Opinião: Racismo na educação ameaça sonho de Mandela na África do Sul

Panashe Chigumadzi*

Em Johannesburgo (África do Sul)

  • Marco Longari/ AFP

    Estudantes da Universidade Witwatersrand fazem protesto no campus em Johannesburgo

    Estudantes da Universidade Witwatersrand fazem protesto no campus em Johannesburgo

Eu era muito jovem --apenas a idade necessária para ter uma cabeça cheia de cabelos por dois anos-- para lembrar do cartaz da campanha eleitoral do Congresso Nacional Africano em 1994, que mostrava Nelson Mandela como um avô sorridente, cercado por um grupo de crianças de todas as raças. Essa foto de Tata Madiba --o apelido carinhoso que os sul-africanos usam para Mandela-- era apropriada para a Nação Arco-Íris que ele esperava presidir. O cérebro por trás da iniciativa eleitoral foi o consultor da campanha de Clinton Stan Greenberg, que aconselhou o CNA a abandonar sua imagem de movimento de libertação e adotar um novo papel como "agente de mudança".

A promessa contida no sorriso de Tata era que a Nação Arco-Íris ofereceria um futuro mais brilhante para as crianças sul-africanas, a geração que ficou conhecida como "bornfrees" [nascidos livres]. Para muitos negros "bornfrees" e seus pais, o principal caminho para essa promessa era matricular-se em escolas privadas e antigas escolas "Modelo C" (como eram conhecidas historicamente as escolas públicas brancas). Esse processo de integração já havia começado nos dias agônicos do apartheid, mas se acelerou quando a Nação Arco-Íris foi inaugurada.

Hoje, 22 anos depois, aqueles mesmos "bornfrees" se tornaram os maiores críticos da nação de Mandela. As críticas não são apenas palavras; elas deram origem ao movimento "quedista", que começou há cerca de dois anos com a campanha #RhodesMustFall [Rhodes tem de cair] para expurgar campi historicamente brancos como as Universidades da Cidade do Cabo e de Witwatersrand de símbolos coloniais e para modernizar os currículos e diversificar os funcionários. Desde então, o movimento ampliou seu foco para matrículas e financiamento. A atual onda de protestos #FeesMustFall [Mensalidades têm de cair], conduzida pela exigência dos estudantes negros de uma "educação de qualidade, livre e descolonizada", causou o fechamento da maioria das universidades do país durante mais de duas semanas.

Não é por acaso que a educação se tornou tal fonte de tensão. A lógica do acordo negociado que produziu a Nação Arco-Íris pode ser resumida como "adicione negros e mexa". É por isso que os pais negros fazem o possível para garantir que seus filhos tenham acesso a escolas tradicionalmente brancas.

Perto do final de 1997, um ano antes de eu ir para a "grande escola", perguntei a minha mãe: "Mama, na grande escola no ano que vem eles poderão me chamar de Gloria?" Gloria é meu segundo nome. Minha mãe olhou para mim, um pouco confusa, e disse simplesmente: "Não. Seu nome é Panashe, e eles vão chamá-la assim".

Sem palavras para explicar por que eu preferia Gloria, segui com o nome que tinha sido tão zombado por meus professores brancos em minha pré-escola predominantemente branca: em vez da pronúncia simples (pa-na-chi), eu escutava tudo, de Espinafre a Espinhase ou Panachê. Aos 6 anos, eu já tinha começado a dança que muito negros passaram a conhecer muito bem em nossa África do Sul "pós-apartheid", onde os brancos controlam as instituições econômicas e sociais, apesar do governo de maioria negra. Nossos nomes são apenas mais uma coisa com a qual temos de lutar enquanto tentamos abrir caminho em lugares que na verdade não aceitam nossa identidade.

O Colégio Secundário para Meninas de Pretória ganhou manchetes recentemente quando estudantes negras protestaram contra os comentários irônicos de seus professores sobre seu cabelo "descuidado". Sob o hashtag #StopRacismatPretoriaGirlsHigh [Parem o racismo no Colégio de Meninas de Pretória], elas exigiram o direito de usar seu cabelo em estilos naturais, como o afro.

O cabelo é, sem dúvida, um foco de regras em todas as escolas, independentemente da raça. Mas há uma dimensão adicional, racializada, nessas regras. O modo como os regulamentos sobre cabelos são escritos em geral --a aluna terá "cabelo que cai" e "cabelo arrumado"-- supõe que a estudante é uma criança branca. O cabelo que não condiz com essas diretrizes naturalmente deve ser forçado a tanto.

No meu caso, eu obedecia geralmente a esses códigos capilares antinegros por meio de um sortimento de alisadores, tranças e tramados. Na época, isso não parecia especialmente coercitivo porque eu aceitava a visão de cabelo ideal da sociedade sul-africana como "quanto mais liso, melhor". No mundo corporativo, "cabelo profissional" é o código para o estilo "arrumado", alisado e entrelaçado, contra os "rudes" cortes afro e as trancinhas "dreadlocks".

As políticas atuais contra o cabelo "black" têm um precedente no infame "teste do lápis" na África do Sul do apartheid. Essa era uma ferramenta importante na aplicação da Lei de Registro da População de 1950, que classificava as pessoas de acordo com "características raciais" em quatro grandes grupos: branco, negro, "moreno" ["colored"] ou indiano. Além de outras medidas subjetivas, se o cabelo de uma pessoa segurasse um lápis ou o deixasse cair ajudaria a situar essa pessoa na hierarquia racial do apartheid. Se você tivesse "cabelo branco" ou "cabelo negro" podia determinar o acesso a todo tipo de recursos e oportunidades.

Mais de 60 anos depois dessa lei, as escolas da África do Sul ainda usam uma forma do teste do lápis para classificar o cabelo negro natural como desarrumado ou exótico, e portanto excluir das oportunidades acadêmicas as crianças negras que não se adequem. Houve numerosos relatos de estudantes negros que foram barrados em exames, suspensos e até expulsos por causa de seu cabelo "desarrumado". Entre os manifestantes no Colégio Secundário de Meninas de Pretória, uma aluna foi obrigada a trocar de escola três vezes por causa de seu corte afro.

Os protestos na escola se inspiraram em parte em campanhas de repercussão internacional como #BlackLivesMatter [Vidas negras importam], #RhodesMustFall e #FeesMustFall. Juntamente com o movimento "quedista", os alunos de universidades tradicionalmente negras como a Universidade de Limpopo e escolas como a Philippi, na Cidade do Cabo, há muito protestam contra as condições inferiores de suas instituições. Além disso, houve uma onda constante de protestos sobre a falta de serviços básicos como água e saneamento nos bairros negros. Diante dessas demonstrações, o público sul-africano aprendeu a ignorá-las e tratá-las como coisa de "baderneiros".

É somente quando a perturbação espirra sobre instituições historicamente brancas que alguém parece prestar atenção política seriamente. Em outras palavras, o protesto negro só tem um impacto se ele ousar desafiar a mitologia da integração da Nação Arco-Íris.

Foi somente em meu último ano em uma escola privada de maioria branca que compreendi a natureza do experimento social do qual eu fizera parte. Em meus 12 anos de escolarização, "Things Fall Apart" [As coisas desmoronam], de Chinua Achebe, foi o primeiro livro de um escritor negro que me mandaram ler. Como outros livros sobre a história e consciência negras tinham uma presença limitada no currículo, comecei a procurá-los por conta própria. E foi então que raspei minha cabeça. Depois de anos alisando os cabelos, eu simbolicamente rejeitei minha sociabilização branca nessas escolas.

Se você me perguntasse hoje, alguns anos depois, como membro do movimento "quedista", "o que há de errado com essas escolas?", minha resposta seria que são o acordo de compromisso que pôs fim ao apartheid e o conceito de uma Nação Arco-Íris. É isso o que está errado. Nada importante foi abandonado pela minoria branca: estas escolas, como grande parte de nossa ordem social, preservaram o privilégio branco, sem fazer concessões reais à maioria negra da África do Sul.

Até que desmontemos a contínua dominação branca na África do Sul pós-apartheid, as crianças de Mandela não encontrarão liberdade na Nação Arco-Íris.

* Panashe Chigumadzi, autora do romance "Sweet Medicine" e do próximo livro de ensaios "Beautiful Hair for a Landless People", é curadora do primeiro Festival de Livros Abantu de Soweto.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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