Com referendo, Itália pode dar prova de que a zona do euro não sobrevive a tempos ruins

Philipp Ther*

  • Claudio Giovannini/AFP

    Apoiadores do premiê italiano, Matteo Renzi, fazem campanha em Florença

    Apoiadores do premiê italiano, Matteo Renzi, fazem campanha em Florença

A Itália pode oferecer a prova de que a zona do euro foi criada para tempos bons, mas não para tempos ruins.

É um desdobramento estranho o fato de a maior aliança de Estados democráticos da história moderna, a União Europeia, tenha passado a temer votos e eleições democráticas. Mas o plebiscito sobre uma série de mudanças constitucionais na Itália, no domingo, pode ser um dia momentoso para a Europa e para a União Europeia.

A Itália foi um país fundador da Comunidade Econômica Europeia e da moeda comum, o euro. Se a Itália votar pelo não no referendo e então se voltar contra Bruxelas e o euro, isso poderia levar ao fim da União Europeia. Também poderia ser uma derrota séria e duradoura para uma social-democracia reformista e internacionalista.

Formalmente, o plebiscito apresenta aos eleitores uma série de mudanças constitucionais que fazem muito sentido.

Matteo Renzi, o primeiro-ministro da Itália, propõe a redução do poder do Senado, a casa superior do Parlamento. Diferente do Senado americano, o Senado italiano conta não apenas com representantes de várias regiões, mas também com nomeados "vitalícios" e representantes de vários lobbies.

Os senadores já bloquearam muitas decisões tomadas pelo Parlamento no passado. Como tendem a ser mais velhos (idade mínima de 40 anos), eles são vistos com frequência como símbolo da "gerontocracia" da Itália.

A redução dos poderes do Senado é um passo fundamental para modernização do sistema político da Itália e para solução de seus problemas econômicos. Na verdade, a maioria dos senadores concorda com as reformas de Renzi que pareciam que seriam aprovadas no plebiscito.

Mas em pesquisas realizadas após setembro (antes da suspensão da divulgação de pesquisas antes da votação), a opinião pública se voltou contra Renzi e suas propostas. Isso ocorreu em grande parte porque ele falhou em cumprir sua principal promessa de melhorar a economia. A Itália ainda não se recuperou plenamente da crise global de 2008: por exemplo, o desemprego é maior do que em grande parte da União Europeia, com a taxa entre os jovens pairando em torno de 40%.

Segundo esses indicadores econômicos, "la crisi", como os italianos a chamam, é tão profunda quanto a depressão que atingiu a Polônia e outros países do Leste Europeu depois de 1989. O sul da Itália apresenta no momento um produto interno bruto per capita menor do que o da Polônia, corrigido pelo poder aquisitivo.

Renzi fez esforços para mudar as coisas. Ele introduziu reformas no mercado de trabalho que facilitam a contratação de jovens e relaxou algumas das proteções desfrutadas por trabalhadores com contratos mais antigos. Ele elevou modestamente a idade de aposentadoria, um passo necessário devido ao aumento da expectativa de vida (a Itália apresenta uma das expectativas de vida mais altas do mundo ocidental) e para aliviar o Estado de bem-estar social. Renzi também contratou muitos ministros jovens em vez de velhos corretores de poder como Massimo D'Alema, o ex-líder do Partido Democrático de Renzi e que agora faz campanha pelo não. De modo geral, as políticas de Renzi lembram o Novo Trabalhismo de Tony Blair no Reino Unido nos anos 90 e as reformas trabalhistas e nas aposentadorias  realizadas sob Gerhard Schröder na Alemanha após a virada do milênio.

Só que Renzi está atuando em um contexto econômico global muito pior. A Itália não pode se apoiar em uma modelo de crescimento movido pelas exportações, como o da Alemanha sob Schröder, e está sofrendo sob o fardo pesado da dívida deixada por Silvio Berlusconi.

E a maré se voltou contra a social-democracia reformista na Itália e em outras partes. Populistas na esquerda e direita têm explorado o desencanto, a ira e o desespero em grandes segmentos do eleitorado. Eles prometem uma ruptura real, algo que o partido de Renzi, parte do establishment político, não pode oferecer de forma crível.

Se ele for derrotado no plebiscito e renunciar, como prometeu fazer, a União Europeia sairia também seriamente ferida. Renzi é ferrenhamente pró-europeu, enquanto os populistas se mobilizam contra Bruxelas e contra as políticas de austeridade da União. Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia, entendeu isso e apresentou um plano de investimento de 315 bilhões de euros em 2015. Mas provavelmente é muito pouco, tarde demais, para ajudar Renzi, apesar da Itália poder se beneficiar com os investimentos em energia solar e precisar urgentemente de investimentos em comunicações de internet.

A união também se tornou impopular por ter deixado em grande parte a Itália por conta própria na gestão da maré de refugiados e imigrantes do Norte da África (mais de 170 mil pessoas chegaram à Itália até o momento em 2016). Portanto, até mesmo alguns dos simpatizantes de Renzi se sentem abandonados pela União Europeia.

Os adversários de Renzi, os populistas de esquerda do Movimento Cinco Estrelas de Beppe Grillo, e os populistas de direita da Liga do Norte, atacam ferozmente o primeiro-ministro e a União Europeia. Grillo indicou que se o plebiscito fracassar, ele deseja realizar um referendo para abandono do euro.

O Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia) estabeleceu o exemplo de que uma nação pode votar contra o conselho dado por especialistas econômicos e políticos. Mesmo sem um plebiscito a respeito do euro, a Itália poderia se tornar quase impossível de governar.

Isso certamente assustará os mercados financeiros. Se as taxas de juros da dívida pública da Itália, que no momento é de cerca de 132% do produto interno bruto, continuarem subindo (a especulação contra os títulos da dívida italiana já teve início nas últimas semanas), poderá ser difícil manter a Itália na zona do euro.

Se a Itália, a quarta maior economia da União Europeia, rejeitar o euro, isso poderia representar o fim da moeda comum, provavelmente da própria União. Mas como agiriam os populistas assim que estivessem no poder? Se tiverem que escolher entre a falência do Estado e a manutenção do euro, provavelmente ainda optariam pela moeda comum.

Os países fundadores da Comunidade Econômica Europeia reagiram à queda do Muro de Berlim e o colapso do socialismo de Estado estabelecendo uma União Europeia mais profundamente integrada e o euro. Isso funcionou bem até a crise de 2008.

Mas pode ser que a união e a moeda comum sejam feitas para tempos bons, não para tempos ruins.

*Philipp Ther, um professor da Universidade de Viena, é autor, mais recentemente, de "Europe Since 1989: A History", ou "Europa desde 1989: uma História", em tradução livre, não lançado no Brasil

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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