Opinião: Não derrotem o Estado Islâmico no Iraque, pelo menos por enquanto

Ramzy Mardini*

Em Irbil (Iraque)

  • Reuters

Uma ofensiva prematura iraquiana, apoiada pelos Estados Unidos, para retomar Mossul dos militantes corre o risco de provocar um conflito sectário ainda mais profundo

Uma ação militar para retomada de Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, e o restante da província de Nineveh do Estado Islâmico deverá ocorrer em breve. Infelizmente, mesmo se a campanha for bem-sucedida, a libertação de Mossul não estabilizará o país. Nem a conquista resolverá as condições que originalmente alimentaram a insurreição extremista.

Em vez disso, o legado do Estado Islâmico perdurará. Sua ascensão e queda alteraram a política e a sociedade do país de formas irreversíveis, que podem levar a futuros ciclos de conflito. Ao longo de toda a história, guerras vitoriosas com frequência forjaram identidades nacionais, expandiram o poder do Estado e ajudaram a centralizar a autoridade política. Mas a guerra contra o Estado Islâmico está tendo o efeito oposto: fragmentação.

Em partes do Iraque que visitei e foram retomadas dos militantes, sinais de qualquer autoridade central são inexistentes. Em vez disso, o que surgiu do conflito é uma colcha de retalhos complexa de milícias étnicas, tribais e religiosas que reivindicam domínio sobre territórios em particular.

Esse foi o caso nas partes libertadas de Sinjar, onde o massacre dos yazidis, uma minoria religiosa, perpetrado pelo Estado Islâmico com colaboração de sunitas locais, levou os Estados Unidos a intervirem militarmente em 2014. Agora, a comunidade yazidi restante está dividida e militarizada, com cada milícia apoiada por uma facção curda diferente, e cada facção curda apoiada por sua vez por um poder regional diferente.

Na província de Nineveh, o tecido social que há muito refletia a coexistência de diversos grupos parece permanentemente danificado.

"O Estado Islâmico mudou tudo", me disse um homem yazidi. "Nunca mais confiaremos nos árabes."

Eu ouvi o mesmo de membros de outras minorias. Cada um agora exige autonomia política. Na região norte do Iraque, a guerra encorajou a cristalização das aspirações nacionalistas curdas em uma exigência urgente da criação de um Estado. É difícil encontrar alguém que sinta pertencer à nação iraquiana.

Em parte, o Estado Islâmico conseguiu se expandir tão rapidamente em 2014 por fornecer uma oportunidade para grupos promoverem velhos acertos de contas. Em nenhum outro momento o sectarismo no Iraque se viu tão endurecido, com comunidades até mesmo da mesma seita fragmentadas.

As tribos sunitas se fragmentaram em um nível local, até mesmo de vilarejo, com alguns tomando o poder ao se juntarem ao Estado Islâmico, enquanto outras fugiram ou resistiram. Na província de Anbar, por exemplo, mais de 100 homens agora alegam ser o xeque, ou líder, de uma tribo.

A ordem do governo em Bagdá não se aplica em grande parte do Iraque. A fraca autoridade do governo forçou o primeiro-ministro, Haider al-Abadi, a depender de dezenas de milícias xiitas para escorar a segurança nacional. Abadi tentou integrar essas forças para colocá-las sob seu controle, mas o processo criou estruturas de comando paralelas dentro do aparato de segurança.

Na prática, as milícias respondem a uma rede obscura de patrocínio e lealdades dividas entre diferentes partidos políticos, clérigos e apoiadores externos. É difícil dizer onde as milícias terminam e o Estado começa.

A experiência americana no Iraque tem sido atormentada por uma série de falsas suposições, confiança equivocada e falta de antevisão. Na mais recente manifestação, desde 2014, a Casa Branca tem priorizado de forma errada o míope objetivo militar de curto prazo de derrotar o Estado Islâmico.

A campanha para retomada de Mossul não é um simples caso do Exército iraquiano contra o Estado Islâmico; em vez disso, uma série de grupos armados, cada um movido por seus próprios interesses paroquiais, guerrearão ali. Isso por si só deveria dar aos autores de políticas americanos um motivo para pausa, devido à ameaça que essa situação representa para a reconstrução e a estabilidade pós-conflito.

Para compensar esse problema, os Estados Unidos esperam intermediar acordos preliminares entre os grupos combatentes na campanha de Mossul. Até o momento, esses esforços tiveram pouco resultado. Por exemplo, não há consenso a respeito de como determinar quais civis se juntaram ao Estado Islâmico por vontade própria, quais cooperaram na proteção ou quais não estiveram envolvidos. Não há protocolo para prevenir atos de desforra entre comunidades, assim como não há garantia de que as milícias que os Estados Unidos querem que sejam excluídas da campanha de fato fiquem de fora.

Na ausência de qualquer cadeia de comando eficaz, parece improvável que as regras de engajamento serão seguidas. Sem ninguém para assegurar o cumprimento e a prestação de contas, grande é a probabilidade de as partes burlarem os compromissos assumidos. Uma das poucas crenças que os iraquianos de todos os lados do racha sectário compartilham é a de que os Estados Unidos em breve partirão totalmente de seu país.

A grande diversidade da população de Nineveh a torna mais vulnerável do que a de Anbar, que é principalmente árabe sunita, a se dividir de acordo com linhas étnicas e religiosas. O único interesse coletivo das milícias (a derrota do Estado Islâmico) acabará quando a província for retomada. Para muitos, combater o Estado Islâmico não se trata de salvar a nação ou o Estado, mas sim uma oportunidade de colher os espólios políticos da conquista.

Entre os grupos competindo pelas recompensas estão: milícias tribais árabes sunitas procurando expandir o controle sobre território antes das próximas eleições provinciais; milícias xiitas turcomanas visando eliminar os turcomanos sunitas da área; milícias árabes xiitas buscando ter maior voz no governo; e os grupos curdos que desejam consolidar o controle sobre os territórios disputados. Por trás de tudo isso há um primeiro-ministro que precisa da vitória para fortalecer sua fraca posição em Bagdá. E por trás dele estão a Turquia e o Irã, ambos manobrando seus representantes armados para ampliar sua influência.

Diante dessas forças, o governo provincial de Nineveh, que está no exílio há mais de dois anos, não tem capacidade de restabelecer sua autoridade. Um novo governador foi nomeado no ano passado, mas ele não comanda nem um partido político e nem uma coalizão sólida de aliados.

Os autores de políticas americanos seriam tolos em esperar poder controlar um ambiente tão complexo de interesses conflitantes. Nem deveriam depender do desarmamento desses grupos armados após a derrota do Estado Islâmico. Diante desse quadro nada promissor, o presidente Obama deveria ser sábio e adiar a campanha militar. Qualquer vitória apressada provavelmente seria uma vitória de Pirro (inútil), fragmentando ainda mais o país assolado pela guerra civil e o levando a uma nova fase de política sectária armada.

Em vez disso, Obama deveria dedicar o restante de seu tempo no governo para pressionar o governo Abadi a formar uma força militar única sob medida para libertar o restante de Nineveh. Esse Exército refletiria a demografia e as tribos da província e integraria de forma eficaz os grupos milicianos sob um comando nacional unificado.

Obama ajudou a degradar o Estado Islâmico no Iraque. Mas a derrota dele não deve vir ao custo de uma nova guerra civil, talvez ainda mais mortífera.

*Ramzy Mardini é um membro não residente do Centro Rafik Hariri para o Oriente Médio do Conselho Atlântico

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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