Rex Tillerson, o alto diplomata de baixa intensidade dos EUA

P.J. Crowley

Em Washington (EUA)

  • Eugene Hoshiko/AP

    O secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, chega para encontro com o premiê japonês, Shinzo Abe, em Tóquio, no Japão

    O secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, chega para encontro com o premiê japonês, Shinzo Abe, em Tóquio, no Japão

O serviço diplomático visa defender os interesses americanos no exterior, mas esse propósito está sendo colocado em risco por um vácuo de liderança

Os Estados Unidos são o único país com uma política externa realmente global. Mas o governo Trump não tem muito a dizer a respeito.

Em seu primeiro dia como secretário de Estado, Rex W. Tillerson prometeu "empregar o talento e recursos do Departamento de Estado da forma mais eficiente possível". Por "eficiente", diga-se minimalista. Durante suas duas primeiras viagens ao exterior, para a Alemanha e o México, suas declarações públicas somaram 625 palavras no total. Seu antecessor, John Kerry, poderia ter usado o mesmo número de palavras para responder uma única pergunta em um de seus encontros frequentes com a imprensa.

Nesta semana, Tillerson visitou o Japão, a China e a Coreia do Sul tendo como pano de fundo as crescentes tensões regionais devido aos recentes testes de mísseis da Coreia do Norte. Normalmente, o secretário de Estado estaria acompanhado por cerca de uma dúzia de repórteres, mas Tillerson deixou o corpo de imprensa do Departamento de Estado para trás, oferecendo um único assento em seu avião a um veículo conservador obscuro que dedica mais atenção às guerras culturais nos Estados Unidos do que à política externa.

Isso segue um padrão. Ministros da Arábia Saudita, da Tunísia e da Grécia visitaram o Departamento de Estado nos últimos dias para reuniões bilaterais. Houve fotos de apertos de mão, mas o secretário não tinha nada a dizer sobre como os Estados Unidos veem os desafios enfrentados por esses importantes aliados ou como poderiam ajudar.

Na semana passada, o Departamento de Estado divulgou seu relatório anual de direitos humanos. Tillerson escreveu uma introdução, mas não fez nenhuma apresentação dos resultados do relatório, outra mudança em relação às práticas do passado. A divulgação discreta, interpretada como um rebaixamento dos direitos humanos como uma prioridade política, provocou uma forte crítica do senador Marco Rubio.

Que executivo corporativo abandonaria toda propaganda e marketing ao aprender um novo cargo? Na prática é o que Tillerson tem feito. Não houve nenhum briefing diário para a imprensa por seis semanas. Na era moderna, isso nunca ocorreu. "Ele não é um sujeito de mídia", reconheceu recentemente um funcionário.

Mas não se trata de uma aversão pessoal de Tillerson aos holofotes. Trata-se de um vácuo na diplomacia pública americana.

Quando ele se encontrou com o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey V. Lavrov, pela primeira vez, o Kremlin, não exatamente um modelo de governo aberto, forneceu mais detalhes do encontro do que o Departamento de Estado. Sem um contingente da mídia americana em Pequim, o governo chinês preencherá as lacunas em relação às suas discussões com Tillerson.

Com o Departamento de Estado calado, o presidente Trump serve como a voz dominante da política externa americana. "Tuítes são políticas?", perguntou o corpo diplomático à cadeia de comando no departamento. Quem sabe dizer? Como resultado, os Estados Unidos agora parecem ter duas políticas externas, com frequência conflitantes: uma proveniente dos comentários improvisados de Trump e outra de seus funcionários de segurança nacional.

O presidente sugeriu que os Estados Unidos deveriam simplesmente tomar o petróleo iraquiano. O secretário de Defesa, James Mattis, disse que não faríamos algo assim. O presidente insinuou que os Estados Unidos usariam as Forças Armadas para deportar mais imigrantes. O secretário de Segurança Interna, John F. Kelly, insistiu que não. O presidente prometeu encontrar uma causa comum com a Rússia. A embaixadora nas Nações Unidas, Nikki Haley, reiterou as preocupações com as atividades da Rússia na Ucrânia e na Síria. O presidente chamou o "terrorismo radical islâmico" de principal adversário dos Estados Unidos. O novo conselheiro de segurança nacional, o general de Exército H.R. McMaster, disse que o termo não é de ajuda.

Os primeiros dois meses de Trump na presidência deveriam ser supostamente de "choque e pavor" político. Em vez disso, tivemos políticas chocantes e pavorosas.

A continuidade do atrito entre Trump e o establishment de segurança nacional republicano é um grande problema. A escolha de Tillerson para vice-secretário de Estado, Elliott Abrams, foi rejeitada pela Casa Branca por causa das críticas feitas por Abrams a Trump durante a campanha.

O secretário não contribuiu para o Departamento de Estado ao demitir vários altos funcionários de carreira sem já dispor de substitutos. Sem líderes confiáveis para seus birôs regionais, o departamento é incapaz de moldar a política externa de Trump. Os embaixadores carecem de orientação do quartel-general.

"Os diplomatas de carreira se sentem debilitados e ignorados", me disse um embaixador aposentado. Como resultado, a Casa Branca está "privada da perícia genuína que tornaria a implantação da agenda do presidente mais bem-sucedida e menos errática".

O próprio Tillerson estava ausente quando o presidente Trump realizou sua primeira rodada de recepção a líderes estrangeiros. Em múltiplas ocasiões, o ministro das Relações Exteriores do México veio a Washington e seguiu para a Casa Branca, já que as respostas em relação ao futuro do muro e do Acordo de Livre Comércio da América do Norte estavam lá, não no Departamento de Estado.

Certamente toda Casa Branca estabelece as políticas centrais para o mandato político do presidente, mas a Casa Branca de Trump tem semeado um grau perigoso de incerteza a respeito das questões estratégicas mais amplas do papel dos Estados Unidos no mundo e seu compromisso com a ordem internacional. Quando a chanceler Angela Merkel da Alemanha se encontrar com Trump nesta sexta-feira, essas preocupações vitais deverão ser sua prioridade.

Que visão predominará: o ponto de vista realista tradicional, internacionalista, das autoridades de segurança nacional de Trump, ou a visão nacionalista sombria de Stephen K. Bannon e seu Grupo de Iniciativas Estratégicas?

No início de todo governo, há histórias sobre disputas por influência, quem conta com mais atenção do presidente e quem fica de fora. Parte disso pode ser desdenhado como detalhes internos que não são de interesse do público, mas os pares de Tillerson ao redor do mundo estão ocupados calculando se o secretário de Estado fala em nome do presidente e quanta influência ele tem no governo.

No momento, a diplomacia dos Estados Unidos parece estar em recuo. O presidente disse recentemente à Conferência de Ação Política Conservadora: "Não estou representando o mundo".

A proposta orçamentária de quinta-feira do presidente confirma os cortes profundos previstos no orçamento das relações exteriores, que financia a diplomacia e a ajuda para desenvolvimento. Diante da formação empresarial do presidente Trump e do secretário Tillerson, podemos presumir que o dinheiro fala mais alto.

Em seu discurso ao Congresso, o presidente usou sua retirada do acordo comercial Parceria Transpacífico como deixa para aplausos. Trump diz que os Estados Unidos não mais estão vencendo, mas interpreta de forma equivocada a complexidade como declínio. Na verdade, os Estados Unidos conseguem o que desejam com mais frequência do que não, graças não apenas à projeção de poderio militar, mas também devido ao seu serviço diplomático posicionado em todo o globo.

Para os diplomatas de carreira, não há nada controverso em colocar a América em primeiro lugar. Eles são crentes ardorosos no excepcionalismo americano. Onde Trump vê um mundo de soma zero, os diplomatas são treinados para vê-lo em termos de soma positiva. Mas o início do governo Trump tem provocado profundas dúvidas em suas fileiras.

O Departamento de Estado está singularmente posicionado para ajudar o governo Trump a ir além de sua mentalidade de fortaleza. Mas para fazê-lo, o secretário de Estado precisa ser mais visível e se fazer ouvir.

"Nós representamos os Estados Unidos", disse um funcionário. "Mas não sabemos mais o que isso significa."

P.J. Crowley, que serviu em altos cargos no Pentágono, na Casa Branca e no Departamento de Estado nos governos Clinton e Obama, é professor da Universidade George Washington e autor de "Red Line: American Foreign Policy in a Time of Fractured Politics and Failing States", ou "Linha Vermelha: a política externa americana em um momento de política fraturada e Estados fracassados", em tradução livre, não lançado no Brasil.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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