Opinião: A França, sem um conflito, está à deriva

Michel Wieviorka

Em Paris (França)

  • Boris Horvat/AFP

    Homem cola cartazes do candidato da direita, François Fillon, sobre os do candidato socialista, Benoit Hamon, em Marselha, na França

    Homem cola cartazes do candidato da direita, François Fillon, sobre os do candidato socialista, Benoit Hamon, em Marselha, na França

O país agora carece dos dois conflitos que por muito tempo definiram sua política: a Guerra Fria e o movimento dos trabalhadores

É sem precedente: em um espaço de poucos meses, os eleitores franceses, a mídia e as pesquisa retiraram vários dos maiores candidatos da corrida presidencial.

Primeiro foi Cécile Duflot, a principal líder do Partido Verde, que foi derrotada nas primárias de seu partido. Depois foi Nicolas Sarkozy, um ex-chefe de Estado, e Alain Juppé, o ex-primeiro-ministro que por meses foi um grande favorito, ambos eliminados nas primárias da direita e centro-direita.

Depois disso foi o próprio presidente da França, François Hollande, cuja impopularidade o levou até mesmo a tentar a reeleição. Finalmente, veio Manuel Valls, até muito recentemente o primeiro-ministro da França. Ele perdeu as primárias da esquerda.

E agora, como cobertura do bolo, François Fillon, que venceu habilmente as primárias de centro-direita em dezembro, se vê em apuros, com sua posição em queda nas pesquisas. Alegações de que sua esposa e filhos recebiam salários por cargos públicos falsos colocaram seriamente em questão sua integridade, ele que alegava personificar os valores morais.

Como interpretar essa incrível sequência de eventos?

Uma explicação é mais observação do que análise: o sistema político francês está em crise, e seus partidos não estão capacitados a atender as expectativas da sociedade atual, que mudou consideravelmente ao longo das últimas décadas.

Os franceses veem suas elites políticas como plantas sem solo, distantes das preocupações dos eleitores, assim como impotentes diante do desemprego e da falta de estabilidade no trabalho. Os eleitores franceses gostariam de uma convergência de moralidade e política, e estão sensíveis às transgressões de políticos tanto da direita quanto da esquerda.

Os eleitores expressam sua falta de confiança nos atores políticos eliminando aqueles que sentem que já viram demais. Eles esperam que caras novas, supostamente anti-establishment, se saiam melhor.

Essa lógica é responsável pelo sucesso de três formas de populismo: nacionalista (representado por Marine Le Pen, da Frente Nacional, que está à frente nas pesquisas); extrema esquerda (liderada por Jean-Luc Mélenchon, apesar de ter sido enfraquecido pela vitória de Benoît Hamon, cujas ideias com frequência são próximas das dele, nas primárias socialistas); e extremo centro, por assim dizer (com Emmanuel Macron, que alega ser capaz de superar a divisão esquerda-direita).

A crise na representação política não se restringe à França. Mas aqui ela foi acentuada, ou acelerada, pela presidência de Sarkozy e, ainda mais, pela de Hollande: ambos se esforçavam constantemente para se enquadrar no molde do sistema quase hiperpresidencial da França, criado pela Constituição da Quinta República em 1958.

Daí a segunda explicação para a loucura desta campanha presidencial: ela sinaliza uma crise institucional e a exaustão da Constituição, feita sob medida pelo general De Gaulle, que não mais é adequada às necessidades atuais.

De acordo com este argumento, o problema surgiu porque os presidentes mais recentes da França não estavam à altura do cargo e porque os franceses não querem mais ser governados de uma forma que parece semimonárquica. De fato, vários candidatos na atual disputa pedem pelo estabelecimento de uma Sexta República, propondo que o poder não fique concentrado apenas nas mãos do chefe de Estado. Mas essa explicação olha apenas para as instituições, de modo que é reducionista.

Uma terceira explicação é sugerida pelas experiências de outros países. A votação pela saída do Reino Unido da União Europeia e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos parecem ilustrar uma guinada global para a direita política, talvez de um tipo autoritário.

Segundo esse ponto de vista, a França está apenas exibindo a mesma tendência. É verdade que o atual governo, apesar de ser de esquerda, adotou políticas típicas da direita, particularmente as duras medidas de segurança após os ataques terroristas de 13 de novembro de 2015. E atualmente muitos eleitores de direita estão se inclinando para a extrema direita ou para a chamada direita dura, esta segunda sendo personificada por Fillon, que conta com o apreço, por exemplo, dos católicos hostis ao casamento gay.

Uma quarta explicação se concentra na falta de visão exibida tanto pelas autoridades quanto por seus oponentes desde o início deste século. Refém dos eventos atuais, escondidos no "presentismo" denunciado pelo historiador François Hartog, toda a classe política parou de propor sonhos, utopias ou projetos de longo prazo. Ela também se isolou dos intelectuais, exceto alguns pensadores reacionários, como Alain Finkielkraut, que são o equivalente francês aos neoconservadores americanos.

Todas essas explicações, e talvez outras, têm alguma relevância. Mas o essencial se encontra em outro lugar. A principal questão é que a sociedade francesa tem sido incapaz de regenerar os grandes debates e os principais conflitos que ajudaram a organizá-la durante os anos do pós-guerra, ou os "Trente Glorieuses" (Trinta Gloriosos), como os chamou o economista Jean Fourastié.

Na época, a França estava profundamente preocupada com a Guerra Fria, a grande disputa entre o bloco soviético e os países capitalistas. Enquanto isso, sua vida social era definida pela luta entre os trabalhadores e seus empregadores. Resumindo: a França atual está órfã, carente dos dois conflitos que por muito tempo moveram sua vida política.

A crise atual não será superada até que seja transformada por novos, ou renovados, debates e conflitos. Alguns tópicos contenciosos começaram a surgir: a separação dos poderes, as tensões entre o Estado de direito e as liberdades individuais, a noção de solidariedade, nacionalidade e identidade, a Europa e o lugar das minorias, especialmente as religiosas.

Mas por ora essas questões, em vez de servirem como princípios organizadores para a vida política da França, ou sua campanha presidencial, parecem apenas fraturá-las e confundi-las.

*Michel Wieviorka, um sociólogo, é o chefe da Fondation Maison des Sciences de l'Homme, em Paris, e membro do Conselho Científico do Conselho Europeu de Pesquisa

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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