O novo homem forte das Filipinas

Laurel Fantauzzo*

Em Manila (Filipinas)

  • Romeo Ranoco/Reuters

Não havia tensão nos rostos dos policiais que protegiam a Prefeitura em Pasig City na noite de segunda-feira. O sentimento do lado de fora era festivo: filipinos de classe trabalhadora vestindo sandálias, bermudas e tops dividiam lanches e brincavam enquanto assistiam em um telão a apuração da eleição nacional realizada mais cedo naquele dia. Perto dali, vários policiais estavam sentados em cadeiras brancas de plástico características da burocracia filipina, tranquilos.

O derramamento de sangue que com frequência acompanha as mudanças políticas nas Filipinas estava acontecendo em outras províncias. Em outro lugar, homens armados atiravam contra candidatos e eleitores. Em outro, uma granada foi lançada em um mercado. Em outro, soldados foram mortos.

Mas em Pasig, uma cidade de renda média dentro da região metropolitana de Manila com mais de meio milhão de habitantes, um senso de celebração cercava a Prefeitura. Os donos das lojas com telhados de zinco sorriam; os motoristas de mototáxis cumprimentavam uns aos outros. Já parecia certo que o belicoso Rodrigo Duterte, o preferido dos moradores de Pasig, se tornaria o próximo presidente das Filipinas.

Os cartazes de campanha da maioria dos candidatos exibiam seus nomes ou rostos sorridentes, mas Duterte cobriu todo o país com imagens de punhos, seu símbolo. O punho estava presente em muros, carros, motos, camisetas e pulseiras. Dependendo de seu ponto de vista, o punho parecia prometer um cumprimento, segredos escondidos na palma ou uma ameaça de lesão.

Em um momento na noite de segunda-feira, eu estava ao lado de três oficiais da Polícia Nacional Filipina na escadaria da Prefeitura. Um deles, Peterson Yñigo, tinha um enorme fuzil Tavor TAR-21 pendurado em seu ombro. "Israelense", ele disse, avaliando o peso de sua arma em suas mãos.

Eu lhe disse que temia que um governo Duterte poderia dar início a uma nova ditadura, minar as liberdades civis e até mesmo apoiar esquadrões da morte, como dizem que Duterte fez enquanto era prefeito de Davao City, todos os horrores dos quais muitos filipinos, incluindo minha família, fugiram nos anos 70.

"Devo ter medo?" eu perguntei.

Yñigo sorriu e arregaçou a manga de seu uniforme preto do comando SWAT. Ele estava usando um bracelete vermelho que dizia "DUTERTE" em letras maiúsculas.

Eu lhe perguntei sobre o perdão que Duterte disse que concederia a qualquer agente da lei que matasse criminosos. "As drogas são o verdadeiro problema aqui", disse Yñigo. "Os criminosos entram e saem. Até mesmo na cadeia eles agem livremente e realizam seus negócios. São sempre os mesmos criminosos. Não podemos fazer nada." A implicação parecia clara: o perdão por Duterte era uma ideia bem-vinda.

Na noite de segunda-feira, também parecia que Ferdinand Marcos Jr., também conhecido como Bongbong, o filho do ditador que aterrorizou as Filipinas nos anos 70, venceria a disputa simultânea e separada para a vice-presidência. (Até a tarde de quarta-feira, entretanto, a congressista Leni Robredo, uma defensora dos cidadãos de baixa renda e dos direitos das mulheres, estava à frente de Marcos por uma margem estreita.) Yñigo tem 28 anos e, como muitas pessoas de sua geração, é jovem demais para lembrar de Ferdinand Marcos pai, de modo que parecia desinformado e votou em Bongbong.

"Se você tiver um pé de santol, ele não produzirá abiu", ele disse, referindo-se a duas frutas locais. "Se o pai for bom, o filho também será bom."

Mais cedo naquela noite, eu jantei em um condomínio fechado protegido por homens armados a poucos quilômetros da Prefeitura. A casa tinha pé direito alto e pisos brancos; uma empregada serviu uma refeição filipina com múltiplos pratos e chá verde. Alberto Gatmaitan Romulo, 82, o ex-secretário de Relações Exteriores dos presidentes Gloria Macapagal Arroyo e Benigno Aquino 3º, estava sentado à cabeceira. Estávamos na casa de uma das filhas de Romulo e o sentimento era triste: tanto ela quanto um irmão mais novo tinham sido derrotados na disputa por cadeiras na Câmara e no Senado, respectivamente.

Mesmo assim, Romulo disse entender a frustração do país e que compartilhava a esperança dos eleitores. Os cidadãos estavam furiosos com o governo Aquino de saída, explicou Romulo, por ele parecer insensível aos apelos deles por igualdade econômica.

Durante os seis anos de Aquino no poder, a taxa de pobreza permaneceu teimosamente inalterada, enquanto o patrimônio líquido das 40 famílias mais ricas do país triplicou. "O governo não investiu o suficiente em infraestrutura, estradas e comunicações, as coisas que melhorariam a vida das pessoas", acrescentou Romulo.

Eu lhe fiz a pergunta que faria a Yñigo mais tarde naquela noite: deveríamos temer um retorno da lei marcial, como sob Ferdinand Marcos pai, quando milhares de dissidentes políticos, estudantes ativistas, jornalistas e cidadãos comuns foram mortos, torturados ou desapareceram?

Romulo e sua família tiveram que se esconder por algum tempo naquele período. "Não acho que os velhos tempos ruins voltarão", ele disse. "Espero que este novo presidente possa promover algumas boas mudanças que realmente ajudem as pessoas."

Apesar das diferenças de idade, classe e poder, Romulo e Yñigo compartilhavam uma perspectiva semelhante. Eles eram como muitos dos taxistas e mototaxistas, lojistas e trabalhadores filipinos com os quais conversei nos últimos dias, que continuavam dizendo "matapang", arrojado ou corajoso em filipino, uma abreviação para a audácia singular de Duterte, que acreditam que trará segurança e prosperidade às Filipinas.

Diferente de outros simpatizantes de Duterte, Romulo não se deixou levar por sua rudeza, os dedos médios em riste, as piadas de estupro, a ameaça de mortes extrajudiciais. Ele prontamente as descontou como uma tática populista no teatro inevitável da campanha eleitoral.

Não sou tão otimista e não sou a única pessoa incomodada. Na noite de segunda-feira, alguns de meus amigos faziam  piadas de humor negro sobre tomar uma saideira antes da volta dos toques de recolher militares. Outros trocavam dicas no Facebook e Twitter sobre para quais países os filipinos podem viajar sem a necessidade de visto.

Eleições são eventos humanos, mas podem parecer desastres naturais. Nas Filipinas, eleições são como tufões. Eles varem regularmente o país, inevitáveis e esmagadores. Alguns alteram a rotina do país por um momento. Outros deixam marcas na paisagem e nas vidas de seus cidadãos para sempre.

*Laurel Fantauzzo é uma professora do Centro dos Escritores da Faculdade de Yale-Universidade Nacional de Cingapura, em Cingapura, e autora do breve lançamento "The First Impulse" –o Primeiro Impulso, em tradução livre– sem previsão de lançamento no Brasil

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos