Análise: Desespero, guerra e pobreza levam muçulmanos a buscar felicidade pós-morte

Kamel Daoud*

Em Orã (Argélia)

  • Iqro Rinaldi/Reuters

    Muçulmanos fazem orações de sexta-feira na mesquita de Istiqla, em Jacarta, Indonésia

    Muçulmanos fazem orações de sexta-feira na mesquita de Istiqla, em Jacarta, Indonésia

Futuro projeto para um livro: uma topografia do paraíso segundo o imaginário muçulmano medieval. Mas não apenas medieval, pois entre os muçulmanos atualmente, o paraíso também está no centro do discurso político, dos sermões e do imaginário contemporâneo. O paraíso como meta individual ou de grupo tem substituído gradualmente os sonhos de desenvolvimento, estabilidade e riqueza prometidos pela descolonização do pós-guerra no chamado mundo árabe. Atualmente, uma pessoa imagina um amanhã feliz apenas após a morte, não antes.

"O paraíso está cheio de prazeres", meditou um editorial em um jornal islamita argelino durante o mais recente Ramadã, o mês sagrado de jejum. A declaração foi seguida por descrições dos encantos, prazeres e alegrias que aguardam os fieis após a morte. Essa fantasia do paraíso, amplamente descrita como um local de prazeres, com sexo e vinho, adornos dourados e vestes de sede, é o oposto da vida terrena, e das frustrações experimentadas nos países árabes afligidos por fracassos econômicos, guerras e ditaduras sanguinárias.

O "Firdaus" (uma ancestral remota da palavra "paraíso", derivada do persa) foi prometido pelo Alcorão e foi descrito de forma abundante na literatura religiosa por séculos. Mas nos últimos anos, o paraíso também se tornou o país dos sonhos dos pobres, dos desempregados e dos crentes, assim como dos jihadistas, graças a certas elites religiosas que o promovem como forma de recrutamento.

Trata-se de uma renovação fascinante de um conceito de felicidade predominante meio século atrás. Naquela época, os países do Magreb (região noroeste da África) e do Oriente Médio, nascidos de uma descolonização resultante da remoção às vezes violenta de forças de ocupação que impuseram guerra, pobreza e miséria, passaram a defender uma visão de futuro baseada na independência, igualitarismo, desenvolvimento, criação de riqueza, justiça e coexistência.

Faisal Mahmood/Reuters


Essa visão de uma utopia dentro do alcance humano, que foi tomada pelas elites socialistas ou comunistas, até mesmo por algumas monarquias, era um sonho político compartilhado, dando legitimidade aos novos regimes tanto aos olhos de seus próprios povos quanto aos olhos de governos estrangeiros. A descolonização foi uma era de grandes slogans sobre o avanço dos povos e modernização por meio de imensos projetos de infraestrutura.

Mas esse sonho não envelheceu bem, devido à mentalidade sanguinária desses regimes autoritários e dos fracassos políticos da esquerda no mundo árabe.

Hoje, é preciso ser muçulmano (por fé, cultura ou local de residência) para que se possa experimentar o peso pleno da nova utopia pós-morte da iIslamosfera que circula pela internet e pela mídia. Ela condiciona a imaginação das pessoas, o discurso político, os sonhos acordados e o desespero das gerações mais novas. O paraíso voltou a entrar na moda, descrito em detalhes desconcertantes por pregadores, imãs e pela literatura fantasiosa islamita.

Seu principal argumento de venda: mulheres, que são prometidas em grande número como recompensa para os justos"

As mulheres do paraíso, as huris, são virgens belas, submissas e que provocam suspiros. A ideia delas alimenta uma forma pouco crível de islamismo erótico que move os jihadistas e faz com que outros homens fantasiem sobre escapar da miséria sexual do cotidiano. Homens-bomba ou misóginos, eles compartilham o mesmo sonho.

E quanto à admissão de mulheres no jardim eterno? Se os homens podem ter dezenas de virgens, e quanto às mulheres, especialmente considerando o machismo desses autores de sonhos terrenos? As respostas dos pregadores podem ser engraçadas: a recompensa celestial da mulher é ser a esposa feliz de seu marido por toda a eternidade, com os dois destinados a desfrutar de felicidade conjugal perpétua, na idade simbólica de 33 anos e com boa saúde. E se a mulher for divorciada? Um pregador responde que ela será casada de novo com um homem morto que também se divorciou.

Arif Ali/ AFP

Curiosamente, esse sonho de um paraíso muçulmano se vê confrontado com outro sonho ao mesmo tempo antagônico e semelhante: o Ocidente. Gerando paixão ou ódio tanto para o fiel muçulmano quanto para o jihadista, o Ocidente e suas indulgências representam outra faceta do paraíso muçulmano pós-morte. A pessoa sonha em ir para lá, seja como imigrante ou como mártir. A pessoa sonha em ir para o Ocidente e viver e morrer lá, ou subjugá-lo e destruí-lo.

A nova utopia muçulmana tem grande peso no mundo árabe atual. O que motiva as massas, dá uma ideia de seu desespero, alivia o peso do mundo e compensa pelo pesar não mais é a promessa de um país rico e feliz, como ocorreu após a descolonização; é uma visão de paraíso no pós-vida. Mas essa fantasia de felicidade eterna também causa desconforto: por mais que alguém deseje ignorá-la, permanece o fato de que para se chegar ao céu, é preciso primeiro morrer.

*Kamel Daoud, colunista do "Quotidien d'Oran", é autor do romance "Meursault, Contre-enquête ", ou "Meursault – Contra-investigação", em tradução livre, ainda não lançado no Brasil

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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