Opinião: A nova revolução na Tunísia

Hussein Ibish*

Em Túnis (Tunísia)

  • Fethi Belaid/AFP

    O líder do partido Ennahdha, Rached Ghannouchi, participa de congresso da legenda em Hammamet, na Tunísia

    O líder do partido Ennahdha, Rached Ghannouchi, participa de congresso da legenda em Hammamet, na Tunísia

O país que liderou a Primavera Árabe hoje é a terra do primeiro partido pós-islâmico do mundo

"O islã está morto!", anunciou Said Ferjani, um líder da ala progressista do Ennahda, o principal partido político islâmico da Tunísia, enquanto tomávamos café em um hotel aqui em maio.

Ferjani, um ex-linha-dura que já armou um golpe contra o regime do presidente Zine el-Abidine Ben Ali, parecia entusiasmado ao descrever a transição histórica que seu partido está prestes a empreender.

Sua ala havia se combinado com a liderança do partido para promover uma série de resoluções que não apenas reformulariam o Ennahda, como também romperiam com a tradição de islamismo político que começou com a Irmandade Muçulmana, fundada no Egito no final da década de 1920.

Segundo Ferjani, o islamismo foi útil sob a ditadura de Ben Ali, quando "nossa identidade e sentido de propósito" foram ameaçados por um Estado autoritário. Agora que o Ennahda está envolvido na política partidária legal, sob a nova Constituição que ele ajudou a escrever, e concorre à liderança nacional, o rótulo "islâmico" tornou-se mais um peso que uma vantagem.

O cofundador e líder do partido, Rachid Ghannouchi, estava mais circunspecto quando o entrevistei em sua casa. Ele se mostrou indeciso quando lhe perguntei se achava que o islamismo está morto.

"Eu não diria isso", comentou. Mas rejeitou o rótulo, dizendo: "Não vemos nenhum motivo para nos distinguirmos de outros muçulmanos".

Tanto Ghannouchi como Ferjani preferem o termo "democratas muçulmanos" --que deliberadamente traça uma analogia com os partidos democrata-cristãos da Europa ocidental-- para descrever sua nova identidade pós-islâmica.

Em particular, o comprometimento explícito de Ferjani com os princípios da liberdade e da igualdade o torna, talvez, a figura política pós-islâmica mais destacada no mundo árabe sunita. Enquanto chama a si mesmo de conservador e prega "valores familiares", Ferjani diz que considera a sexualidade, a orientação sexual e a identidade de gênero --incluindo as questões de transgêneros que preocupam os EUA-- como privadas e pessoais, e não assuntos que o Estado e as autoridades legais devam prescrever.

Ferjani também aprova a neutralidade do Estado em questões religiosas. Ele compara a liberdade religiosa à liberdade de consciência e acredita que agnósticos e ateus devem gozar dos mesmos direitos civis que os monoteístas.

Em nossa entrevista, Ghannouchi estava previsivelmente mais cauteloso. Defendeu a igualdade entre muçulmanos de todas as seitas, estendendo-a com certa resistência a cristãos e judeus e referindo-se legalisticamente às "proteções constitucionais" a ateus e agnósticos.

No congresso do Ennahda em maio, os 1.200 delegados aprovaram a maioria das mudanças abrangentes na plataforma do partido que a facção de Ferjani e a liderança de Ghannouchi pediam.

A medida mais importante abandona o compromisso do partido com o "dawa", o proselitismo dos valores islâmicos. Isso torna o partido uma organização puramente política, sem uma missão religiosa declarada --uma ruptura radical da linha tradicional da Irmandade Muçulmana, da qual surgiu o movimento Ennahda.

Na Tunísia e em todo o mundo árabe, liberais, secularistas e críticos do islamismo continuam céticos. Em mais de uma ocasião aqui na capital eu testemunhei a ideia da nova posição do Ennahda provocar risos de importantes adversários políticos.

Eles apoiam o diálogo, a cooperação, até a parceria na coalizão com o Ennahda, mas acham impossível levar a sério essa declaração "pós-islâmica".

É verdade que muitos líderes do movimento não se reconciliaram totalmente com a ideia de ir além da visão da Irmandade Muçulmana.

Depois da revolução de 2011, que ajudou a levar o Ennahda ao poder, o partido parecia decidido a se manter a qualquer custo --até o momento crítico em 2013, quando o governo da Irmandade do presidente Mohamed Morsi, no Egito, foi deposto por um levante apoiado por militares.

Depois de ver a queda de seu homólogo egípcio, o Ennahda tentou se proteger aceitando uma série de compromissos.

Essa experiência, combinada com um novo realismo sobre a falta de simpatia da maioria dos tunisianos por um governo confessadamente islâmico, deu origem a esse projeto de reformulação de imagem. Não há dúvida de que tudo faz parte do plano do Ennahda de voltar ao poder em longo prazo.

Mas a sinceridade de sua transformação não é muito relevante. O Ennahda não é mais um movimento subterrâneo ou uma sociedade secreta. É um partido político aberto, que almeja o poder no novo sistema democrático constitucional da Tunísia.

Sempre foi provável que o islamismo evoluísse assim, na prática. Nunca haveria uma epifania em que islâmicos autoritários da velha guarda fossem instantaneamente convertidos em um momento de suprema visão em conservadores sociais democráticos.

É necessariamente uma transição confusa, contextual, basicamente dirigida pela busca do poder em um mundo árabe onde a maioria das pessoas é devota muçulmana, mas continua desconfiada dos defensores do islamismo político.

O que os críticos e seguidores do Ennahda devem entender é que as intenções da liderança não importam --em uma democracia, são as palavras e os atos públicos, e não pensamentos secretos, que contam.

Mesmo que a remarcação como "democratas muçulmanos" seja um esquema cínico, o partido terá de seguir adiante para conquistar poder em uma sociedade tunisiana que não aceitará o islamismo à velha moda. Os democratas muçulmanos serão o que o Ennahda tem de se tornar.

O futuro do islamismo nos países muçulmanos em toda parte está profundamente ligado ao progresso do Ennahda com sua nova imagem. E seu destino está, portanto, ligado à sobrevivência da nova Tunísia.

Em parte contrariando suas próprias tendências, o Ennahda tornou-se o primeiro partido pós-islâmico do mundo árabe. As apostas, para a região e para o mundo, na frágil experiência democrática da Tunísia acabam de aumentar de modo incomensurável.

*Hussein Ibish é professor-residente sênior no Instituto dos Países do Golfo Árabe em Washington e contribui com artigos de opinião

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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