Marine Le Pen e o populismo podem ser contidos na França?

Sylvie Kauffmann*

Em Paris (França)

  • Robert Pratta/ Reuters

Agora sabemos. Sabemos sobre os problemas das eleições, sobre previsões erradas e pesquisas inconfiáveis, sobre suposições cegas de muitos de nós na mídia de que os eleitores tendem a pensar como nós.

Sabemos que a maioria dos eleitores britânicos decidiu que seu país deve sair da UE, sabemos que Donald Trump foi eleito presidente dos EUA, sabemos que Geert Wilders, o candidato populista que gosta de chamar a si mesmo de "o Trump holandês", provavelmente sairá vencedor da eleição parlamentar na Holanda na próxima semana. Sabemos do desrespeito do governo nacionalista polonês pelo Estado de direito.

Então agora também sabemos que a possibilidade de Marine Le Pen ser eleita presidente da República da França em 7 de maio não é mais impossível.

É verdade, todos os cálculos racionais tendem a mostrar outra coisa: o sistema eleitoral francês sabiamente não deixa os eleitores esfriarem a cabeça durante duas semanas entre o primeiro e o segundo turnos? Não temos uma tradição de nos unirmos por trás do candidato "democrata" no final, como fizemos em 2002 quando Jacques Chirac enfrentou o pai de Marine, Jean-Marie Le Pen, no segundo turno? O telhado de vidro de 50% dos eleitores não é inquebrável para um candidato extremista?

Mas os cálculos racionais não enganam mais ninguém. Estes não são tempos racionais. Conforme passam as semanas e os meses, o veredicto de Le Pen sobre a vitória de Trump continua assombrando alguns de nós: "O que parecia impossível", disse ela em 9 de novembro, "agora é possível."

Estamos nos preparando para o impossível possível. "A ameaça é real", admitiu em público o presidente François Hollande pela primeira vez no último fim de semana, quando lhe perguntei em uma entrevista se a vitória de Le Pen mataria o projeto europeu. "Mas a França não desistirá."

A barragem conseguirá suportar? Esta é uma campanha francesa como nenhuma outra. Todos os critérios políticos estabelecidos desde 1958, quando a atual Constituição foi adotada, desmoronaram. A Frente Nacional tem sido um elemento fixo na política nacional há 40 anos, mas nunca seu candidato presidencial foi um dos primeiros colocados na disputa. Hoje, nenhum dos adversários de Le Pen duvida que ela chegará ao segundo turno; na verdade, eles nem sequer a estão combatendo. Estão lutando entre si pelo segundo lugar em 23 de abril, para ter uma chance de vencê-la no segundo turno.

Nunca antes um presidente francês em exercício decidiu não disputar um segundo mandato, como fez Hollande em dezembro, reconhecendo sua popularidade historicamente baixa. Nunca todas as figuras estabelecidas da vida política francesa foram atiradas tão brutalmente nas eleições primárias como as que enviaram Nicolas Sarkozy para a aposentadoria e esmagaram as antigas ambições de Manuel Valls.

Uma nova palavra foi criada para essa tendência impiedosa: "le dégagisme" ("dégagez" significa "saia daqui"). Tendo percebido a sede de renovação dos eleitores, um número surpreendente de legisladores --aproximadamente um quarto da atual Assembleia Nacional-- não disputará a reeleição ao Parlamento em junho.

Enquanto Le Pen dispara confiantemente, mantendo o roteiro e fazendo progressos entre as mulheres, agricultores e eleitores desiludidos da classe média, o partido de direita na corrente dominante oferece o espetáculo mais desconcertante que qualquer eleição já presenciou.

Diante de acusações de ter dado a sua mulher e seus filhos empregos de quase US$ 1 milhão na folha de pagamento do Parlamento, François Fillon, um ex- primeiro-ministro conservador que hoje é o candidato republicano, interrompeu a campanha. Toda a sua energia é dedicada a combater essas acusações e a prometer repetidamente enfrentá-las. Negociações de bastidores envolvendo barões do partido deixaram de produzir um candidato alternativo, ou de convencer Fillon a desistir. Assessores graduados e políticos aliados o abandonaram.

Cada vez mais desesperado, ele atacou os juízes que cuidam do caso, acusando-os e à imprensa de realizar um "assassinato político" e de tentar "matar a eleição presidencial". A França, afirma ele, está em um estado de "quase guerra civil".

Assim, Marine Le Pen pode continuar firme: Fillon faz o serviço por ela. Le Pen tem suas próprias preocupações judiciais por falsos empregos para assessores da Frente Nacional no Parlamento Europeu, mas quem se importa quando tanta atenção se concentra em seu adversário?

O partido da direita tradicional costumava ser a máquina política impiedosa e bem azeitada de Sarkozy. Hoje parece uma ruína em zona de guerra. Como diria Trump, uma confusão. Ele adoraria isso.

Quanto à esquerda, refletindo a crise dos partidos social-democratas na Europa, está tão dividida e fraca que talvez não chegue ao segundo turno. Os ambientalistas desapareceram como força política. A se acreditar nas pesquisas, o candidato com maior probabilidade de enfrentar Le Pen no segundo turno é Emmanuel Macron, 39, que não representa nenhum partido político e nunca teve um cargo eletivo.

Esse ex-ministro da Economia carismático e antigo banqueiro de investimentos de Rothschild surfa em uma onda "progressista" nem à esquerda nem à direita, que está atraindo os eleitores pró-UE e pró-globalização decepcionados com os partidos da corrente dominante, mas firmemente opostos à ascensão do populismo e do nacionalismo.

Sua agenda reformista, totalmente pró- Europa, "radicalmente transformadora", como ele a descreve, enfatiza a responsabilidade individual enquanto ajuda os trabalhadores a se adaptarem a uma economia globalizada. Nessa caótica paisagem política francesa em 2017, uma divisão nacionalista-internacionalista parece estar dominando a disputa tradicional entre esquerda e direita.

Essa é a grande batalha política pela alma da Europa. Com a aproximação em 25 de março do 60º aniversário do Tratado de Roma, o documento fundacional da União Europeia, os parceiros da França estão ansiosamente observando cada passo desta campanha. Em Berlim, a ansiedade chega às bordas do pânico: nunca houve apostas tão altas no futuro do projeto europeu.

Desprezada pelo presidente americano, atacada pela Rússia, abandonada pelo Reino Unido, a UE, tendo a França e a Alemanha como seus pilares, precisa se reunir para um novo início. A eleição na França de uma presidente de extrema-direita e eurofóbica, que promete deixar a zona do euro, mataria esse sonho. O ministro das Relações Exteriores de Luxemburgo, Jean Asselborn, disse ao jornal "Der Tagesspiegel" na semana passada que uma vitória de Le Pen levaria a UE "à beira do abismo".

A França poderá conter a onda de populismo? É disso que trata esta eleição. Alguns especialistas já estão especulando que se a líder da Frente Nacional for eleita não conseguirá reunir uma maioria parlamentar na eleição de junho. O resultado mais provável seria então uma "coabitação", em que uma presidente Le Pen teria de trabalhar com um primeiro-ministro e um governo de centro-direita ou centro-esquerda. Nesse caso, os dois blocos teriam de negociar um compromisso sobre algumas questões cruciais, sendo a primeira salvar o euro.

É aí que estamos. Como diz o ditado, vamos esperar pelo melhor, mas prepararem-se para o pior.

*Sylvie Kauffmann, diretora-editorial e ex-editora-chefe do jornal "Le Monde", colabora com artigos de opinião. 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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