Opinião: O real terror do terrorismo atual é ser tão sem objetivo político

Kenan Malik*

Em Londres (Reino Unido)

  • Charly Triballeau/ AFP

    31.jul.2016 - Católicos e muçulmanos acompanham a missa organizada na catedral de Rouen, na França, para prestar homenagem ao sacerdote Jacques Hamel, degolado por terroristas em igreja

    31.jul.2016 - Católicos e muçulmanos acompanham a missa organizada na catedral de Rouen, na França, para prestar homenagem ao sacerdote Jacques Hamel, degolado por terroristas em igreja

Em 14 de julho, em Nice, na França, 85 pessoas morreram depois de ser esmagadas no calçadão por um homem que dirigia um caminhão. Quatro dias depois, um rapaz de 17 anos atacou com um machado passageiros de um trem perto de Würzburg, na Alemanha. Quatro dias depois disso, um homem de 18 anos matou a tiros nove pessoas em um shopping center em Munique.

Dois dias depois, um homem de 27 anos se explodiu na porta de um festival de música em Ansbach, no sul da Alemanha. No mesmo dia, um refugiado sírio de 21 anos matou uma mulher a facadas em Reutlingen, perto de Stuttgart, também na Alemanha.

Dali a dois dias, dois homens invadiram uma igreja em St.-Étienne-du-Rouvray, no norte da França, e degolaram um padre. Na semana passada, uma pessoa foi morta quando um homem com uma faca investiu no centro de Londres.

Como aconteceu o ataque com caminhão em Nice

  •  

Não admira que um artigo no mês passado na revista alemã "Der Spiegel" tenha perguntado: "O mundo enlouqueceu?" Parece que estamos vivendo uma era de violência psicopata e ódio político. "Muita gente simplesmente não entende mais o mundo", concluiu o artigo.

Não é que a Europa de repente tenha se tornado suscetível a ataques terroristas. O Banco de Dados do Terrorismo Global mostra que na Europa ocidental as mortes pelo terrorismo diminuíram desde o início dos anos 1990. O que mudou é o caráter do terrorismo.

Antes, grupos que empregavam o terrorismo, como o Exército Republicano Irlandês (IRA) ou a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), eram conduzidos por metas políticas específicas: uma Irlanda unida ou a Palestina independente. Havia geralmente uma relação entre a causa política da organização e suas atividades violentas.

Os jihadistas são diferentes. Eles têm pouco ou nenhum objetivo político explícito, mas são movidos por um ódio visceral do Ocidente. Alguns comentaristas afirmam que um ataque como o de Nice é uma "retroexplosão" da política externa ocidental, mas é difícil discernir qualquer relação racional entre a política ocidental no Iraque ou na Líbia e o assassinato de pessoas que passeiam na rua.

É claro que na mente dos perpetradores sempre há uma relação: eles estão travando uma guerra justa contra o Ocidente, que consideram um monstro quase mítico, que tudo envolve. É por isso que um ato jihadista raramente é ligado a uma exigência política, mas é mais visto como uma luta existencial para destruir o monstro, em que quase qualquer ato se torna aceitável.

Atirador dispara contra pessoas em Munique

  •  

Seja qual for nosso pensamento sobre as atividades de grupos como o IRA ou a OLP, essas atividades eram orientadas por certas normas e continham um núcleo racional. É a arbitrariedade da violência jihadista e seu desprezo pelos limites morais que a tornam aterrorizante.

O que define a violência jihadista hoje não é a raiva justificada ou a fúria política, mas um sentido de ódio vago, muitas vezes pessoal. Tal ódio não é unicamente islamista.

Quando um atirador de origem iraniana enlouqueceu em um shopping center de Munique no mês passado, imediatamente se supôs que fosse um terrorista islâmico. O homem, Ali David Sonboly, talvez fosse um terrorista, mas não era islâmico. Aparentemente, era um jovem com distúrbio mental que se orgulhava de fazer aniversário no mesmo dia que Hitler e obcecado por chacinas, em particular por Anders Breivik, o neonazista norueguês que matou 77 pessoas em 2011.

Sonboly não é o único assassino não islâmico impelido pelo ódio. Em junho, uma deputada britânica, Jo Cox, foi morta a tiros e facadas na cidade de Birstall, enquanto fazia campanha antes do referendo sobre a afiliação do Reino Unido à União Europeia. Quando lhe perguntaram seu nome no tribunal, o acusado do crime, Thomas Mair, respondeu: "Meu nome é morte aos traidores, liberdade para o Reino Unido".

Um ano antes, Dylann Roof, um americano de 21 anos obcecado por ideias da supremacia racial branca, matou a tiros nove afro-americanos que estavam em uma igreja em Charleston, Carolina do Sul. No mês passado, Micah Xavier Johnson, um afro-americano veterano do Exército, matou a tiros cinco policiais em Dallas, Texas, aparentemente em vingança pelos tiros dados pela polícia contra pessoas negras.

Vídeo flagra atirador disparando contra policiais em Dallas (EUA)

  •  

Nem o ataque em Londres nem o próximo de Stuttgart tiveram motivo político; ambos parecem mais os atos de indivíduos com transtornos mentais. Algumas pessoas, entretanto, recusam-se a acreditar que não foram ataques jihadistas, advertindo sombriamente sobre uma conspiração para ocultar a verdade. Isso pode ser irracional, mas também reflete o caráter mutável da violência pública.

No passado, a distinção entre violência política e ódio sociopata era relativamente clara. Não é mais. Hoje parece haver quase um contínuo entre violência ideológica, fúria desconexa e um certo grau de sociopatia ou doença mental. O que constitui violência ideológica se deteriorou; em vez dela, o ódio amorfo tornou-se uma feição persistente da vida pública.

Um motivo disso é a ruptura dos limites sociais e morais que antes atuavam como proteção contra tal comportamento. As sociedades ocidentais tornaram-se mais atomizadas socialmente e mais marcadas por políticas de identidade. A influência das instituições, da igreja aos sindicatos, que um dia ajudaram a sociabilizar os indivíduos e inculcar neles um senso de obrigação para com os outros declinou.

Enquanto identidades mais amplas se desgastaram, e as redes sociais tradicionais e fontes de autoridades enfraqueceram, a sensação de pertencimento das pessoas se tornou mais paroquial. Movimentos progressistas que davam aos problemas sociais uma forma política perderam a força. Em vez deles, os novos movimentos de oposição muitas vezes se baseiam na identidade religiosa ou étnica e assumem formas sectárias ou separatistas.

Autor de massacre na Noruega é flagrado durante ação

  •  

Há uma crescente desafeição por qualquer coisa da "corrente dominante", e uma percepção do mundo como fora de controle e conduzido por forças malignas. Tudo isto ajudou a incubar um sentimento de ódio sem canal de saída, minou os laços das pessoas com os outros seres humanos e enfraqueceu a distinção entre sociopatia e violência política.

É um mundo em que, como observou na semana passada a chanceler alemã, Angela Merkel, os "tabus da civilização" são muito facilmente rompidos. Não são tanto os atos de violência em si quanto a aparente fragilidade de nossas ordens sociais e morais que tornam o terrorismo contemporâneo tão ameaçador.

*Kenan Malik é escritor, professor universitário e estudioso das teorias contemporâneas de multiculturalismo, pluralismo e raça. Também é autor de "The Quest for a Moral Compass: A Global History of Ethics" ("A Busca Pela Bússola Moral: Uma História Global sobre a Ética", em tradução livre).

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos