O incessante retorno de George W. Bush

Maureen Dowd

  • Luke Frazza/AFP

Durante a convenção de 2000 de George W. Bush na Filadélfia, minha irmã apareceu à minha porta.

Ela trabalhava como voluntária para o candidato republicano e carregava um cartaz "W. Apoia as Mulheres". Os hotéis estavam lotados e ela queria dormir na minha sala.

Eu lhe disse que ela podia entrar, mas o cartaz não.

Levei Peggy comigo a uma refeição com Johnny Apple, um repórter de política e restaurantes do "Times" que era conhecido como uma lenda em seu tempo de almoço.

Ela perguntou a Johnny se W. seria eleito presidente. Eu estava interessada em sua resposta, porque ele conhecia W. e Al Gore desde que eram jovens, por já ter feito a cobertura de seus pais.

"Bush vencerá", ele disse para minha irmã com seu vozeirão, com o guardanapo pendurado em seu pescoço como um babador. "E será um presidente bastante popular."

Sempre penso naquele momento, e em como o 11 de Setembro virou tudo de cabeça para baixo e em como as coisas poderiam ter sido diferentes, nas raras ocasiões em que W. aparece.

O ex-presidente fez um breve discurso eloquente em Dallas, no serviço fúnebre dos cinco policiais assassinados por um atirador. Em um tapa em Donald Trump, um homem odiado pela família Bush, W. disse: "Não queremos união no pesar e nem queremos união no medo. Queremos união na esperança, afeição e em um propósito superior".

Ele está certo em dizer que o mundo já teve união demais no pesar, mergulhado nos relâmpagos aleatórios de tiroteios em massa e ataques terroristas. As reputações de W. e do presidente Obama estão sendo lustradas pelo contraste com Trump.

W. falou em Dallas sobre "encontrar o melhor de nós mesmos". Quem dera ele tivesse encontrado o seu enquanto estava no cargo. Em vez disso, seus fantasmas nunca estão distantes. Ele deve ver as ondas de seus erros continuamente rasgando o globo.

Uma nova biografia, "Bush" (não lançado no Brasil), de Jean Edward Smith, apresenta os mesmos argumentos usados por Trump quando este sacudiu a ortodoxia republicana e derrubou Jeb ao dizer que W. ignorou os alertas antes do 11 de Setembro e reagiu de forma excessiva depois.

"Argumentar que ao agir como fez o presidente manteve a América segura significa ignorar a verdade", escreve Smith, acrescentando: "O fato é que, a ameaça de terrorismo enfrentada pelos Estados Unidos é, em muitos aspectos, o resultado direto da decisão de Bush de invadir o Iraque em 2003".

Por falar em ignorar a verdade, finalmente vimos dois documentos do governo há muito esperados na semana passada. O ex-senador Bob Graham, da Flórida, pressionou os governos Bush e Obama a retirarem a confidencialidade das notórias 28 páginas bloqueadas quando a investigação do 11 de setembro foi divulgada em dezembro de 2002.

A seção detalha os laços suspeitos entre os sequestradores (15 dos 19 eram sauditas) e outros agentes da Al Qaeda com a família real saudita. Em um caso, o primeiro prisioneiro da Al Qaeda sob custódia da CIA pós-11/09 tinha um número de telefone pertencente a uma empresa que cuidava da casa no Colorado do príncipe Bandar bin Sultan. O ex-embaixador saudita era tão próximo da família Bush que era conhecido como Bandar Bush.

Se as 28 páginas tivessem sido divulgadas em 2002, as revelações poderiam ter ajudado a deter a invasão ao Iraque, ao mudar o foco para o local adequado: os possíveis elos reais entre a Al Qaeda e a realeza saudita, em vez dos elos fantasiosos entre a Al Qaeda e Saddam pressionados por Dick Cheney.

W. disse que divulgação das páginas naquela ocasião tornaria "mais difícil para nós vencermos a guerra contra o terror". Mas agora que podemos vê-las, está claro que o reverso é verdadeiro: foram os sauditas que repetidamente atrapalharam os esforços americanos de reprimir a Al Qaeda antes do 11 de setembro.

A investigação Chilcot do governo britânico a respeito da Guerra no Iraque também finalmente foi divulgada, um relatório de 2,6 milhões de palavras batendo em Tony Blair.

Em 2002, Blair reafirmou sua boa fé de cachorrinho de colo ao enviar a W. uma nota dizendo: "Estarei com você aconteça o que acontecer".

A população britânica já transformou Blair em pária há muito tempo. Mas foram precisos sete anos para o governo britânico concluir que Blair permitiu a W. iniciar uma guerra com inteligência desonesta e planejamento inadequado para controle dos campos de morte em um cenário pós-Saddam, um cenário que acabou gerando o Estado Islâmico.

Sarah Helm, a esposa de Jonathan Powell, um importante assessor de Blair nos preparativos para a guerra, escreveu recentemente um artigo para o jornal "The Guardian" sobre uma conversa entre W. e Blair. Ela disse que a ouviu com Powell por um telefone seguro na casa deles certa noite em março de 2003. Uma jornalista, Helm tomou notas que posteriormente usaria em uma peça.

Esse é o relato dela: Blair ainda estava tentando em vão orientar o presidente, que se mostrava arrogante e inflexível. W. disse a Blair que estava pronto para "arrebentar". Ele desdenhou Hans Blix, o inspetor de armas da ONU que não conseguiu encontrar nenhuma arma de destruição em massa no Iraque, como "esse não conta". Ele elogiou a linguagem corporal de Blair ao defender a guerra e pediu ao primeiro-ministro poodle para que "aguente ai" e demonstre "colhões".

Quando Blair mencionou as objeções dos franceses, W. zombou: "Tá, mas o que os franceses já fizeram par alguém? Que guerras venceram desde a Revolução Francesa?"

W. passa a imagem de um caubói de desenho animado de lantejoulas, ingênuo e teimoso. Às vezes, quando você dá uma espiada atrás da cortina, seus piores temores viram realidade.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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