Opinião: Expurgo na Turquia era necessário, mas Erdogan foi longe demais

Mustafa Akyol*

Em Istambul

  • Umit Bektas/Reuters

Mais de um mês se passou desde a tentativa de golpe do dia 15 de julho na Turquia. A maioria das pessoas aqui estão contentes por termos evitado um grande ataque contra nossa democracia, que poderia ter não somente dado início a um brutal regime militar, como talvez até mesmo a uma guerra civil. Por outro lado, muitas pessoas de fora da Turquia parecem mais preocupadas com as consequências do fracasso do golpe do que com o sangrento golpe em si, que deixou mais de 250 mortos.

O que parece realmente preocupar as pessoas, especialmente no Ocidente, é o expurgo que o presidente Recep Tayyip Erdogan e seu governo começaram após o motim. Os números são assombrosos: 80 mil servidores públicos foram suspensos de seus cargos, sendo mais de 2.000 deles juízes ou promotores. Enquanto isso, mais de 20 mil pessoas foram presas. O ministro da Justiça anunciou no começo deste mês que cerca de 38 mil detentos seriam soltos para liberar espaço nas prisões da Turquia.

Para alguns, esses números invocam lembranças de episódios obscuros do último século, como o infame Grande Expurgo de dissidentes feito por Stalin nos anos 1930 ou o uso do incêndio do Reichstag por parte de Hitler para reprimir os comunistas.

Mas a situação da Turquia é complicada demais para tais comparações históricas. Por exemplo, o maior rival político de Erdogan, o secularista Partido Republicano do Povo, ou CHP, concorda com o presidente que o Estado deve se livrar de pessoas que apoiaram a tentativa de golpe. Nos dias que se seguiram ao 15 de julho, o líder do CHP, Kemal Kilicdaroglu, visitou Erdogan na sede presidencial pela primeira vez. Os dois adversários até falaram em conjunto em um comício anti-golpe perante um público de milhões.

Em outras palavras, a trama de golpe que tentou rasgar nossa democracia em pedaços fortaleceu nossa determinação. Os principais grupos políticos da Turquia —islâmicos, secularistas, nacionalistas e curdos— agora estão unidos pela primeira vez em décadas, ainda que em torno de somente uma questão. Eles concordam que a trama não foi trabalho de militares isolados, mas sim de um culto islâmico que se infiltrou em instituições estatais importantes: o movimento liderado por Fethullah Gülen, um imã turco que vive na Pensilvânia desde 1999.

Para quem vê de fora, isso pode soar como mais uma das bizarras teorias da conspiração da Turquia. Mas aqueles que conhecem o país concordam que esta é de verdade. James F. Jeffrey, que foi o embaixador americano aqui entre 2008 e 2010, contou a um jornal turco que gülenistas, como são conhecidos os apoiadores de Gülen, tinham uma "infiltração extrema" dentro da polícia e do judiciário da Turquia. Jeffrey também disse que os membros do grupo "obedeciam ao movimento, não ao Estado", e que ele acreditava que era "muito provável" que os gülenistas no Exército tivessem liderado a tentativa de golpe."

As autoridades turcas dizem saber que foi mais do que provável. Elas dizem que alguns dos conspiradores confessaram ser membros do culto gülenista e estavam obedecendo a ordens, e que mensagens decifradas provariam suas ligações. O chefe das Forças Armadas da Turquia, que foi detido por amotinados na noite de 15 de julho, afirmou em depoimento que os conspiradores queriam fazer com que ele falasse com "nosso líder, Gülen".

O grande expurgo da Turquia não tem a ver com punir todos os dissidentes, mas sim com desmantelar essa perigosa presença dentro do Estado. O porta-voz de Erdogan, Ibrahim Kalin, comparou a situação com a remoção de centenas de milhares de servidores públicos comunistas do governo alemão depois da queda do Muro de Berlim. "Qualquer Estado que enfrente uma insurreição por dentro faria o mesmo", escreveu o ex-primeiro-ministro da Suécia, Carl Bildt.

Mas mesmo que um expurgo seja necessário, é possível que este tenha ido longe demais. O movimento de Gülen é compartimentado. Fora suas aspirações políticas ilegais, o grupo também opera uma série de escolas legais, entidades de caridade e organizações da mídia. Simplesmente doar dinheiro ou trabalhar para um deles não deveria ser motivo para prisão, o que preocupantemente parece ser o caso de alguns dos detidos.

Por exemplo, o governo emitiu mandados de prisão para mais de 40 jornalistas, alguns deles pensadores famosos, simplesmente por trabalharem ou escreverem para um jornal pró-Gülen. Mas os jornalistas alegam, com razão, ser meros críticos do governo que não estavam a par das atividades ilegais do grupo. (Como o próprio Erdogan estava em determinado momento. Seu partido se aliou no passado com o movimento de Gülen, até que se desentenderam em 2013. Desde então ele pediu desculpas por não ter reconhecido as atividades ilegais do grupo.)

Alguns dos apoiadores mais fervorosos de Erdogan não só ignoram tais nuances, como também estão ansiosos para descobrir um "gülenista enrustido" por trás de cada crítico. Para conseguir progressos, Erdogan, que deu alguns sinais positivos para a reconciliação nacional desde o golpe, precisa por um freio em seus apoiadores, que parecem inclinados a escalar esse expurgo para uma insana caça às bruxas de uma ditadura paranoica. Ele também deveria continuar trabalhando junto com a oposição principal, que entende a gravidade do problema levantado pelos gülenistas mas alerta com razão sobre os excessos da repressão.

Enquanto isso, o Ocidente precisa entender que isto não tem a ver somente com as tendências autoritárias de Erdogan. Isso tem a ver com uma ameaça real à Turquia, uma que se manifestou de forma letal no dia 15 de julho. Além disso, a Turquia está ainda mais traumatizada esses dias pelos repetidos ataques terroristas perpetrados pelo Estado Islâmico e por militantes curdos. Para conseguir lidar com essas crises dentro dos limites da democracia, a Turquia precisa não de críticos hostis, mas de amigos críticos. O Ocidente deveria ampliar essa amizade, entendendo primeiro aquilo pelo qual a Turquia realmente está passando, para só então oferecer conselhos sobre como defender direitos humanos e o estado de direito.

*Mustafa Akyol é autor de "Islam Without Extremes: A Muslim Case for Liberty"
 

Tradutor: UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos