Opinião: Enquanto isso, no Canadá... as coisas estão igualmente ruins

Scaachi Koul

Em Toronto

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Os americanos que pensam em fugir para uma utopia progressista terão uma desagradável surpresa

Quando Justin Trudeau foi eleito primeiro-ministro do Canadá, com uma maioria liberal no parlamento ainda por cima, o fato marcou o esperançoso fim de quase uma década de domínio conservador. "Sunny ways", disse Trudeau em seu discurso de vitória. "Isso é o que uma política positiva pode fazer".

Sua vitória recebeu uma bajuladora cobertura internacional: O filho de outro popular primeiro-ministro, de boa aparência convencional, conseguiu dizer todas as coisas certas a respeito da mudança climática e do feminismo. Lembram-se de quando ele conseguiu a paridade de gênero na composição de seu gabinete? Um sonho.

O estereótipo, dentro e fora do Canadá, é de que os canadenses são tão educados e tolerantes que nada como o amargo populismo de Donald J. Trump poderia algum dia prosperar aqui. Os canadenses dizem "sorry" (desculpe) o tempo todo, mas nós falarmos "soary" e ficamos felizes em pagar pelo seguro de saúde de nosso vizinho através de impostos mais altos. Nós até colocamos um "u" (N.T.: trocadilho com "you" ou "você") a mais em "neighbor" (vizinho). Os canadenses são simplesmente generosos assim.

Essa é uma impressão amplamente disseminada que o site da imigração canadense caiu nas horas que se seguiram à eleição presidencial americana, graças a um aumento de cinco vezes no número de visitantes. Mas a crença de que o Canadá é uma utopia progressista só se mantém se você não tem ideia da história canadense e tem pouco conhecimento dos acontecimentos atuais, e só se você andar por suas cidades sem falar com ninguém que não seja branco, de classe média ou homem.

No dia 29 de janeiro, seis pessoas foram mortas por um atirador em uma mesquita de Quebec. As atividades do suspeito nas mídias sociais sugerem que ele apoiava ideias de supremacia branca e o movimento Trump. Esse acontecimento, embora chocante e aterrador, não era algo novo nem imprevisível, especialmente para os cidadãos muçulmanos do Canadá. A ideia de que o Canadá é um lugar seguro é uma mentira, e fácil de detectar para qualquer um que tenha de fato morado aqui como parte de uma minoria e observado como o país escolhe se esquecer de você.

Pelo menos a presidência de Trump vai escancarar essa mentira. O Canadá tem dois candidatos no estilo de Trump concorrendo à liderança conservadora federal com plataformas muito similares àquelas que empurraram os Estados Unidos e partes da Europa para a aceitação do nacionalismo branco.

Depois da eleição americana, uma integrante do Parlamento chamada Kellie Leitch enviou um e-mail coletivo dizendo que a vitória de Trump era "uma mensagem empolgante, que precisamos receber no Canadá também". Antes disso, ela tentou criar uma linha telefônica para denúncias de "práticas culturais bárbaras", uma tentativa descarada de agradar a racistas e islamofóbicos com o pretexto de estar protegendo mulheres e crianças. Leitch veicula propagandas em nossa versão do Breitbart (site de extrema direita), adoravelmente chamado "The Rebel", um site movido a discursos de ódio. No começo desta semana, o The Rebel especulou se o atirador de Quebec não seria na verdade um extremista muçulmano em vez de um nacionalista branco.

Enquanto isso, Kevin O'Leary, um jurado louco por fama do reality show "Shark Tank", que mora em Boston e refere-se a si mesmo como "Sr. Maravilhoso", é o mais recente a anunciar que está concorrendo à liderança conservadora. Ele também argumentou que o fato de as 85 pessoas mais ricas do mundo terem o mesmo tanto de dinheiro que as 3,5 bilhões mais pobres é algo bom.

"Isso inspira todos a obterem motivação", ele disse. "É claro que eu aprovo".

Finalmente, nosso próprio narcisista de reality show com dinheiro demais e nenhuma experiência em governo!

E tem o Trudeau em si, uma enorme decepção tanto para progressistas quanto para conservadores, apesar de seu penteado no estilo Super-Homem. Ele não fez nenhuma tentativa de condenar publicamente as provocações racistas e a política do medo de Trump, supostamente porque ele estaria com medo de que chamar seu maior parceiro comercial de racista prejudicaria a mencionada relação comercial. Em novembro, nosso primeiro-ministro ecologicamente correto aprovou a expansão do oleoduto da Kinder Morgan, um grande retrocesso para o meio ambiente. Pior, no mês passado ele reprimiu ativistas que estavam protestando contra a expansão do oleoduto. Ele estava transtornado porque eles estavam o interrompendo; eles estavam transtornados porque povos indígenas de todo o Canadá continuavam vivendo em condições de terceiro mundo.

Como o ex-prefeito de Toronto fumador de crack Rob Ford disse uma vez, "Está tudo bem".

Essa onda de reação política não tem nada de novo. Toronto tem um histórico de policiais revistando homens negros na rua muito mais do que homens brancos. Quebec, em especial, tem um histórico lamentável de retóricas e políticas antimuçulmanos. Em 2013, a província propôs que se proibisse o uso de símbolos religiosos --no caso, hijabs, turbantes, quipás e niqabs-- por pessoas que trabalham no setor público. Em setembro, a Universidade de Alberta foi coberta por pôsteres com a frase "F...-se seu turbante".

Também no campo da justiça criminal, o Canadá está longe de ser um exemplo progressista. Em Ontário, Adam Capay, um homem de 24 anos das Primeiras Nações, tem sido mantido em uma solitária nos últimos quatro anos. Acusado de matar um colega de cárcere em uma briga, ele ainda não foi a julgamento.

Comparar o Canadá com os Estados Unidos é algo razoável, uma vez que somos bem próximos e compartilhamos uma história e uma geografia parecidas; mas sugerir que o Canadá entendeu algo que outras nações não entenderam não é. É verdade, tudo que os Estados Unidos fazem é mais escandaloso do que no Canadá: a comida dos Estados Unidos é radioativa, sua televisão é mais agressiva (e, bem, objetivamente falando é melhor), então faz sentido que a política americana seja mais abertamente nociva. Mas isso está longe de fazer do Canadá um refúgio.

Existe um meme circulando no Twitter e no Facebook que você tem visto mais do que nunca agora que as pessoas estão argumentando que a política do Canadá contrasta demais com a dos Estados Unidos. Ele envolve a postagem de um link para uma história tola canadense --muitas vezes com um alce, por que não?-- acompanhado da legenda "Meanwhile in Canada" ("Enquanto isso, no Canadá"). Enquanto os Estados Unidos ardem em chamas, os canadenses removem calmamente a neve de suas calçadas e compram leite em saquinhos para seus filhos.

É como ser considerado o irmão mais quieto e bonzinho. Na verdade, somos só mais passivos-agressivos, temerosos demais para reconhecer como desapontamos nossos cidadãos dia após dia.

Não existe um excepcionalismo canadense. O que está acontecendo aqui e agora tem acontecido há décadas: preconceito e discriminação estão enraizados em nossa história e nosso governo. Tudo que se diz sobre o sistema defeituoso dos Estados Unidos também vale para o Canadá. A única real diferença é a ilusão de que o Canadá é intrinsicamente melhor.

Os Estados Unidos elegeram um perigoso demagogo para seu mais alto cargo. No Canadá, só uma eleição nos separa da mesma armadilha.

*Scaachi Koul escreve sobre cultura para o BuzzFeed e é autora do livro "One Day We'll All Be Dead and None of This Will Matter." ["Um dia estaremos todos mortos e nada disso importará"], a ser lançado em breve.

Tradutor: UOL

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