A Revolução do Guarda-Chuva volta à cena, com novas demandas

Lian Yi Zheng*

Em Hong Kong

  • Anthony Wallace/AFP

    Os líderes da "Revolução do Guarda-Chuva" Joshua Wong (esq), 19, Nathan Law (centro), 23, e Alex Chow (dir), 25, dão entrevista ao deixar tribunal em Hong Kong

    Os líderes da "Revolução do Guarda-Chuva" Joshua Wong (esq), 19, Nathan Law (centro), 23, e Alex Chow (dir), 25, dão entrevista ao deixar tribunal em Hong Kong

Os jovens manifestantes de Hong Kong estão de volta com uma nova exigência: independência da China

Com a aproximação da eleição para o Conselho Legislativo no dia 4 de setembro o clima está ficando tenso, e os governos de Hong Kong e de Pequim estão observando tudo com vivo interesse.

Pela primeira vez, uma safra de novos candidatos que começaram sua carreira política durante o movimento pró-democracia Revolução do Guarda-Chuva, em 2014, está esperando trazer ao corpo legislativo sua luta para emancipar Hong Kong do controle cada vez mais autoritário de Pequim.

Os ativistas, muitos dos quais se encontram na faixa dos 20 anos, não acreditam mais nas promessas do princípio de "um país, dois sistemas" disposto na Lei Básica, a miniconstituição de Hong Kong desde que o Reino Unido devolveu o território à China em 1997.

Mesmo depois de bloquear importantes vias de acesso na cidade por 79 dias em 2014, eles não conseguiram obter nenhuma concessão para democratizar as regras pelas quais o chefe do governo de Hong Kong é nomeado e eleito. Eles concluíram a partir da experiência que será impossível uma democracia em Hong Kong enquanto o território permanecer sob soberania chinesa.

Esses "paraquedistas", como são carinhosamente chamados por apoiadores em homenagem à sua resistência à brutalidade policial, agora estão pedindo mais do que pediram durante a Revolução do Guarda-Chuva, e mais do que o campo pró-democrático dominante conhecido como pan-democratas.

Dois anos atrás, como manifestantes, eles invocaram a Lei Básica para exigir um verdadeiro sufrágio universal e um alto grau de autonomia para Hong Kong. Hoje eles pedem pelo direito de autodeterminação para Hong Kong ou mesmo uma independência completa da China em 2047, quando a Lei Básica deve expirar.

Edward Leung Tin-kei, provavelmente o paraquedista com a melhor chance de garantir uma cadeira no Conselho Legislativo, foi desqualificado. Ele é o eloquente líder do Hong Kong Indigenous, um partido que defende uma identidade nacional distinta para o povo de Hong Kong. Outro aspirante barrado é do novato Partido Nacional de Hong Kong, que defende que a cidade se separe da China e se torne uma nação por si só.

Desde que foi impedido de concorrer ao Conselho Legislativo, Edward Leung juntou forças com outro jovem ativista que teve a permissão de competir por uma cadeira: Baggio Leung Chung-hang, o líder pró-independência do grupo Youngspiration.

Outro importante partido novo é o Demosisto, que defende a realização de um referendo dentro de 10 anos para determinar o futuro político de Hong Kong depois de 2047. O Demosisto é liderado por Joshua Wong, 19, um pilar da Revolução do Guarda-Chuva que, embora tenha tido a experiência desses protestos, ainda é jovem demais para concorrer a qualquer eleição.

Alex Hofford/EFE
Guarda-chuvas são a marca registrada do movimento pró-democracia em Hong Kong

Independentemente de quantos paraquedistas recebam a permissão para concorrer ao Conselho Legislativo, o surgimento deles já mudou o cenário político de Hong Kong. Ele não é mais uma competição de duas vias entre o lado pró-establishment e o lado pan-democrático, cada um deles endossando alguma versão da ideologia do "um país" e, cada um de seu próprio jeito, considerando-se patrióticos em relação ao continente. A política de Hong Kong agora é uma questão de três vias, com o separatismo sendo a nova força a ser considerada.

Esse novo elemento cria alguns problemas para o lado da pró-democracia, obviamente. Rixas internas e conflitos ideológicos na forma de picuinhas —ambos entre os pan-democratas tradicionais e os paraquedistas, e em um menor grau entre os próprios paraquedistas —ameaçam desmobilizar os eleitores e enfraquecer as chances de candidatos individuais de oposição contra a competição pró-establishment. (Paradoxalmente, esse risco é mitigado pelos esforços do governo em evitar que alguns paraquedistas entrem na disputa).

O governo de Hong Kong, por sua vez, é extremamente impopular, mas possui muitos apoiadores influentes e recursos que pode usar para assustar detratores. Por exemplo, o Gabinete de Ligação do Governo Central Popular, o órgão de vigilância de Pequim em Hong Kong, há muito tempo é conhecido por manipular secretamente eleições locais.

Embora o Demosisto tenha recebido a autorização para apresentar um candidato para a eleição do Conselho Legislativo, ele vem enfrentando obstáculos administrativos inexplicáveis para se registrar como uma organização, o que significa que ele não pode abrir uma conta bancária, entre outras coisas. Na segunda-feira, o líder do grupo, Wong, foi sentenciado a 80 horas de serviço comunitário depois de ser condenado por reunião ilegal devido a seu envolvimento com a Revolução do Guarda-Chuva.

Publicações que costumavam ser conhecidas por suas visões independentes e liberais, como o "Ming Pao" e o "Hong Kong Economic Journal", recentemente veicularam editoriais denunciando o separatismo ou promovendo os interesses de segurança nacional da China acima de tudo. Ambos passaram por rodadas de mudanças gerenciais nos últimos anos e reduziram suas fileiras de comentaristas conhecidos por serem simpáticos ao movimento pró-democracia. (Minha própria coluna para o "Hong Kong Economic Journal", para o qual comecei a trabalhar em 1991, foi encerrada repentinamente no mês passado).

Tudo isso pode parecer necessário para o lado pró-Pequim, que está se fraturando em um grau sem precedentes, com poderosos grupos de interesse dentro dele brigando cada vez mais entre si abertamente. O apoio popular crescente para a outrora radical ideia de independência também é uma ameaça nova e crescente. Mesmo durante a Revolução do Guarda-Chuva, defender a independência teria sido suicídio político.

Mas cerca de 17% dos entrevistados em uma pesquisa recente da Universidade Chinesa de Hong Kong apoiavam a ideia, e entre a faixa etária de 15 a 24 anos, a porcentagem era de quase 40%. O governo de Hong Kong também deve ter se perturbado com evidências observadas sugerindo que mesmo entre cidadãos mais velhos o comprometimento com a ideologia de "um país" parece estar cedendo a favor de mais independência entre os "dois sistemas".

É claro, qualquer esperança de independência para Hong Kong deve ser temperada pelas reservas sobre sua viabilidade. Afinal, Hong Kong depende da China para a maior parte de seu abastecimento hídrico. Existem unidades militares chinesas o suficiente dentro e nas imediações de Hong Kong para reprimir qualquer movimento separatista que ameace virar uma revolta. E a recente desqualificação de candidatos pró-independência para a eleição do Conselho Legislativo sugere que as forças pró-establishment estão dispostas a recorrer a medidas extraordinárias contra eles em cada etapa do caminho.

Mas os separatistas se fortaleceram. Embora o governo tenha sufocado a Revolução do Guarda-Chuva sem ceder em nada, os manifestantes se reagruparam e hoje estão resistindo com um novo grito de guerra.

Os antigos pan-democratas costumavam dizer: "Lealdade por democracia", oferecendo a primeira em troca da segunda. Os jovens paraquedistas cansaram de esperar: "Sem democracia, sem lealdade".

*Lian Yi-zheng é comentarista politico e econômico em Hong Kong

Tradutor: UOL

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