Análise: Cerco de junta militar tailandesa a monge popular esconde disputa por poder

Pavin Chachavalpongpun*

  • Chaiwat Subprasom/Reuters

    Oficiais do Departamento de Investigações Especiais caminha pela área do templo Wat Phra Dhammakaya durante inspeção, na Tailândia

    Oficiais do Departamento de Investigações Especiais caminha pela área do templo Wat Phra Dhammakaya durante inspeção, na Tailândia

Sempre inseguro, o governo militar tailandês está atrás de um controverso monge budista

O cerco ao templo perto de Bangcoc foi suspenso na última sexta-feira e o abade permanece foragido. Alguns dizem que ele está no exterior, outros dizem que está morto. Mas o governo militar do general Prayuth Chan-ocha ainda está caçando Phra Dhammachayo, o controverso líder espiritual do movimento Dhammakaya, uma poderosa seita budista.

Por 23 dias, a polícia tailandesa bloqueou o acesso ao amplo complexo de Dhammakaya, fora de Bangcoc e o revistou à procura de seu antigo abade. Phra Dhammachayo é procurado por desfalque e lavagem de dinheiro, entre outras coisas. O porta-voz do templo negou as acusações. Os apoiadores do abade alegam que as acusações são politicamente motivadas.

Mas a saga curiosa desse clérigo possivelmente desviado também diz muito a respeito da crescente insegurança da junta militar governante. Para reprimir a dissidência, o governo militar está disposto a invadir abertamente a esfera religiosa e reprimir um líder budista muito popular. E essa história poderá em breve se tornar uma de alerta.

Dhammakaya é o maior e mais influente templo na Tailândia. Ele ganhou fiéis, especialmente entra as classes baixa e média, graças ao tipo de evangelho da prosperidade budista que defende meditação, trabalho voluntário e doações. Ele reapresenta conceitos tradicionais budistas de forma acessível, incluindo peregrinações que parecem carnaval e programas de TV. Seu prédio principal parece uma nave extraterrestre gigante. Estima-se que Dhammakaya tenha 3 milhões de seguidores, incluindo empresários e políticos poderosos.

Membros da família real parecem patrocinar a seita e acredita-se que tenham ajudado a pagar pelos prédios em seu complexo principal. Mas o movimento é mais conhecido pela suspeita de laços com o ex-primeiro-ministro Thaksin Shinawatra, que foi derrubado em um golpe militar em 2006, e sua irmã, Yingluck, que foi derrubada pela junta atual, em 2014, após ela também se tornar primeira-ministra.

Phra Dhammachayo foi acusado de desfalque no final dos anos 1990 e afastado de sua posição. Mas ele foi inocentado das acusações e reempossado como abade após Thaksin se tornar primeiro-ministro. Muitos apoiadores de Shinawatra, mais conhecidos como camisas vermelhas, são seguidores fiéis de Phra Dhammachayo.

Assim como Thaksin desafiou o domínio político das tradicionais elites tailandesas (os monarquistas, os militares e as grandes empresas), a forma impetuosa de budismo de Dhammakaya ameaça o sistema de crença dos tailandeses conservadores. Juntos, os Shinawatras e esta seita parecem minar as formas tradicionais de autoridade, de modo que no entender da junta, devem ser silenciados.

O budismo é uma ponta da trindade sagrada que forma a identidade tailandesa, juntamente com a nação e a monarquia. É a religião oficial do Estado e matéria obrigatória nas escolas públicas. O rei é considerado o patrono supremo do budismo e o porteiro da Sanga, a ordem monástica budista.

As tensões entre Dhammakaya e o governo de Prayuth estavam fadadas a chegar ao ápice após a morte do rei Bhumibol Adulyadej, em outubro. Bhumibol governou por sete décadas, em parte forjando fortes laços com os militares e com as elites baseadas em Bangcoc.

Mas nos últimos anos, os Shinawatras desafiaram essas redes tradicionais, contestando tacitamente a autoridade moral do rei, ao apelar aos eleitores rurais com projetos populistas. Os militares teriam realizado o golpe de 2014 na esperança de conduzirem a sucessão real iminente de formas que salvaguardassem os interesses do establishment. Agora também estão tentando controlar o establishment budista.

À medida que a saúde de Bhumibol começou a deteriorar no ano passado e a questão de sua sucessão se tornou uma preocupação urgente, as elites conservadoras passaram a se preocupar com outra mudança de guarda: o Supremo Patriarca, o chefe da ordem dos monges, morreu em 2013 e ainda não tinha sido substituído.

Tradicionalmente, a posição religiosa mais alta vai para o monge mais sênior designado pelo Conselho Supremo da Sanga, a entidade que rege a ordem budista. Nesse caso, o suposto herdeiro seria Somdet Phra Maha Ratchamangalacharn, mais conhecido como Somdet Chuang.

Mas o governo de Prayuth bloqueou essa indicação com base em um suposto escândalo de evasão fiscal envolvendo carros antigos. Talvez mais provável, Somdet Chuang foi mentor de Phra Dhammachayo e desfruta de imenso apoio entre os simpatizantes de Thaksin.

Em janeiro, o governo fez uma emenda à lei de sucessão da Sanga para dar ao rei poder exclusivo de nomear o Supremo Patriarca. Em fevereiro, Maha Vajiralongkorn, o novo rei, escolheu Somdet Phra Maha Muniwong, o abade de uma seita concorrente, contornando o Conselho da Sanga.

Então, em 5 de março, o governo emitiu um comando real, assinado pelo rei, destituindo Phra Dhammachayo de seus títulos religiosos.

Será que o novo rei e os militares estão trabalhando juntos? Quem sabe. Passados quase três anos do golpe, a política tailandesa permanece precária e muito opaca. Vajiralongkorn pediu revisões da Constituição elaborada pela junta, que foi aprovada por um referendo no ano passado. Pode ser que uma troca esteja em andamento. A controversa Constituição ainda não entrou em vigor e, por causa disso, a data da próxima eleição, já adiada muitas vezes, permanece incerta.

Uma grande pergunta é por quanto tempo o povo tailandês tolerará isso, especialmente se o governo Prayuth começar a reprimir os líderes religiosos. No auge do recente cerco ao complexo de Dhammakaya, vários milhares de monges e simpatizantes permaneceram no complexo em protesto contra a ação. O impasse foi a maior manifestação em massa contra a junta desde o golpe de 2014.

A posição dura dos generais dificilmente causa surpresa, dada a insistência deles em calar os críticos no passado. Mas o fracasso deles em erradicar a influência de Thaksin provavelmente o fortaleceu, e se o ataque a Dhammakaya e a interferência em assuntos religiosos foram uma tentativa de reforçar seu controle do poder, eles podem muito bem ter saído disso enfraquecidos.

*Pavin Chachavalpongpun é um professor associado do Centro para Estudos do Sudeste Asiático da Universidade de Kyoto

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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