Opinião: Tentativa de reprimir gays em Israel apenas prova que as mentes abriram

Shmuel Rosner

Em Jerusalém

  • Amir Cohen/Reuters

    21.jul.2016 - Ativistas participam da Parada Anual do Orgulho Gay em Jerusalém

    21.jul.2016 - Ativistas participam da Parada Anual do Orgulho Gay em Jerusalém

Um rabino achou que estava se posicionando contra avanços na causa LGBT. Mas ele só provou como nossas mentes se abriram.

No dia 21 de julho, uma jovem israelense postou um relato no Facebook sobre como se apaixonara por outra mulher. A jovem vinha de uma família judaica ortodoxa moderna. Ela esperava ter uma vida tradicional de família ortodoxa, com um marido e muitos filhos vivendo em uma comunidade seguidora da lei judaica.

No entanto, após uma década buscando por um amor, ela acabou encontrando-o onde menos esperava. Seu amor verdadeiro veio emaranhado com a dolorosa percepção de que tudo que ela vinha esperando—o marido, os filhos, a comunidade—não ia acontecer do jeito que estava imaginando.

Essa jovem é minha irmã.

Ela normalmente é uma pessoa reservada, não do tipo que contaria sua história casualmente para todos, inclusive os amigos ortodoxos de nossos pais. Mas dessa vez ela tinha um motivo. "Ultimamente tem sido mais claro do que nunca que questões de foro íntimo, pelo menos desse tipo, são algo muito político", ela escreveu. Para que fique mais claro, seu motivo tem um nome: o rabino Yigal Levenstein.

Dez dias antes do post de minha irmã no Facebook, o rabino Levenstein condenou publicamente uma tendência que celebrava o que ele descreveu como "pervertidos" LGBT. O rabino Levenstein provavelmente achou que estava traçando um limite contra a invasão que a comunidade LGBT estava cometendo em Israel.

Mas ele acabou provocando algo bastante notável: a maior parada gay de todos os tempos em Jerusalém, na qual um número significativo de israelenses ortodoxos modernos demonstraram seu apoio.

O judaísmo ortodoxo segue uma rígida proibição bíblica contra a homossexualidade. O braço ortodoxo moderno de Israel, conhecido como sionista-ortodoxo, responde por cerca de 14% da população judaica e normalmente é contado como um dos quatro braços principais do judaísmo israelense: secular, tradicional, sionista-ortodoxo e ultra-ortodoxo.

Os seguidores ortodoxos modernos tentam viver uma vida judaica rígida sem se separarem do mundo moderno, um mundo que tem uma mente cada vez mais aberta em relação à homossexualidade. Israel é um Estado judaico no qual os rabinos ortodoxos muitas vezes são os intérpretes oficiais do judaísmo. Israel é também um país no qual a aceitação a homossexuais é alta (com algumas questões ainda em debate, é verdade).

O rabino Levenstein, que é ortodoxo moderno, é o líder de uma importante academia religiosa que prepara seus estudantes para servir em unidades militares de elite. Alguns dos melhores e mais brilhantes líderes militares começaram suas carreiras em sua academia. E o rabino Levenstein obviamente está aborrecido com as tendências na cultura de Israel, que ele vê como excessivamente tolerante, liberal, secular e ocidental.

Em uma diatribe, o rabino Levenstein criticou as Forças de Defesa Israelenses por serem brandas demais, chamou o judaísmo reformado de "cristianismo" e denunciou a infiltração no meio militar de "um movimento insano cujos membros perderam a normalidade da vida", ou seja, os "pervertidos" LGBT.

Jerusalém tem Parada Gay com recorde de público em 2016

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Pouco depois de seus comentários, houve relatos de que o rabino chefe da cidade de Ramat Gan havia chamado os homossexuais de "deficientes" e sugeriu "tratamento médico e psicológico" para resolver o problema deles.

Como era de se esperar, esses comentários foram recebidos com consternação pelas comunidades seculares e liberais de Israel. Um tanto mais surpreendente foram as críticas vindas de rabinos, líderes políticos e cidadãos ortodoxos modernos.

Naftali Bennett, ministro da Educação e presidente do partido sionista ortodoxo Lar Judaico, logo repudiou os comentários do rabino Levenstein, que não seriam "característicos do sionismo religioso", ele disse. "Você não pode insultar todo um setor da população e se esconder atrás da lei judaica."

Alguns colegas rabinos, ainda que a maioria deles concorde que a homossexualidade é proibida, expressaram desconforto em relação ao ódio do rabino Levenstein. Mas, acima de tudo, israelenses ortodoxos modernos, jovens e velhos, se sentiram constrangidos e repudiaram os comentários do rabino, declarando sua intenção de participar da parada gay.

É claro, nem todos os israelenses ortodoxos modernos tiveram a mesma opinião sobre os comentários ofensivos do rabino. A repentina condenação geral de suas declarações fez com que muitos de seus colegas e parte de seus fiéis corressem em sua defesa.

Mais de 300 rabinos assinaram uma carta em apoio a "cada rabino que expresse sua visão moral e da halaca" (a lei religiosa judaica). Contudo, mesmo essa carta de certo modo relutava em endossar os duros termos usados pelo rabino Levenstein.

É comum que analistas e ativistas interpretem erroneamente o fato de que pessoas como o rabino Levenstein tenham posições nas quais eles supostamente possam influenciar as instituições de Israel e educar seus futuros líderes. Essa atitude do rabino é vista como um sinal de que Israel está indo na direção de um futuro de mais autoridade clerical, talvez até uma "teocracia".

Mas o acesso de raiva do rabino Levenstein e a petição dos rabinos provaram o contrário: eles mostraram que o establishment rabínico está em crise. O Exército está instruindo seus soldados a serem tolerantes com a comunidade LGBT. O sistema legislativo está tomando decisões a favor de direitos iguais para casais LGBT.

E quando um rabino decide protestar e lembrar seus seguidores de que a lei judaica tem uma visão clara contra a homossexualidade, ele é retratado como um preconceituoso e recebe duras condenações de quase todos os meios.

O que o incidente dos "pervertidos" provou foi que nem mesmo as pessoas que supostamente compartilham da opinião dos rabinos, de que segundo a lei judaica a homossexualidade é uma abominação, estão dispostas a tolerar palavras de ódio.

Nem mesmo aqueles que, com razão, insistem que os rabinos nem sempre deveriam estar sujeitos às regras do politicamente correto aceitam tentativas de humilhar compatriotas israelenses. E por que deveriam tolerar? Os gays não são párias. São nossos vizinhos, nossos amigos, nossos colegas e nossa família. Minha família.

O rabino Levenstein calculou mal. Ele pensou estar se posicionando contra a permissividade sexual, mas acabou forçando a comunidade ortodoxa moderna a se posicionar contra a mesquinhez rabínica.

(Shmuel Rosner é editor de política do "The Jewish Journal", membro sênior do Jewish People Policy Institute e colunista convidado).

Tradutor: UOL

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