Opinião: Como Martin Schulz poderia derrotar Angela Merkel

Jochen Bittner*

Em Hamburgo (Alemanha)

  • Tobias Schwarz/ AFP

A Alemanha nunca esteve tão bem. É um dos países mais saudáveis e ricos do mundo. O emprego e as exportações estão em níveis recorde. A confiança dos trabalhadores e dos consumidores é alta. O país impõe respeito no cenário global, não por suas proezas militares, mas por sua força econômica e moral, enquanto sua chanceler é amplamente admirada.

Então como, de repente, um homem da esquerda, cuja agenda pede a expansão do Estado do bem-estar social, que faz campanha como a voz do homem comum e cujo grito de guerra é "Faça a Alemanha justa de novo", tem uma probabilidade real de derrubar a chanceler Angela Merkel na eleição geral em setembro?

Martin Schulz, o desafiante de Merkel, revitalizou o Partido Social Democrata da Alemanha, de centro-esquerda, quase literalmente da noite para o dia. Poucos meses atrás, antes de anunciar sua candidatura, ele tinha cerca de 20% de aprovação, onde se situou na maior parte da década. Hoje tem mais de 30% --uma demonstração de força em uma paisagem política fraturada, com uma extrema-direita insurgente. Em algumas pesquisas, se a eleição fosse hoje, Schulz venceria Merkel por pouco.

À primeira vista, seu sucesso é um mistério. Schulz fez carreira no exterior, como membro e depois presidente do Parlamento Europeu --uma das instituições de Bruxelas que muitos alemães consideram elitistas e fora da realidade.

Mas a resposta não é tão difícil de imaginar. Talvez por ser um rosto relativamente novo na cena política doméstica, ele conseguiu abordar duas ideias desconfortáveis há muito esquecidas pelos políticos.

A primeira é que, apesar do incrível desempenho econômico de seu país nos últimos 20 anos, muitos alemães temem que nem todos tenham se beneficiado igualmente. Muito mais que os países anglo-americanos, a Alemanha vê o crescimento econômico como um ativo nacional, que o Estado deve garantir que seja distribuído com justiça.

E essa é a segunda ideia. O Estado ainda serve a seu propósito máximo de proteger seus cidadãos?

Ambas as ideias eram certezas duas décadas atrás. A Alemanha foi governada por dois partidos políticos dominantes que amplamente concordavam sobre a necessidade de um Estado assistencialista forte, e eles de modo geral entregaram os bens.

Não é mais o caso. Aos olhos de muitos, as forças propulsoras por trás do crescimento durante a era "neoliberal" depois da queda do Muro de Berlim foram a cobiça, o egoísmo e a irresponsabilidade social.

Esses vícios se tornaram dolorosamente visíveis durante as crises financeira e do euro. É fácil desprezar o impacto que essas crises tiveram na Alemanha, já que ela navegou pela primeira relativamente ilesa e ditou os termos da reação na segunda.

Mas os alemães não estavam muito felizes. Enquanto o governo socorreu os bancos domésticos --e países inteiros-- com o dinheiro dos contribuintes, os banqueiros que causaram o quase colapso receberam pagamentos de bônus. Os prejuízos foram socializados, enquanto os lucros foram privatizados.

Os alemães não tinham realmente digerido tudo isso quando Merkel deu outro grande passo: sua decisão de permitir a entrada de um milhão de refugiados e migrantes em 2015 foi conduzida por generosidade, altruísmo e responsabilidade social --tudo muito nobre, mas feito sem grande preocupação aparente pelo que pensava ou desejava o alemão médio.

Para o cidadão comum, esses fatos se resumem em uma pergunta: onde o Estado protegeu os meus interesses em todos esses anos?

O instituto de pesquisas alemão Allensbach revelou que um número em particular teve uma queda acentuada desde o verão de 2015: a porcentagem de alemães otimistas sobre o futuro despencou de 60% para 34%. Os pesquisadores acreditam que a falta de otimismo deriva das dificuldades envolvidas em ter aceitado tantos refugiados ao mesmo tempo.

Os temores, segundo os psicólogos, tendem a se generalizar. Se você fica preocupado com o excesso de estrangeiros, é muito provável que também tenha medo da crise econômica.

É claro, isso não torna os alemães xenófobos ou antieuropeus. Mas é por isso que o programa de Schulz, e dos social-democratas em geral, atingiu um nervo. "As pessoas passaram a ver a globalização e os refugiados como ataques ao seu modo de vida e seus valores", disse um importante social-democrata. "Espere uma campanha eleitoral emotiva, concentrada em justiça, caridade e sentimentos."

É aí que a política social ganha uma dose de política de identidade. A moral importa. Pode importar ainda mais com o enriquecimento da nação. Quanto mais desigualdades forem atacadas e erradicadas, mais prementes parecem as desigualdades restantes.

Merkel começou a falar sobre esses desafios, também, mas ela segue as pegadas de Schulz. E ela é sobrecarregada por seus passos políticos anteriores e a impressão de que é apenas uma pragmática, disposta a mudar de direção conforme indiquem as pesquisas.

Schulz, como homem de Bruxelas, não tem essa bagagem, nem enfrentou grande concorrência entre os líderes social-democratas, muitos dos quais são marcados por terem servido como parceiros menores em uma coalizão com os democratas-cristãos de Merkel.

E embora para alguns o serviço no Parlamento Europeu possa marcá-los como burocratas internacionalistas, Schulz consegue andar na linha fina. A maioria dos alemães ainda acredita na unidade europeia; eles apenas querem ser conduzidos por alguém que ponha seus interesses em primeiro lugar. "O Martin" e "o Donald" não poderiam ser mais diferentes em personalidade, mas nesse sentido Schulz certamente aprendeu uma lição com a recente eleição nos EUA.

Sendo um europeu convicto, Schulz defende a integração europeia com mais emoção que Merkel. Mas ele também se esforça para fazer as pessoas se sentirem novamente em casa no país-Estado.

Sim, partes da candidatura de Schulz podem soar como nacionalismo. Mas poderia ser apenas a social democracia retirada do congelador, onde foi colocada pela esquerda neoliberal nos anos 1990. Tendo a solidariedade como sua principal promessa, não poderia passar sem a ideia de uma comunidade confinada.

Schulz está simplesmente degelando essa ideia. Enquanto a principal mensagem de Merkel nos últimos anos foi "vou proteger os outros", a mensagem da campanha de Schulz é "eu nos protegerei".

*Jochen Bittner é editor de política do jornal semanal "Die Zeit" e colabora como editorialista.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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