Opinião: A Rússia não está na verdade tão feliz assim com a vitória de Trump

Ruslan Pukhov*

Em Moscou (Rússia)

  • Doug Mills/The New York Times

Mesmo se Trump tiver sido sincero sobre tudo o que disse sobre Putin durante a campanha, o que é duvidoso, uma reparação das relações é improvável

A vitória chocante de Donald J. Trump na eleição presidencial americana terá algumas repercussões inesperadas na política externa. Durante a campanha, os democratas tentaram com frequência prejudicar a posição de Trump, alegando que o presidente da Rússia, Vladimir V. Putin, estava trabalhando a favor e apoiando o candidato republicano. Agora, muitos acreditam que o imenso revés político americano poderia ser descrito como uma vitória para o Kremlin.

Na verdade, a ideia disseminada pela imprensa americana de que Putin apoia Trump está distante da realidade. Os defensores dessa ideia ignoraram jubilosamente as declarações na mídia russa e de analistas russos, que nunca foram particularmente entusiasmadas com Trump.

Há muita preocupação na Rússia com o que acontecerá à política externa americana assim que Trump tomar posse.

O principal problema com Trump é que ninguém, incluindo o próprio presidente eleito, parece saber o que ele fará como presidente, especialmente na área de política externa. Suas declarações a respeito até o momento foram confusas e, às vezes, contraditórias. Seus assessores e conselheiros também parecem ter posições conflitantes a respeito das políticas externa e de defesa americanas.

Além disso, Trump terá que encontrar um meio-termo com o establishment do Partido Republicano. A política externa de seu governo e suas nomeações para a defesa podem se tornar moeda de troca nesse processo difícil. Em consequência, algumas figuras muito inesperadas, incluindo falcões assumidos, podem assumir o Departamento de Estado e o Pentágono. A própria preferência aparente de Trump é por se concentrar em assuntos domésticos, especialmente na economia, de modo que poderia delegar a política externa e a defesa à elite estabelecida do Partido Republicano, que é claramente hostil em relação à Rússia.

Considerando tudo isso, ninguém no Kremlin, onde as pessoas acompanham atentamente a política americana e os relatórios da inteligência, consideraria seriamente apostar em Trump.

Diferente de grande parte da imprensa americana e internacional, os analistas e comentaristas russos nunca subestimaram Trump. Apesar de ele às vezes ter sido comparado a Vladimir Zhironovsky, um populista extravagante russo, Trump era visto com mais frequência como um líder de centro-direita forte e carismático. Alguns comentaristas russos até mesmo reconhecem que ele pode lembrar mais Ronald Reagan, um presidente bem-sucedido que adotou políticas linhas-duras unilaterais nas políticas externas e domésticas.

A longo prazo, entretanto, Moscou pode se consolar com algumas das tendências na política americana que se destacaram ao longo de 2016. Na política externa, tanto a campanha de Trump quanto a do democrata Bernie Sanders nas primárias acentuaram uma nova inclinação americana para o isolacionismo. Grande parte da população americana está farta das campanhas militares intermináveis no Oriente Médio, cansada do fardo dos compromissos americanos no exterior.

Ainda mais importante, ficou claro ao longo das duas últimas décadas que a globalização não foi uma bênção completa para os Estados Unidos, como alguns gostam de retratá-la. Na verdade, o coração industrial americano arcou com grande deslocamento causado pela globalização em velocidade vertiginosa defendida pela elite em Washington.

A questão-chave agora é se o nascente isolacionismo americano será traduzido em políticas. Mesmo se isso ocorrer, não será tão cedo. A elite política americana permanece quase universalmente intervencionista e apoiadora da globalização.

Enquanto a Rússia tenta imaginar o que esperar da presidência Trump, ela tem pouco motivo para esperar que o novo presidente oferecerá qualquer grande concessão ou fechará algum acordo importante com Moscou, independentemente do que foi dito durante a campanha. E Moscou tem pouco a oferecer a Washington no momento. Há poucas áreas para possível cooperação. Mesmo se Trump de fato quiser melhorar as relações com a Rússia, ele descobrirá quando se mudar para o Escritório Oval que os Estados Unidos têm pouco a ganhar com essa melhoria.

Por isso não há motivo para esperar, seja agora, ou no futuro previsível, que Estados Unidos e Rússia fecharão algum grande acordo para divisão do mundo em esferas de influência. Até mesmo concessões modestas parecem improváveis. O governo Trump não terá incentivo para fazer aberturas a Moscou, como a adoção de uma posição mais branda a respeito da Ucrânia ou relaxamento das sanções contra a Rússia. Além disso, para Trump, qualquer relaxamento em relação à Rússia enfrentaria oposição dentro do Partido Republicano e das comunidades de defesa e política externa americanas. O novo presidente dificilmente estaria disposto a pagar o alto preço político doméstico, especialmente quando a melhora das relações não oferece nenhum benefício palpável para os Estados Unidos.

Os problemas básicos nas relações russo-americanas derivam da aspiração fundamental de Moscou de retornar à arena global como uma grande potência, e de contemplar uma integração ao mundo pró-Ocidente, liderado pelos americanos, apenas sob a condição de ser reconhecida como uma grande potência que domina a maioria de seus ex-vizinhos soviéticos. Essas aspirações russas permanecerão inaceitáveis para qualquer governo americano ainda por muitos anos, se não décadas.

Só há uma forma disso mudar, apesar de ser um cenário que muitos americanos possam se sentir incomodados em contemplar.

Em caso de uma grande deterioração das posições americanas na arena global, por exemplo, caso os Estados Unidos fossem arrastados para um confronto com a China ao mesmo tempo permanecendo atolados no Oriente Médio, a Rússia poderia parecer uma aliada mas atraente, ou no mínimo uma adversária menos atraente. Um confronto com a China e outras complicações de política externa poderiam forçar Washington a buscar uma reaproximação com a Rússia, da mesma forma que a rivalidade com a Alemanha já forçou o Império Britânico a deixar de lado suas antigas diferenças com a Rússia e assinar um pacto em 1907. Mas para que isso ocorra, Moscou terá que permanecer firme e inflexível o máximo que for preciso.

*Ruslan Pukhov é um analista de defesa e diretor do Centro para Análise de Estratégias e Tecnologias, um centro de estudos em Moscou

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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