Opinião: Não se pode permitir que redutos antidemocráticos minem o governo da Líbia

Abdulrazag Elaradi*

Em Istambul (Turquia)

  • MAHMUD TURKIA/AFP

Na Líbia em 2011, uma coalizão liderada pelos americanos ajudou a derrubar os 42 anos de ditadura do coronel Muammar Gaddafi. Infelizmente, a falta de engajamento da coalizão com a transição do país permitiu a formação de um vácuo político que, de lá para cá, vários grupos lutam para preencher.

O caos que se seguiu transformou partes da Líbia em ninhos de militantes inspirados pelo Estado Islâmico. Isso, por sua vez, agravou a crise de segurança no país, à medida que grupos de oposição passaram a reivindicar o direito de governar sob uma bandeira de secularismo.

A verdade é que a luta da Líbia não é entre islamitas e secularistas. Essa moldura tediosa para interpretação da política árabe esconde a complexidade da situação da Líbia. Quase todas as grandes facções concorrentes na Líbia incluem um certo número de islamitas, liberais e apoiadores de milícias.

A verdadeira divisão no país é entre aqueles que desejam que a Líbia avance por meio do recém-instalado governo de unidade, e aqueles semelhantes ao general Khalifa Hifter, o homem forte que assumiu o controle de grande parte do leste do país após a queda do coronel Gaddafi, que detesta a ideia de ceder o controle de seu feudo, baseado na cidade costeira de Tobruk.

O processo na direção de um governo de unidade tem sido lento e difícil. Foi apenas em dezembro que um esforço apoiado pela Organização das Nações Unidas (ONU) finalmente começou a se concretizar por meio da assinatura do Acordo Político Líbio, resultado de arrastadas negociações entre campos políticos rivais baseados na capital, Trípoli, Tobruk e outras cidades. As autoridades do novo governo finalmente entraram em Trípoli há apenas poucas semanas.

Apesar do apoio pleno do Conselho de Segurança da ONU, este Governo de Acordo Nacional ainda possui inimigos. Alguns oponentes querem minar as aspirações do novo governo de uma Líbia pós-revolucionária democrática e próspera ao devolver o país a um governo ao estilo de Gaddafi. Outros simplesmente temem que um governo de unidade acabará com a posição e autoridade deles.

Entre os que resistem estão líderes como o general Hifter, que deseja controlar o Ministério da Defesa, e Nouri Abusahmain, o presidente do Congresso Geral Nacional (um Parlamento interino cujo mandato chegou ao fim formal em 2014, mas que persiste alegando sua legitimidade), que querem anular e renegociar um novo acordo político. Esses oponentes geralmente explicam sua posição como uma resposta ao que consideram como sendo um comportamento injusto por parte de seus adversários políticos no governo de unidade.

A meta deles, entretanto, não é promover qualquer ideologia em particular, mas sim proteger o poder que conquistaram no caos pós-revolucionário da Líbia. Eles estão principalmente preocupados de que o Governo de Acordo Nacional, no qual nenhuma facção conta com maioria, não possa ser controlado de uma forma que possa promover suas agendas pessoais.

Enquanto o campo do general Hifter justifica suas ações militares ao alertar para uma tomada pelos radicais islâmicos, os seguidores de Abusahmain tentam retratar o governo de unidade, caso passe a governar, como uma trama do Ocidente para fazer com que a Líbia perca sua soberania e esqueça as metas originais da revolução. Para que possa avançar, os líbios precisam ignorar essas vozes reacionárias.

Os membros desses grupos com frequência se apresentam como sendo islamitas moderados, liberais ou democratas com inclinação nacionalista. Eles falam em trabalhar por um governo justo, mas muitos acumularam poder pessoal e riqueza consideráveis por meio da exploração da turbulência atual. Alguns dos chamados liberais, que gostam de soar o alarme sobre a influência dos islamitas, se alinharam com senhores da guerra como o general Hifter. Aparentemente, eles não se importariam de tomar o poder político por meio de tanques, esmagando a democracia constitucional no caminho. Um propósito primário do governo de unidade é conter esses divisores.

O embaixador da Líbia nos Emirados Árabes Unidos, Aref Ali Nayed, que é afiliado à Câmara dos Deputados de Tobruk, corpo que conta com o apoio do general Hifter, despontou como uma importante voz daqueles que, sem fazer distinção, retratam todos os islamitas como sendo "terroristas". Colocando no mesmo cesto organizações tão díspares politicamente como a Irmandade Muçulmana e grupos jihadistas alinhados com o Estado Islâmico, ele os acusa de tiranizar o povo líbio sob o disfarce de um governo de unidade nacional apoiado pela ONU.

Ele também diz que esses "beligerantes" tentaram obter legitimidade ao ressuscitarem o Congresso Geral Nacional, após ele supostamente dar lugar a uma Câmara dos Deputados eleita há dois anos. O que Nayed e outros não mencionam é que a Suprema Corte da Líbia decidiu em 2014 que a emenda constitucional aprovada pelo Congresso antes da eleição da Câmara dos Deputados era inválida. Isso fez com que o processo pelo qual a Câmara dos Deputados foi formada se tornasse nulo e, assim, o novo Parlamento teve que ser dissolvido.

Em meio a essas disputas, o sectarismo político da Líbia se tornou ainda mais entrincheirado. Diferente da alegação de Nayed de "governo islamita tirânico", muitos líderes líbios, incluindo o presidente do Partido Justiça e Construção, um dos principais partidos políticos islamitas (do qual sou membro), têm se esforçado arduamente para reduzir as tensões e abrir espaço para negociações.

A formação do governo de unidade é um grande feito, mas a estrada para a ordem democrática ainda está cheia de obstáculos, particularmente quando se trata de acabar com a violência entre facções. O general Hifter, em particular, usa o exército formado pela Câmara dos Deputados como base de poder para competir com seus rivais políticos em Trípoli. Como apontou Martin Kobler, que lidera a Missão de Apoio das Nações Unidas na Líbia, esse força não representa todos no país. Para dar ao novo governo o monopólio do uso de força, todas as milícias, independente de sua ideologia, devem entregar suas armas; o Exército deve ser unido sob uma única estrutura de comando.

A comunidade internacional entende que não se pode permitir que a Líbia se dissolva em um Estado fracassado, o motivo para a ONU estar empregando o peso de seu apoio ao conselho presidencial do Governo de Acordo Nacional. A verdadeira batalha para a Líbia é entre aqueles que preferem restabelecer o governo autoritário e aqueles que querem construir uma democracia pacífica.

*Abdulrazag Elaradi, um empresário líbio, integrou o Conselho de Transição Nacional de 2011 a 2012

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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