Iraquianos se acostumam com uma vida de terrorismo e corrupção

Sinan Antoon

  • Hadi Mizban/AP

Enquanto crescia em Bagdá, minha parte favorita da cidade era Karrada, o bairro na margem leste do rio Tigre onde uma bomba foi detonada em 3 de julho, matando pelo menos 250 pessoas. Eu costumava ir ali com frequência para caminhar por suas ruas elegantes. A rua principal era margeada por butiques finas e lojas vendendo sanduíches e sucos frescos deliciosos. Mulheres atraentes e homens jovens bonitos andavam pelas calçadas. O ônibus me deixava perto da Praça Kahramana, que levava o nome da estátua em seu centro.

Mohammed Ghani Hikmat, um dos melhores escultores do mundo árabe, transformou em um dos marcos mais notáveis da Bagdá moderna o momento de "As Mil e Uma Noites" em que Kahramana, a engenhosa escrava de Ali Babá, supera os ladrões e salva seu mestre. Em vez do óleo quente que Kahramana despeja nos jarros para queimar os 40 ladrões escondidos ali, a obra de Hikmat a mostra despejando água, que sob e desce, formando um conjunto de fontes cadenciadas.

Da última vez que visitei Bagdá, há três anos, Kahramana parecia esgotada e sitiada. O gramado que costumava cercar a estátua foi coberto pelo avanço do asfalto das ruas que a cercam. Ao passarmos de carro por Kahramana e pelo trânsito pesado de Karrada, bloqueado por postos de controle, tive o mesmo pensamento que tive quando voltei a Bagdá em 2003, poucos meses depois da invasão americana. Aquela era minha primeira visita desde que deixei o Iraque em 1991. O pensamento era de que o regime de ocupação instalado pelos americanos tinha criado não 40 ladrões, mas 40 mil, que perambulavam por Bagdá e pelo restante do Iraque, saqueando o país. A maioria deles vivia e trabalhava na chamada Zona Verde. Kahramana estava desamparada. Mas os bagdalis ainda seguiam até Karrada para caminhar, comer e fazer compras, para tentar viver apesar de todas as dificuldades.

Os políticos corruptos (o Iraque aparece consistentemente entre os piores países no Índice de Percepção de Corrupção da Transparência Internacional) estão roubando dos iraquianos não apenas sua riqueza, mas até mesmo suas vidas. O caso dos falsos detectores de bombas é um exemplo da relação entre corrupção e morte.

Ao longo da última década, o Iraque pagou mais de US$ 80 milhões por detectores de bombas. Milhares de vidas iraquianas depois, é revelado que não são capazes de detectar nada além de bolas de golfe. O policial britânico que virou empresário e os produzia em seu quintal foi condenado por fraude e sentenciado a 10 anos de prisão em 2013. Mas esses detectores de bombas ainda estavam em uso durante minha última visita ao Iraque e até o início deste mês. Apenas depois do ataque de 3 de julho em Karrada é que o primeiro-ministro Haider al-Abadi ordenou que fossem retirados de uso. E foi apenas a fúria expressada pelos iraquianos pelas redes sociais que o levou a fazê-lo.

Talvez se houvesse detectores de bomba que funcionassem, o ataque em Karrada, onde famílias iraquianas estavam comprando presentes para o Eid al-Fitr, o banquete que marca o final do Ramadã, pudesse ter sido impedido. O mesmo vale para os mais de 2.000 outros ataques terroristas desde 2003. Não são apenas detectores de bombas que não funcionam no Iraque. O próprio Estado é disfuncional em todas as formas, mas particularmente em sua capacidade de proteger os civis do terrorismo. O Estado Islâmico é apenas a versão mais recente e brutal do terrorismo com o qual os iraquianos convivem desde 2003.

O Relatório Chilcot reabriu o debate no Reino Unido sobre a genealogia da guerra e seus efeitos desastrosos, não apenas sobre os veteranos e suas famílias, mas também sobre os iraquianos. Para os iraquianos, entretanto, o relatório não revelou nada que não soubessem ou já suspeitassem. Além disso, a maioria deles estava ocupada lamentando as vítimas mais recentes, tentando processar mais outro ataque letal no coração da capital. Grande parte da fúria expressada pelos iraquianos era focada contra a elite política.

Abadi tentou visitar o local do atentado em Karrada poucas horas depois do ataque, mas pedras e sapatos foram atirados contra ele e foi forçado a fugir. Muitos iraquianos também ficaram amargos com o mundo, cuja solidariedade e empatia em grande parte se restringe às vítimas no Ocidente, onde os ataques terroristas são tratados como ataqes contra a humanidade e provocam pesar imediato e coletivo. A morte de civis iraquianos pelas mãos de terroristas passou a ser algo normal. Em maio, uma série de atentados a bomba matou mais de 200 pessoas. Dezenas morreram em ataques terroristas em Bagdá desde o atentado em Karrada. Segundo a Pesquisa Mercer de Qualidade de Vida, Bagdá é uma das cidades menos seguras do mundo, ao lado de Damasco, Síria.

O local do ataque em Karrada, um shopping, se transformou espontaneamente em local de lamentação pública. Os bagdalis vieram para acender velas e rezar pelos mártires. Houve pesar e expressões de solidariedade por todo o país; esse pesar transcendeu momentaneamente as divisões e tensões sectárias.

Mas passados três dias, o local foi tomado pelos partidos e milícias da seita dominante. Eles realizaram suas próprias cerimônias de luto e encheram a fachada do prédio incendiado com faixas. Enfurecidas pela hipocrisia e exploração política dos mortos, as famílias dos mártires realizaram uma coletiva de imprensa e divulgaram uma declaração. Suas exigências incluíam a remoção de todas as faixas partidárias do local do atentado, o fim dos rituais de luto, a reconstrução do local e indenização às famílias dos mártires.

"Todos nós somos cadáveres esperando para morrer", disse um homem no local, um dia depois do ataque. Um amigo escreveu para me avisar que sobreviveu por pura sorte. Ele planejava ir a Karrada na noite do atentado, mas ficou retido em um congestionamento. Quando compartilhei minhas recordações de caminhadas pelo bairro anos atrás, ele respondeu: "Em Bagdá, dar uma caminhada atualmente pode levá-lo ao cemitério".

*Sinan Antoon, um poeta e romancista, é um professor associado da Universidade de Nova York

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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