Opinião: Como um fascista russo está se intrometendo nas eleições dos EUA

Timothy Snyder*

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    Ivan Ilyin

    Ivan Ilyin

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, uma vez descreveu o colapso da União Soviética como uma "catástrofe geopolítica". Mas o pensador político que hoje tem a maior influência sobre a Rússia de Putin não é Vladimir Lênin, fundador do sistema comunista, mas sim Ivan Ilyin, um profeta do fascismo russo.

O brilhante filósofo político já morreu há mais de 60 anos, mas suas ideias ganharam nova vida na Rússia pós-soviética. Depois de 1991, seus livros foram republicados com grandes tiragens. O presidente Putin começou a citá-lo em seu discurso anual para a Assembleia Federal, o equivalente russo do discurso do Estado da União.

Para completar a reabilitação, Putin se certificou de que o corpo de Ilyin fosse repatriado da Suíça, e que Michigan devolvesse seus arquivos. O presidente russo já foi visto colocando flores no túmulo de Ilyin em Moscou. E Putin não é o único discípulo de Ilyin entre a elite do Kremlin.

Vladislav Y. Surkov, o arquipropagandista de Moscou, também vê Ilyin como uma autoridade. O primeiro-ministro Dmitri A. Medvedev, que foi o presidente entre 2008 e 2012, recomenda Ilyin a estudantes russos. Ilyin figura nos discursos do ministro das Relações Exteriores, do presidente do tribunal constitucional e do patriarca da Igreja Ortodoxa.

E quais são as ideias que inspiram tanta estima?

Ilyin acreditava que a individualidade era o mal. Para ele, a "diversidade de seres humanos" demonstrava o fracasso de Deus em completar o trabalho da criação, e que portanto era essencialmente satânico. Por consequência, a classe média, os partidos políticos e a sociedade civil também seriam o mal, porque encorajavam o desenvolvimento de personalidades para além da identidade única da comunidade nacional.

De acordo com Ilyin, o propósito da política é superar a individualidade, e estabelecer uma "totalidade viva" da nação. Ao escrever nos anos 1920 e 1930 após sua expulsão da União Soviética, quando ele se tornou um ideólogo exilado proeminente dos Russos Brancos anticomunistas, Ilyin olhava para Mussolini e Hitler como líderes exemplares que estavam salvando a Europa ao dissolverem a democracia. Seu artigo de 1927 "Sobre o Fascismo Russo" foi dedicado a "Meus irmãos brancos, os fascistas". Posteriormente, nos anos 1940 e 1950, ele forneceu as linhas gerais para a constituição de uma Rússia Sagrada fascista governada por um "ditador nacional" que se "inspiraria no espírito da totalidade."

O líder seria responsável por todas as funções do governo em um Estado completamente centralizado. As eleições seriam realizadas, com votação aberta e cédulas assinadas, puramente como um ritual de apoio ao líder. A contagem dos votos era irrelevante: "Precisamos rejeitar a fé cega no número de votos e em sua importância política."

À luz da reabilitação de Ilyin como o principal ideólogo da Rússia, a manipulação das eleições de Moscou deveria ser vista não tanto como um fracasso em implementar a democracia, mas sim como uma subversão do próprio conceito de democracia. Nem as eleições parlamentares de dezembro de 2011, nem as eleições presidenciais de março de 2012 produziram uma maioria para o partido de Putin ou para Putin, pessoalmente. Portanto, votos foram acrescentados para produzir um resultado decisivo.

Os russos que protestavam contra as eleições marcadas eram vistos como inimigos da nação. Organizações não governamentais foram forçadas a se registrar como "agentes estrangeiros". Putin até alegou que Hillary Clinton, na época secretária de Estado, "deu o sinal" para a oposição russa sair às ruas. A noção de que defender a democracia significava trair a Rússia era perfeitamente consistente com a visão de Ilyin.

Desde então, Putin tem se baseado na autoridade de Ilyin em cada ponto de virada na política russa, desde sua volta ao poder em 2012 até a decisão de intervir na Ucrânia em 2013 e a anexação do território ucraniano em 2014. Na última primavera, ele alegou que os serviços de inteligência americanos interviriam nas eleições parlamentares russas realizadas no último fim de semana e nas eleições presidenciais da Rússia em 2018. Não é relevante a questão de se alguém no Kremlin acredita de fato nisso. Essas alegações de uma interferência constante dos EUA têm a intenção de mostrar que o processo democrático não é nada mais do que um jogo geopolítico.

Enquanto líderes russos trabalham conscientemente para esvaziar a ideia da democracia em seu próprio país, eles também procuram desacreditar a democracia em outros países, inclusive nos Estados Unidos, este ano. As intervenções da Rússia em nossas eleições presidenciais não são somente o apoio oportunista a um candidato preferido, Donald Trump, que apoia a política externa russa. São também a projeção lógica da nova ideologia: a democracia não é um meio de se mudar a liderança em casa, mas um meio de enfraquecer os inimigos em outros países. Se vemos a política como Ilyin via, a ritualização das eleições na Rússia se torna uma virtude, mais do que um vício. A degradação da democracia em todo o mundo seria um serviço à humanidade.

Se a democracia é meramente um convite à influência estrangeira, então invadir o e-mail de um partido político estrangeiro seria a coisa mais natural do mundo. Se a sociedade civil não é nada mais que a abertura decadente de uma sociedade em apodrecimento para a influência estrangeira, então trolar constantemente a mídia é obviamente algo apropriado. Se, como Ilyin escreveu, a "compreensão aritmética da política" é algo prejudicial, então a interferência digital nas eleições de outros países seria a coisa certa.

Durante a última década, a Rússia tem patrocinado extremistas de direita como "observadores das eleições" --mais recentemente, nos ridículos referendos na Crimeia e na região do Donbas na Ucrânia-- para desacreditar tanto as eleições quanto sua observação. Como a democracia é uma farsa, como Ilyin acreditava, então é bom e certo imitar sua linguagem e procedimentos para desacreditá-las. Vale notar que a campanha de Trump agora imitou essa mesma prática, fornecendo tanto seus próprios "observadores" particulares quanto a conclusão antecipada da fraude que eles encontrarão.

A técnica de se sabotar a democracia em outros países é para se gerar dúvida onde havia certeza. Se os procedimentos democráticos começarem a parecer caóticos, então as ideias democráticas parecerão questionáveis também. E assim os Estados Unidos se tornariam mais como a Rússia, que é a ideia geral. Se Trump vencer, a Rússia vence. Mas se Trump perder e as pessoas duvidarem do resultado, a Rússia também vence.

Pelo ponto de vista de Moscou, é mais fácil derrubar a democracia em todos os lugares do que realizar eleições livres e justas em casa. A Rússia parecerá mais forte se outros países seguirem seu caminho de desenvolvimento na direção de um cinismo a respeito da democracia que permita o crescimento do autoritarismo. Então é melhor que nos acostumemos com a interferência e tomemos precauções sensatas. Não faz mais sentido realizar eleições e regular o financiamento de campanhas se tais questões não forem de interesse a potências estrangeiras hostis.

Os americanos têm muitas outras razões para reformar o processo democrático, mas proteger sua integridade deveria ser prioridade. Cédulas de papel para cada eleitor e o financiamento público de campanhas, para dar dois exemplos, fariam sentido tanto para cidadãos quanto para o sistema eleitoral. Uma democracia mais simples seria mais segura, e mais exemplar.

* Timothy Snyder, professor de História em Yale, é autor de ""Black Earth: The Holocaust as History and Warning"

Tradutor: UOL

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