Na Argentina, o debate pelo direito das mulheres controlarem seus corpos leva a "protesto topless"

Jordana Timerman*

Em Buenos Aires (Argentina)

  • Natacha Pisarenko/AP

No mês passado, três mulheres em uma cidade litorânea argentina decidiram tomar banho de sol sem a parte de cima de seus biquínis. Poderia não ser nada de mais, mas a queixa de um turista atraiu 20 policiais e seis viaturas até a praia, que ameaçaram as mulheres de prisão a menos que se cobrissem. O episódio rapidamente provocou um debate nacional, levando a manifestações chamadas "tetaços". No início de fevereiro, quase 2.000 mulheres se reuniram em locais diferentes por todo o país (fazendo topless ou vestidas) para exigir seu direito de desnudarem seus seios.

Se o próprio debate parece provincial, as reações foram excessivas. As manifestantes com mamilos pintados com glitter pareciam carecer da dignidade e transcendência das Viajantes da Liberdade, que desafiaram silenciosamente a segregação racial no Sul dos Estados Unidos. Mas as mulheres com as quais falei, parte das aproximadamente 600 reunidas em 7 de fevereiro sob o Obelisco de Buenos Aires, exigiam muito mais do que a liberdade de poderem praticar topless.

O protesto provocador delas desafiava a visão de muitos homens argentinos que acreditam ser donos dos corpos das mulheres, que rotineiramente abusam e com frequência agridem com intenção de matar. Muitos das manifestantes associaram a repressão social aos corpos das mulheres à violência de gênero em mensagens escritas em seus próprios peitos nus.

"Igualdade" aparecia em vários desses cartazes humanos. "Não pediremos permissão" ressaltava os seios de uma mulher. "Eu decido", estava escrito nos de outra. "O que é obsceno é sermos assediadas, ameaçadas, atacadas sexualmente, empaladas, queimadas, torturadas, assassinadas" proclamava um cartaz manuscrito.

As normas sociais que buscam controlar a aparência ou ações das mulheres as desvalorizam como membros iguais da sociedade. Elas tornam o corpo feminino, ligado a mulheres reais que não atendem aos ideais misóginos de submissão, um prêmio de consolação para homens no limite.

Uma mulher é morta a cada 30 horas em meu país, apenas por ser mulher. No mesmo dia do protesto, a notícia de um massacre dominou as manchetes: três mulheres e dois homens foram assassinados por um homem com histórico de violência contra mulheres. Uma mulher de 42 anos foi morta com um martelo neste mês em seu quarto. E esses são apenas alguns dos casos mais recentes. A Argentina nem mesmo é o país mais perigoso para as mulheres em uma região cada vez mais preocupada com assassinatos motivados por gênero. Em média, 12 mulheres latino-americanas e caribenhas são vítimas por dia. Mas centenas de mortes muito noticiadas nos últimos anos provocaram uma onda de ativismo aqui e ajudaram a mobilizar o movimento #NiUnaMenos (mais nenhuma) desde 2015.

Os assassinatos de mulheres costumam ser considerados crimes de paixão. Na América Latina, os perpetradores costumam culpar acessos de fúria ou ciúmes, ou suspeitas de infidelidade (basicamente, as tentativas da mulher de escapar do controle masculino) por suas ações. O mito de que uma mulher aprecia assovios, mesmo quando são vulgares, era amplamente aceito até recentemente. Parecemos incapazes de escapar da velha desculpa de que minissaias justificam estupro. Vivemos em um país onde seios são um item de consumo, portanto algo a ser possuído (e punido) pelos homens.

"O único seio que é ofensivo é aquele que não pode ser comprado", segundo as organizadoras do tetaço.

Ativistas na Argentina argumentam que uma mudança cultural é necessária para combater a violência de gênero. Elas apontam para a hipocrisia de uma sociedade que é bombardeada por imagens de mulheres seminuas na mídia, mas que também proíbe que as mulheres mostrem seu corpo à vontade. As protagonistas do tetaço de Buenos Aires, talvez de forma inadvertida, mostraram como poderia ser a batalha por essa mudança. Por poucas horas, no centro caótico da cidade, seus exemplos de carne e osso de corpos femininos reais contrabalançavam as imagens hipersexualizadas na mídia que passamos a aceitar como reais.

Mulheres de todas as formas e tamanhos se reuniram sob o Obelisco: grisalhas, com crianças no colo, adolescentes com cabelo tingido nas cores do arco-íris. Um pai cuidava de seis meninos enquanto a mãe deles protestava. Mabel Silva, que veio sozinha, me disse que queria dar o exemplo para suas filhas e netas. Ela me assegurou, no meio da multidão, que deseja mudar a cultura patriarcal. Grupos de amigas ousavam se despir, graças à proteção de outras mulheres e abundância de tinta usada para proporcionar um último vestígio de modéstia. Elas riam, primeiro de nervoso, depois de alegria.

"A violência contra os corpos das mulheres se tornou normal", disse Lola Jufra, integrante do grupo feminista Nosotras Humanistas. "Se não podem tolerar isto, não podem tolerar nada", ela acrescentou, de seios nus.

As manifestantes enfrentavam o olhar hostil dos espectadores que lotavam a área. "Fora machos, fora", cantavam as mulheres enquanto forçavam os homens a saírem do caminho, assim como fotógrafos intrusivos. Amargurados, muitos homens racionalizavam sua rejeição, chamando as manifestantes de lésbicas (apenas aberrações não apreciariam tanta salivação). Eles denegriam o apelo estético das mulheres. Talvez esperassem uma festa da Playboy à beira da piscina em vez dos torsos reais em desfile. Observadores mais razoáveis notavam a aparente contradição entre o protesto provocador das mulheres e sua fúria com o tipo previsível de atenção que atraía. Mas isso ignora o sentido: as mulheres querem descer do pedestal que as eleva como alvos.

"Não viemos mostrar nossos seios, viemos mostrar que somos livres", dizia o cartaz de uma manifestante.

É claro, um grupo de mulheres combativas forçado a se cobrir em uma praia argentina não é o mesmo que os assassinatos que causaram comoção regional. O fato de ambas as coisas fazerem parte do mesmo contínuo não deixa implícito que proibir seios nus em público automaticamente leva ao assassinato de mulheres.

Todavia, há uma conexão entre uma cultura de violência contra as mulheres e uma sociedade obcecada por seios que se escandaliza quando seios femininos escapam do controle desde as telas, manipulação por Photoshop ou decotes habilmente exagerados, até a amamentação em espaços públicos ou prática de topless na praia. Esse simbolismo carregado ligado a corpos reais provou ser perigosamente inflamável.

É improvável que o topless se torne a moda dominante em nossas ruas. Mas a liberdade dos tetaços nos permite vislumbrar como seria uma sociedade que rejeita a violência recorrente do machismo e do sexismo. Não dá para deixar de desejar que essas lufadas de ar fresco se tornem mais frequentes.

*Jordana Timerman é uma jornalista argentina e editora do "The Latin American Daily Briefing"

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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