Opinião: O que podemos aprender com a derrota da extrema-direita na Áustria?

Florian Bieber*

Em Graz (Áustria)

  • Joe Klamar/ AFP

    O candidato da extrema-direita Norber Hofer foi derrotado nas eleições de domingo (4)

    O candidato da extrema-direita Norber Hofer foi derrotado nas eleições de domingo (4)

Depois do referendo do Brexit em junho e da eleição de Donald Trump em novembro, a eleição presidencial na Áustria no domingo (4) foi observada atentamente como um indicador de se os populistas de direita continuarão sua série de vitórias em 2016. Por enquanto, pelo menos, isso não aconteceu.

No domingo, Alexander Van der Bellen, um ex-líder do Partido Verde da Áustria, derrotou Norbert Hofer, do Partido da Liberdade, de extrema-direita. Foi uma repetição da eleição realizada em maio, cujos resultados foram anulados pelo tribunal constitucional depois de queixas de irregularidades na votação. Desta vez, Van der Bellen ganhou por uma margem muito maior --quase 7 pontos percentuais, comparados com menos de 1 em maio--, apesar de as pesquisas de opinião e muitos observadores preverem sua derrota.

A eleição na Áustria demonstra por que é errado interpretar a direita populista em todo o mundo como parte de uma única e inevitável maré. Os adversários do Partido da Liberdade tentaram ligar Hofer à votação do Brexit no Reino Unido, sugerindo que uma vitória dele levaria a um referendo na Áustria sobre a saída da União Europeia. Mas o Partido da Liberdade se distanciou dessa política, percebendo que não gozava do apoio da maioria dos austríacos. Quanto à comparação com os EUA, poucas pessoas aqui achavam o sorridente e gentil Hofer parecido com o grosseiro Trump.

No entanto, está claro que forças semelhantes estão em jogo, e há lições a se tirar da Áustria. Hofer pode ter sido derrotado, mas sua plataforma de nacionalismo, islamofobia, euroceticismo e antielitismo ainda ganhou quase a metade dos votos em uma eleição de alto comparecimento. O ecletismo ideológico do Partido da Liberdade --chamando a si mesmo de "partido da pátria social" e apelando aos trabalhadores, apesar de um programa econômico neoliberal-- se mostrou uma força e não uma fraqueza.

O influxo de refugiados à Áustria no último ano e meio também reforçou a popularidade da extrema-direita. Histórias nos tabloides e nas redes sociais sobre a ameaça terrorista que emana dos refugiados, a ajuda financeira que eles recebem (real e imaginária) e a natureza estrangeira do islã criaram um ambiente volátil que favoreceu o Partido da Liberdade.

Mas foi o medo dos refugiados, mais que a verdadeira exposição a eles, que atraiu apoio para o partido. Os resultados da eleição não mostraram correlação entre as localidades onde os refugiados se assentaram e a votação em Hofer.

Um senso de desespero econômico também teve um papel crucial. O desemprego hoje está em 5,9%, baixo pelos padrões europeus, mas um pico histórico na Áustria. Muitos austríacos sem trabalho culpam os partidos do establishment político por isso, assim como os que temem ser os próximos a perder o emprego sentem que as elites os abandonaram.

É compreensível que muitos eleitores estejam cansados dos partidos da corrente dominante. Depois de compartilhar o poder por 22 dos últimos 29 anos, o Partido do Povo, de centro-direita, e os Social-Democratas, de centro-esquerda, passaram a representar a estagnação. Nem o novo chanceler social-democrata, Christian Kern, nem o jovem ministro das Relações Exteriores, Sebastian Kurz, um astro em ascensão entre o Partido do Povo, apresentaram uma alternativa interessante ao apelo da extrema-direita.

Ao contrário, cada um aproximou seu partido de uma potencial coalizão com o Partido da Liberdade, que continua liderando nas pesquisas para uma eleição parlamentar. Kurz, depois de inicialmente apoiar a abordagem da chanceler Angela Merkel de receber os refugiados na Alemanha, desde então adotou uma linha dura para fechar as fronteiras da Áustria. Kern, por sua vez, foi surpreendentemente gentil em um recente debate público com Hans-Christian Strache, presidente do Partido da Liberdade.

Defender o Partido da Liberdade provavelmente será uma estratégia perdedora para os centristas. Uma lição da eleição presidencial é que apresentar uma alternativa real é o modo de derrotar a extrema-direita. Van der Bellen ofereceu um contraste marcante com Hofer. Um professor universitário aposentado quase 30 anos mais velho que Hofer, Van der Bellen representa uma Áustria urbana, aberta e cosmopolita, que ajudou grande número de refugiados no último ano e meio.

O Partido da Liberdade tentou usar isso contra ele, retratando-o como antipatriótico, comunista e maçom, parte da elite vienense. Os seguidores do partido zombaram da idade de Van der Bellen e sugeriram que ele estaria doente. Nada disso funcionou. Primeiro, ele não podia ser acusado de nenhum erro durante sua carreira política. Tampouco, como verde, esteve manchado por associação com os partidos no poder, cujos dois candidatos presidenciais ganharam pouco mais de 20% dos votos combinados no primeiro turno das eleições, em abril. E em vez de atacar a extrema-direita Van der Bellen se apresentou como uma alternativa real.

Políticos de toda a Europa, de Geert Wilders na Holanda a Marine Le Pen na França, manifestaram apoio a Hofer. Vendo sua derrota, hoje eles têm menos certeza de sua chegada ao poder?

Seus próprios sucessos até agora refletem principalmente a fraqueza dos partidos da corrente dominante. Talvez seja necessário que outras forças políticas se apresentem para manter os populistas de direita longe do poder. Mesmo assim, as ideias da extrema-direita entraram na corrente dominante da Europa.

*Florian Bieber é professor de história e política do sudeste europeu na Universidade de Graz, na Áustria

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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