Opinião: O homem que ajuda a Índia a sair do armário

Aatish Taseer

Em Nova Déli (Índia)

  • Samuel de Roman/AP

    O cineasta de Bollywood Karan Johar, em Madri, na Espanha

    O cineasta de Bollywood Karan Johar, em Madri, na Espanha

Karan Johar fez mais que qualquer outra pessoa para normalizar a homossexualidade na Índia. Quando ele estará em paz com isso? O homem mais ubíquo em Bollywood está sob tremenda pressão para proferir três palavras simples: "Eu sou gay".

Se essas três palavras adquiriram força de absolvição, é porque Karan Johar é de longe o indiano mais famoso a ser quase assumidamente gay. Desde que se projetou no final dos anos 90, este diretor/produtor de 44 anos conquistou grandes públicos com seus filmes.

O nome dele é sinônimo de entretenimento familiar, de "pipoca, goma de mascar e frivolidade", segundo suas próprias palavras. Todos os astros e estrelas são seus amigos e os maiores deles aparecem em seu talk show imensamente popular, "Koffee with Karan". Ele tem cerca de 10 milhões de seguidores no Twitter e quase 3 milhões no Instagram.

Como um jovem protegido dele me disse, "Ele é Bollywood".

Mas um oceano de insinuações sempre cercou a sexualidade de Johar. Ele fez mais que qualquer outra pessoa para introduzir a ideia da homossexualidade nos lares indianos. Parece que nenhum outro armário estaria mais pronto para ser aberto que o dele.

Mas quando ele tenta a fechadura, ele a encontra emperrada. "A única coisa sobre a qual me mantenho de boca calada é quando me perguntam sobre minha sexualidade", ele escreve em sua autobiografia recém-publicada, "An Unsuitable Boy" (Um garoto inadequado, em tradução livre, não lançado no Brasil). "É a única parte de mim que sinto que prendi."

O que torna o caso de Johar tão oportuno neste momento em particular na Índia é que apesar de se manter circunspecto a respeito de sua orientação sexual, ele tem sido, tanto na vida quanto em seu trabalho, impressionantemente explícito a respeito de sexo. Em 2013, ele apresentou nas telas indianas um ardente beijo gay em "Bombay Talkies".

Dois anos depois, como apresentador de um evento humorístico assistido por milhões no YouTube, ele brincou diante de uma plateia ao vivo, com a presença de sua mãe, de ter recebido sexo anal.

Em seu novo livro, predomina essa mesma mistura curiosa de reticência e franqueza. Johar não usa o pronome masculino, mas escreve de modo aberto e comovente sobre tudo, da dor de um amor não correspondido à aridez de ter que pagar por sexo.

É impossível não ver Johar em contraste com a sociedade em que vive. A Índia se encontra no momento tomada por uma estranha esquizofrenia em relação à liberdade gay. Aplicativos de namoro gay apresentam atividade abundante. Todo mundo faz sexo.

Mesmo em cidades pequenas, homens estão solicitando furiosamente outros homens. Mas o reconhecimento legal do amor de mesmo sexo está preso firmemente no Reino Unido do século 19.

Em 2013, no mesmo ano em que o beijo gay de Johar foi exibido nos cinemas por toda a Índia, a Suprema Corte restabeleceu a Seção 377 do Código Penal indiano, que coloca a homossexualidade, juntamente com o bestialismo, como sendo "contra a ordem natural".

Getty Images
O ator Shah Rukh Khan, a atriz Kajol Devgan e o diretor Karan Johar posam para foto em pré-estreia de "My Name Is Khan", no 60º Festival de Berlim

Na prática, a decisão significa que o sexo gay é em grande parte permitido (as autoridades fazem vista grossa), mas nos livros é criminalizado, o que significa que o casamento, ou mesmo qualquer reconhecimento social ou legal de amor de mesmo sexo, é um sonho distante.

Isso cria uma sociedade onde as liberdades gays (que podem significar o Grindr por um lado e o direito ao casamento no outro) são reduzidas ao prazer carnal. Em consequência, a Índia parece um lugar onde há um rompimento entre amor e sexo, e onde o arco da liberdade está pendendo para a licença.

É nesse contexto que a ambiguidade de Johar adquire significado especial. Ele não é popular entre ativistas e a intelligentsia. Eles o acusam de reduzir personagens gays a paródias efeminadas.

Apurva Asrani, o roteirista de "Aligarh", um filme comovente sobre um professor gay em uma cidade universitária muçulmana, escreveu na revista "The Wire": "Infelizmente, a imagem pública de Karan cheira aos mesmos estereótipos gays propagados por Bollywood, o predador sexual frustrado, o alívio cômico, o enrustido alvo de piadas".

Mas Johar sabe que é bem mais subversivo do que seus críticos admitem. Ele introduziu furtivamente a ideia da homossexualidade nos lares indianos. Ele conhece os limites de seu público "familiar", mas trabalha vigorosamente dentro deles.

Eu conheço Johar há anos, e quando me deparei com ele em Nova York recentemente, a impressão que tive era a de um homem que está discretamente expandindo os limites há anos.

Ele avançou muito desde "Dostana", sua comédia romântica de 2008 na qual dois homens (ambos grandes astros) fingem ser gays para que possam alugar um apartamento junto com uma bela garota indiana no exterior.

No ano passado, ele produziu "Kapoor & Sons", um filme sobre o garoto de ouro de uma família indiana de classe média vivendo uma vida gay secreta no exterior, que acaba assumindo para sua mãe perturbada.

Nenhum grande ator estava disposto a interpretar o papel. "Eu contatei oito ou nove astros", me disse Johar durante um almoço em Nova York, "e todos disseram que se o personagem for gay no final, então não".

Finalmente ele encontrou Fawad Khan, um ator paquistanês, cuja interpretação foi magnífica. (Khan foi posteriormente forçado a partir da Índia por causa das tensões entre a Índia e o Paquistão.)

Johar pode chegar a mais pessoas do que um diretor de filme de arte, mas também precisa ser mais cuidadoso. Ele é um homem trabalhando dentro dos limites de uma tradição, assimilando discretamente influências externas. Ele precisa tornar palatável ao seu grande público mudanças de atitude, costumes sexuais e valores.

Mas a "pipoca, goma de mascar e frivolidade", na verdade, é a única forma de esconder algo azedo, ácido e provocador.

Em uma noite recente em Mumbai, eu me vi em uma pequena festa na casa de Johar. Um grupo de astros se reuniu em uma sacada, com vista para o mar escuro e luzes da cidade. Eu tinha acabado de ler o livro de Johar. Sua última linha é: "A morte não me assusta, mas a vida às vezes sim".

Enquanto observava o produtor entre seus amigos, agora um astro querido, agora um herói, envelhecendo, porém ainda atraente, eu percebi sua solidão.

Ele é daquela geração que amadureceu sexualmente talvez cinco ou 10 anos antes das liberdades destes tempos recentes. Isso significa que Johar, apesar de ter tentado ativamente encontra o amor (até mesmo, como ele escreveu em sua autobiografia, recorrendo a uma agência que lida exclusivamente com ultrarricos e famosos), enfrenta a perspectiva de envelhecer sozinho.

É um tema ao qual ele retorna repetidas vezes em seu livro, assim como seu desejo de ter filhos. Eu espero que consiga.

Johar pode não ter proferido aquelas três palavras mágicas, mas sua vida e trabalho são um retrato de coragem. Ao observá-lo no papel de anfitrião naquela noite, não pude deixar de pensar que, apesar de todas as suas contradições, ele é um homem que fez mais do que qualquer outro para tornar a Índia segura para o amor.

Mas gostaria que ele fosse não apenas corajoso, mas feliz e, não é preciso dizer, gay.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos