Análise: Uma conspiração contra os EUA ou feita pelos EUA?

Mustafa Akyol*

Em Istambul (Turquia)

  • Carlo Allegri/Reuters

Da Turquia até a Trump Tower, os demagogos adoram uma teoria da conspiração

Recentemente viajei para Park City, em Utah, como convidado do Instituto Cato, para dar uma palestra sobre islamismo e liberalismo. No aeroporto, enquanto esperava pelo voo de volta para Istambul, onde eu moro, peguei uma cópia do "The New York Times" e li um artigo sobre as acusações levantadas pelo candidato republicano à Presidência, Donald J. Trump, contra sua rival democrata. "Hillary Clinton se encontra secretamente com bancos internacionais", dizia o artigo citando Trump, "para tramar a destruição da soberania americana e enriquecer essas potências financeiras globais."

Por um momento, pensei que eu já estava de volta à Turquia, lendo sobre nosso presidente, Recep Tayyip Erdogan.

Isso se deve ao fato de que grande parte da mídia turca, que se dedica a elogiar nosso poderoso presidente, também gosta das teorias da conspiração sobre as "potências financeiras globais". Praticamente todos os problemas enfrentados pelo governo, desde manifestações populares até os distúrbios no Oriente Médio, passando pela tentativa fracassada de golpe no último verão, são trabalho de conspiradores mundiais.

De forma similar, os rivais políticos de Erdogan são acusados de realizar reuniões secretas com essas forças do mal que pretendem destruir a soberania da Turquia. É por isso que Erdogan alega estar conduzindo a "segunda guerra de libertação da Turquia", depois de sua verdadeira libertação um século atrás.

Mas mesmo que a teoria da conspiração de Trump pareça similar à de Erdogan, ainda existe uma diferença significativa. Para Trump, a conspiração global é armada contra os Estados Unidos para destruir sua soberania. Para Erdogan e seus correligionários, a conspiração global é armada pelos Estados Unidos para destruir a soberania da Turquia.

Então quem tem razão?

A verdade, claro, é que tanto a conspiração contra os EUA quanto a conspiração feita pelos EUA são imaginárias. Tais amplas conspirações políticas nos dizem mais sobre os teóricos da conspiração do que sobre o mundo verdadeiro que eles alegam descrever.

Um dos motivos seria porque todos os teóricos da conspiração passam uma mensagem que adula seu público: Não cometemos enganos, não somos responsáveis por nenhum erro. Na verdade, todos nossos problemas são orquestrados por forças do mal que querem nos prejudicar.

As teorias da conspiração ajudam a bloquear a autocrítica e coloca a culpa —na verdade, o ódio— nos outros por nossos problemas. Elas também impedem que os problemas sejam solucionados, porque as únicas pessoas que podem resolvê-los —nós— estão livres da responsabilidade.

As teorias da conspiração também adulam os próprios teóricos: eles são excepcionais porque conseguem perceber o que todos os outros estão cegos demais para ver ou com medo demais para admitir. A habilidade deles para decifrar maquinações clandestinas é uma prova de sua genialidade. O fato de que eles denunciam e desafiam os conspiradores é uma prova de sua coragem.

Trump parece estar tirando total vantagem de todas essas mensagens. Ao culpar figuras obscuras como "potências financeiras globais", "o establishment" e a imprensa, ele está dizendo a seus seguidores que todos seus problemas vêm de fora. Tudo que eles precisam fazer é se unir e apoiar um salvador, no caso ele mesmo.

Ele também está alimentando mais uma teoria da conspiração que o cobrirá caso ele perca a eleição, o que parece cada vez mais provável. Ao declarar que a eleição está "armada" contra ele, ele redefine sua possível derrota como uma vitória. As pessoas dirão que esse foi um herói de verdade, que desafiou conspiradores de dentro e fora do país. Não é à toa que os conspiradores fizeram fila para garantir que ele fosse derrotado.

Não é por acaso que a afinidade de Trump com teorias da conspiração anda de mãos dadas com seus instintos autoritários. Como apontava Karl Popper, o grande pensador liberal do século passado, teorias da conspiração são marcas de autoritarismo. Os fascistas eram obcecados por conspirações, assim como comunistas e islamitas políticos. Na Rússia, a máquina de propaganda de Vladimir V. Putin também se empenha em inventar tramas intermináveis contra a pátria.

O que é irônico no mundo de hoje é que os teóricos da conspiração em diferentes sociedades estão obcecados com o mesmo bode expiatório —a globalização— mas a interpretam como uma conspiração somente contra o lado deles.

Na Turquia, por exemplo, a mídia pró-Erdogan vê na globalização uma conspiração não somente contra a Turquia, como também contra o islamismo. Quase todos os dias esses veículos da mídia declaram que o Ocidente (em especial os EUA, o Reino Unido e o "sionismo") está tentando distorcer os ensinamentos do islã, corromper os valores dos muçulmanos e dominar o Oriente Médio com novas guerras coloniais. Eles dizem ainda que os bons muçulmanos devem se defender contra essa conspiração ocidental.

Quando eu leio algumas das declarações de Trump e seus seguidores, eu vejo uma imagem idêntica. Eles falam de uma conspiração islâmica contra o Ocidente. Todo muçulmano é um jihadista em potencial, eles dizem, e os muçulmanos querem impor a sharia no Ocidente, erguer bandeiras negras mesmo nas partes mais republicanas dos Estados Unidos. Eles dizem ainda que os bons americanos devem se defender.

Na verdade, não existe uma conspiração global contra o islã nem contra o Ocidente. A globalização só forçou diferentes sociedades a interagirem mais do que nunca, e muitas pessoas estão assustadas com o que elas estão vendo do outro lado. Os populistas do mundo inteiro estão tirando vantagem desses medos, nos dizendo que deveríamos ter ainda mais medo.

O que precisamos mesmo é entender outras sociedades, enquanto curamos e melhoramos a nossa. E para fazer isso precisamos de líderes responsáveis que resolvam problemas reais, em vez de heróis que inventem papeis imaginários.

*Mustafa Akyol é articulista convidado do jornal e autor de "The Islamic Jesus: How the King of the Jews Became a Prophet of the Muslims", ou "O Jesus islâmico: como o rei dos judeus se tornou um profeta dos muçulmanos", a ser lançado em breve

Tradutor: UOL

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