John Lennon x Steve Bannon: uma batalha pela alma ocidental

Jochen Bittner*

Em Hamburgo (Alemanha)

  • Wolfgang Rattay/Reuters

    Carro alegórico ilustram a chanceler alemã, Angela Merkel, e seu principal opositor nas eleições no país, Martin Schulz, em Colônia (Alemanha)

    Carro alegórico ilustram a chanceler alemã, Angela Merkel, e seu principal opositor nas eleições no país, Martin Schulz, em Colônia (Alemanha)

Enquanto Angela Merkel se prepara para a eleição, uma chance de o centro político se redefinir

Uma das poucas coisas que unem a América à Europa hoje em dia é a fissura que se aprofunda em suas sociedades. Duas eleições cruciais se aproximam, na França em maio e na Alemanha em setembro, e está na hora de avaliarmos essa brecha perigosa. Não é "nós contra eles". É "nós contra nós": um choque interno de ideologias no Ocidente.

Esse choque aparece de diferentes maneiras, mas é fundamentalmente sobre o mundo em que os cidadãos do Ocidente preferem viver. Chamem-no de "mundo de Lennon" contra o "mundo de Bannon". Nenhum deles é sustentável.

O mundo de Lennon é o dos liberais cosmopolitas, resumido na canção "Imagine" de John Lennon: "Imagine que não há países", canta ele, "uma irmandade humana". O mundo de Bannon é o oposto: um lugar de muros e regras, dirigido por homens-fortes inflexíveis.

Na medida em que nas cidades americanas e em grande parte da Europa, pelo menos, o mundo de Lennon já é uma realidade, os defensores do mundo de Bannon são os revolucionários. Como explicou seu epônimo, o principal estrategista do presidente Trump, Stephen Bannon, "eu quero fazer tudo desmoronar, destruir todo o establishment atual".

Em nenhum lugar esse racha se apresenta tão claramente quanto na Alemanha, onde uma crescente direita bannonista se posicionou contra os social-democratas de centro-esquerda e os democrata-cristãos de centro-direita, ambos os quais tendem a uma versão da visão de mundo lennonista.

Ao contrário da França, aqui a centro-esquerda é forte; ao contrário dos EUA, aqui a centro-direita não tem interesse em cooperar com a extrema-direita, ou ser dominada por ela.

É claro que os alemães também aprenderam com as experiências americana e britânica em 2016, sendo uma lição crucial que é um erro, política e moralmente, descontar toda a base eleitoral de extrema-direita como "deplorável". É preciso encontrar um meio-termo, não apenas para vencer em setembro, mas também para governar depois.

Então o que é essa terceira via intermediária? Para se ter uma ideia, é preciso delinear os mundos conflitantes dos Lennons e Bannons.

O lennonismo tem vários princípios chaves. Primeiro, as fronteiras são um conceito artificial. Todo ser humano é um cidadão do mundo, e é um direito universal de qualquer pessoa viver onde ela desejar.

Como os indivíduos têm direito ao livre movimento, o mesmo deve valer para a livre movimentação de bens. O livre comércio beneficia a todos os países que dele participam. Ele promove a riqueza e a construção de redes transnacionais e, portanto, a paz.

Os lennonistas também acreditam que a internacionalização é inevitável. Enquanto alguns cidadãos podem ter preocupações sobre a cooperação internacional cada vez mais estreita e a soberania compartilhada, quando eles perceberem os benefícios sua lealdade política se confirmará.

As elites apenas precisam tentar firmemente convencer os indecisos, porque eles não conhecem o suficiente os mecanismos que governam o mundo interconectado de hoje.

No que se refere a questões de fé, os lennonistas acreditam que a religião não deve separar a humanidade e que o islã é uma religião de paz. Ela deve ser vista estritamente como separada do islamismo, um conceito político. E, é claro, uma proibição aos muçulmanos é uma clara violação dos direitos humanos.

O papel das mulheres é igualmente um ponto de destaque. Uma fronteira social predominante é o "telhado de vidro": os homens se tornaram tão habituados a exercer o poder político, econômico e cultural que não reconhecem sua própria hegemonia. É por isso que o feminismo continua sendo um movimento de emancipação legítimo e necessário.

Finalmente, a União Europeia é a maior expressão de todos esses princípios, e a nave para fazê-los avançar. Qualquer pessoa que ataque a união, portanto, ataca a paz, o progresso e a riqueza.

O bannonismo se posiciona como uma reação a esses princípios, mas é mais que isso. Ele vê as fronteiras como um pré-requisito para que as nações exerçam seu direito absoluto a definir quem as define e como elas expressam sua identidade cultural. O livre movimento de pessoas não é uma heresia, mas deve ser sopesado contra esse interesse.

A mesma regra se aplica à movimentação de bens. O livre comércio está OK, desde que não seja um fim em si e beneficie o país em questão.

Assim como o lennonismo, o bannonismo é mais ou menos secular, embora dê mais espaço para a cultura judaico-cristã. No que ele difere, porém, é em sua crença em que o islã não é uma religião, e sim uma ideologia agressivamente antiocidental, intolerante e antiliberal, voltada à conquista global. Segue-se, portanto, que uma proibição à imigração muçulmana se justifica.

Mas o bannonismo é também uma crítica do lennonismo. Ele afirma que depois da queda do Muro de Berlim em 1999 as elites liberais esqueceram os legítimos interesses do Estado-nação. Essa mesma crença continua ofuscando as diferenças entre homens e mulheres e confunde direitos iguais com igualdade.

O feminismo, no entender dos bannonistas, é uma ideologia polarizadora construída sobre a alucinação de que as sociedades ocidentais são patriarcados e que os homens são inimigos das mulheres.

É desnecessário dizer que, para os bannonistas, a UE personifica tudo o que há de errado na atual situação do Ocidente. Bruxelas mantém seus países membros e cidadãos pequenos e fracos, em vez de torná-los grandes e livres.

A crise financeira que começou em 2008 deveria ter oferecido uma oportunidade de buscar um terreno comum; em vez disso, os dois lados recuaram para o pensamento tribal, demonizando o outro como racista ou ingênuo.

A chanceler alemã, Angela Merkel, que disputará seu quarto mandato neste outono, deixou claro que ela quer que seu país evite as crises que esse choque intraocidental produziu no Reino Unido e nos EUA.

De fato, um motivo pelo qual ela se candidata é posicionar-se como um antídoto ao trumpismo: "Nós não queremos nos odiar, preferimos discutir como democratas", disse Merkel na primeira entrevista depois de sua decisão de entrar em campanha. "A pergunta é: 'O que eu posso fazer pela coesão de uma sociedade tão polarizada?'"

Sua resposta ainda não está muito clara. O que está claro é que ela finalmente encontrou um adversário digno no candidato social-democrata ao cargo, Martin Schulz, estabelecendo uma campanha que poderá ser exatamente a conversa que os lennonistas e os bannonistas precisam ter.

Schulz, ex-presidente do Parlamento Europeu, projetou-se como o típico homem comum (ele salienta com orgulho que não se formou no colégio) e promete tornar a sociedade alemã novamente justa.

O efeito Trump é óbvio: empurrado pela direita populista, o debate político na Alemanha está se abrindo, com os dois partidos estabelecidos não mais disputando o mesmo espaço seguro no centro político. Eles estão sobretudo identificando outros espaços políticos, ainda na corrente dominante, dos quais poderão atrair um leque maior de eleitores.

Espere três coisas nos próximos meses: uma linha mais dura do governo em relação aos imigrantes ilegais, para conter os efeitos da política de fronteiras abertas de Merkel; um debate sobre uma forma de reparar as brechas sociais e econômicas criadas pela europeização; e um reenfoque em uma parte do eleitorado que se sente abandonado por um debate público que lidou demais com questões como gênero e muito pouco com problemas prementes como a falta de moradias.

No que tanto Merkel quanto Schulz concordam é que eles têm de reforçar o sentimento de participação nacional, sem recorrer à retórica antagonista ou nacionalista do "Alemanha primeiro". Uma pequena dose de política de identidade também poderia, aliás, ajudar a oferecer aos jovens muçulmanos um espaço psicológico mais interessante do que o vendido pelo islamismo político.

Assim, enquanto o Brexit, o presidente Trump e a extrema-direita europeia continuarão provocando ondas, também podemos ver a emergência de um novo e promissor diálogo vindo do centro: uma atenção à desigualdade e à injustiça em casa e um verdadeiro compromisso com apoiar a vida daqueles que se sentem abandonados --mesmo ao custo do progresso para metas internacionalistas.

Hillary Clinton pode ter falhado exatamente nesse ponto, ao permitir que os bannonistas tomassem a liderança em Washington. Mas esse é o começo da história, e não o fim. O próximo capítulo se desenrolará na Alemanha.
 

*Jochen Bittner é editor de política do jornal semanal "Die Zeit" e colabora com editoriais
Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos