas. Os olhos dela brilhavam com paixão, sua cabeça estava altiva e orgulhosa. Em plena luz solar, entre flores e afloramentos rochosos, ela estava vibrante, viva e livre.

Eu ainda mantenho contato com ambas as mulheres e vi com orgulho a poeta ser eleita no ano passado para o conselho de sua província. Posteriormente, descobri que ela tinha se casado. Eu escrevi para parabenizá-la por esse passo corajoso, uma aposta no futuro, baseada no otimismo e na confiança no homem afegão que ela escolheu para partilhar sua vida.

"Obrigada", ela respondeu. "Comecei uma nova vida, com amor."

*Bina Shah é autora de vários livros de ficção, incluindo, mais recentemente, "A Season for Martyrs" (Uma temporada de mártires, em tradução livre, ainda não lançado no Brasil).

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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