Análise: Sauditas têm papel tanto de incendiários quanto de bombeiros na relação com extremismo

Scott Shane

Em Washington (EUA)

  • Sergey Ponomarev/The New York Times

Hillary Clinton e Donald Trump não concordam em muita coisa, mas a Arábia Saudita pode ser uma exceção. Ela condenou saudita às "escolas e mesquitas radicais de todo o mundo que colocam jovens demais no caminho do extremismo". Ele chamou os sauditas de "os maiores financiadores do terrorismo do mundo".

O primeiro diplomata americano a servir como emissário às comunidades muçulmanas ao redor do mundo visitou 80 países e concluiu que a influência saudita estava destruindo as tradições islâmicas tolerantes. "Se os sauditas não cessarem o que estão fazendo", escreveu no ano passado o diplomata, Farah Pandith, "é preciso que haja consequências diplomáticas, culturais e econômicas".

E dificilmente passa uma semana sem que um comentarista na televisão ou colunista de jornal culpe a Arábia Saudita pela violência jihadista. Na HBO, Bill Maher chamou os ensinamentos sauditas de "medievais", adicionando um palavrão. No jornal "The Washington Post", Fareed Zakaria escreve que os sauditas "criaram um monstro no mundo do Islã".

A ideia se transformou em um lugar-comum: a exportação pela Arábia Saudita da forma rígida, fanática, patriarcal e fundamentalista do Islã, conhecida como wahabismo, alimenta o extremismo global e contribui para o terrorismo. À medida que o Estado Islâmico projeta seus ameaçadores chamados à violência no Ocidente, dirigindo ou inspirando ataques terroristas em um país após o outro, o velho debate sobre a influência saudita sobre o Islã ganhou nova relevância.

Entenda o conflito entre os sunitas da Arábia Saudita e os xiitas do Irã

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O mundo atual está mais dividido, perigoso e violento por causa do efeito cumulativo de cinco décadas de proselitismo financiamento pelo petróleo a partir do coração histórico do mundo muçulmano? Ou a Arábia Saudita, que com frequência apoiou autocratas pró-Ocidente em vez de islamitas, é apenas um bode expiatório conveniente para o extremismo e terrorismo, que apresentam muitas causas complexas, as próprias ações dos Estados Unidos entre elas?

Essas perguntas são profundamente contenciosas, em parte devido aos impulsos contraditórios do Estado saudita.

No reino do Islã extremista, os sauditas são "tanto incendiários quanto bombeiros", disse William McCants, um estudioso da Instituição Brookings. "Eles promovem uma forma muito tóxica de Islã que traça uma separação muito rígida entre os verdadeiros crentes e todos os demais, muçulmanos e não muçulmanos", ele disse, fornecendo alimento ideológico aos jihadistas violentos.

Mas ao mesmo tempo, "eles são nossos parceiros em contraterrorismo", disse McCants, um dentre três dúzias de acadêmicos, autoridades de governo e especialistas em Islã de múltiplos países entrevistados para este artigo.

Os líderes sauditas buscam boas relações com o Ocidente e veem a violência jihadista como uma ameaça ao seu governo, especialmente agora que o Estado Islâmico está realizando ataques ao reino, 25 nos últimos oito meses, segundo o governo. Mas também são movidos por sua rivalidade com o Irã, e dependem da legitimidade de um establishment religioso dedicado a um conjunto de crenças reacionárias. Essas metas conflitantes podem se desdobrar de uma forma desconcertantemente inconsistente.

Thomas Hegghammer, um especialista norueguês em terrorismo que já prestou consultoria ao governo americano, disse que o efeito mais importante do proselitismo saudita pode ter sido retardar a evolução do Islã, bloqueando sua acomodação natural a um mundo diverso e globalizado. "Se havia uma possibilidade de ocorrer uma reforma islâmica no século 20, os sauditas provavelmente a impediram ao estimular o literalismo", ele disse.

O alcance dos sauditas é impressionante, tocando quase todo país que possui uma população islâmica. O apoio vem do governo saudita; a família real; as caridades sauditas; e organizações patrocinadas pelos sauditas, como a Liga Mundial Muçulmana, a Assembleia Mundial da Juventude Islâmica e a Organização Internacional de Caridade Islâmica, fornecendo o hardware de edificações impressionantes e o software de pregação e ensino.

Mas como exatamente a influência saudita ocorre depende muito das condições locais.

Em partes da África e do Sudeste Asiático, por exemplo, os ensinamentos sauditas mudaram a cultura religiosa em uma direção acentuadamente conservadora, mais visivelmente na decisão de mais mulheres cobrirem seus cabelos ou homens deixarem a barba crescer. Entre as comunidades muçulmanas imigrantes na Europa, a influência saudita parece ser apenas mais um fator estimulando a radicalização, e não o mais importante. Em países divididos como o Paquistão e a Nigéria, a enxurrada de dinheiro saudita, e a ideologia que promove, exacerba as divisões em torno da religião de uma forma que regularmente prova ser letal.

E para uma pequena minoria em muitos países, a versão saudita excludente do Islã sunita, que denigre judeus e cristãos, assim como os muçulmanos das tradições xiita, sufi e outros, pode ter deixado algumas pessoas vulneráveis à atração da Al Qaeda, do Estado Islâmico e outros grupos jihadistas violentos. "Há um limite de desumanização do outro a qual alguém pode ser exposto, assim como exposto na forma da palavra de Deus, sem se tornar suscetível ao recrutamento", disse David Andrew Weinberg, um membro sênior da Fundação para a Defesa das Democracias, em Washington, que monitora a influência saudita.

A Prova A pode ser a própria Arábia Saudita, que produziu não apenas  Osama Bin Laden, mas também 15 dos 19 sequestradores do 11 de Setembro; enviou mais homens-bomba do que qualquer outro país ao Iraque após a invasão de 2003; e forneceu mais combatentes estrangeiros ao Estado Islâmico, 2.500, do que qualquer outro país fora a Tunísia.

Mehmet Gormez, um clérigo islâmico sênior na Turquia, disse que quando se encontrou com clérigos sauditas em Riad, em janeiro, as autoridades sauditas tinham executado 47 pessoas em um único dia sob a acusação de terrorismo, 45 delas cidadãos sauditas. "Eu disse: 'Essas pessoas estudaram o Islã por 10 ou 15 anos em seu país. Há algum problema no seu sistema educacional?'" disse Gormez em uma entrevista.

Ele argumentou que os ensinamentos wahabistas minam o pluralismo, a tolerância e a abertura à ciência e o aprendizado que por muito tempo caracterizaram o Islã. "Infelizmente", ele disse, as mudanças ocorreram "em quase todo o mundo islâmico".

Pequenos detalhes da prática saudita podem causar problemas imensos. Por pelo menos duas décadas, o reino distribuiu uma tradução em inglês do Alcorão que na primeira sura, ou capítulo, adiciona referências entre parênteses aos judeus e cristãos em relação a Alá: "não à dos incursos em Tua ira (como os judeus), nem à dos desencaminhados (como os cristãos)". Seyyed Hossein Nasr, um professor de estudos islâmicos da Universidade George Washington e editor-chefe do novo "Study Quran" (Alcorão para Estudo), uma versão comentada em inglês, disse que as adições são "uma completa heresia, sem nenhuma base na tradição islâmica".

Igualmente, muitas autoridades americanas que trabalharam em contraterrorismo e extremismo, formaram um ponto de vista sombrio a respeito do efeito saudita, mesmo que, diante da sensibilidade do relacionamento, detestem com frequência discuti-lo publicamente.

Mas alguns acadêmicos em Islã e extremismo, incluindo especialistas em radicalização em muitos países, reagem contra a noção de que a Arábia Saudita é a principal responsável pela atual onda de extremismo e violência jihadista. Eles apontam para múltiplas fontes para a ascensão e disseminação do terrorismo islâmico, incluindo governos seculares repressivos no Oriente Médio, injustiças e divisões locais, o sequestro da internet para propaganda terrorista, as intervenções americanas no mundo muçulmano, da guerra contra os soviéticos no Afeganistão até a invasão ao Iraque.

"Os americanos gostam de culpar alguém, seja uma pessoa, partido político ou país", disse Robert S. Ford, um ex-embaixador americano na Síria e Argélia. "Mas é muito mais complicado que isso. Eu teria cuidado em culpar os sauditas."

Sejam quais forem os efeitos globais do proselitismo saudita, ele está sob maior escrutínio do que nunca, dentro e fora do reino. Os esforços dos líderes sauditas de reforma ideológica, abrangendo livros didáticos e pregações, representam um reconhecimento tácito de que suas exportações religiosas às vezes foram um tiro que saiu pela culatra. E o reino intensificou uma agressiva campanha de relações públicas no Ocidente, contratando profissionais americanos para rebaterem as reportagens críticas na mídia de notícias e elaborar uma imagem reformista para os líderes sauditas.

Mas nem os publicitários e nem seus clientes podem renunciar à forma de Islã que serve de base para o Estado saudita, e velhos hábitos às vezes são difíceis de subjugar. Um proeminente clérigo saudita, Saab bin Nasser al-Shethri, foi afastado de uma posição de liderança pelo rei anterior, Abdullah, por condenar a coeducação. O rei Salman devolveu Al-Shethri ao cargo no ano passado, não muito tempo depois de o clérigo se juntar ao coro de vozes oficiais criticando o Estado Islâmico.

Mas o argumento de Al-Shethri para condenar o Estado Islâmico sugere a dificuldade da mudança. O grupo era, segundo ele, "mais infiel que os judeus e cristãos".

Hala Droubi, em Dubai (Emirados Árabes Unidos), contribuiu com reportagem.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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