Opinião: Como fazer um acordo com a Coreia do Norte?

John Delury

Em Seul (Coreia do Sul)

  • KCNA/Reuters

Enquanto o presidente Donald Trump se esforça para criar uma estratégia para a Coreia do Norte, a voz de um país está ausente do debate público: a da Coreia do Sul. Mas os sul-coreanos suportariam o peso da retaliação se Trump se decidisse por um ataque "preventivo" contra o regime norte-coreano. A paz duradoura na península da Coreia é impossível sem a participação de Seul.

A falta de influência da Coreia do Sul no governo Trump ficou evidente durante a recente visita do secretário de Estado, Rex Tillerson, à Ásia. Ele teve reuniões consideravelmente mais curtas com os sul-coreanos do que com as autoridades de Tóquio, e nem sequer jantou com seus homólogos em Seul. O lado sul-coreano afirmou que Tillerson estava cansado (dando origem a piadas sobre "energia" no Twitter). O secretário retrucou que seus anfitriões não lhe enviaram um convite para jantar.

Os sul-coreanos são parcialmente culpados por estarem marginalizados. O país esteve preocupado no ano passado com um escândalo político que envolveu a presidente Park Geun-hye e acabou levando à sua deposição em 10 de março. O governo substituto nomeado por Park mantém sua posição linha-dura em relação à Coreia do Norte, mas sem legitimidade aos olhos do público.

O vazio político na Coreia do Sul chegará ao fim quando o país eleger um novo líder em 9 de maio, que deverá assumir imediatamente. A eleição terá profundas implicações na península da Coreia, e na política de Trump para a Coreia do Norte.

A oposição liberal é amplamente considerada a provável vencedora, com o porta-estandarte do Partido Democrático, Moon Jae-in, mantendo uma liderança confortável nas pesquisas.

Os conservadores estão em tumulto, tendo se dividido em partidos pró e contra Park; eles ainda têm de encontrar um candidato presidencial que consiga mais de 10% nas pesquisas. As eleições na Coreia do Sul são notoriamente imprevisíveis, mas a decepção do público com a presidente afastada projeta uma sombra sobre o lado conservador.

A política da Coreia do Norte é um dos pontos de divergência mais agudos entre os liberais e os conservadores no Sul. A abordagem conservadora linha-dura foi impopular quando Park assumiu o cargo em 2013. Dede o início, ela parecia procurar o campo intermediário: defendia a construção de confiança com Pyongyang e não fez da desnuclearização uma precondição para o diálogo intercoreano. Mas com o passar do tempo ficou claro que o interesse de Park por melhorar as relações era só conversa. Depois do quarto teste nuclear da Coreia do Norte, em janeiro de 2016, ela voltou abruptamente à retórica dura e às políticas radicais, notadamente fechando o parque industrial conjunto em Kaesong.

Moon quer recuperar o diálogo e a negociação como meio de reduzir as tensões e aumentar a segurança nos dois lados da zona desmilitarizada. Ele defende a expansão de intercâmbios culturais e assistência humanitária para melhorar as relações entre os países, aliviar o sofrimento dos norte-coreanos e incentivar a abertura do Norte. Talvez mais importante, Moon aprova a cooperação econômica em comércio e investimento para ajudar Pyongyang a mudar seu enfoque da segurança para a construção econômica.

Há um bom motivo para se pensar que essa abordagem mais aberta para o Norte seja a melhor maneira de lidar com seu líder supremo, Kim Jong-un.

A atual estratégia, afinal, é um beco sem saída. A defesa antimísseis, os exercícios militares e as sanções econômicas só alimentam o insaciável dilema da segurança. Até o aclamado sistema de Defesa de Área Terminal em Grande Altitude (Thaad na sigla em inglês), implantado no Sul pelos EUA, nada faz para proteger Seul de um ataque. E cada pequena melhora na defesa do Sul leva o norte a desenvolver novas ameaças assimétricas e pode ter efeitos colaterais caros. Por exemplo, as relações de Seul com Pequim pioraram com a implantação do Thaad, que a China considera uma ameaça à sua segurança.

Mas a abordagem liberal se aproveita das ambições de Kim. Assim que assumiu o poder, em 2012, ele prometeu à população que nunca mais teria de "apertar o cinto" e colocou o progresso econômico no centro de sua estratégia. Metade da estratégia, conhecida em coreano como "byungjin", ou "progresso simultâneo", refere-se a melhorar a dissuasão nuclear, o que ocupa todas as manchetes. Mas a dissuasão nuclear só oferece a garantia de segurança sobre a qual Kim possa se dedicar à metade mais ambiciosa do "byungjin": o desenvolvimento econômico.

Kim tomou decisões políticas --reformas agrícolas e empresariais, nomeação de tecnocratas, abertura de novas zonas econômicas especiais e a liberalização do mercado-- que demonstram que suas ambições econômicas são mais que meros slogans. Em um importante discurso no início deste ano, Kim também salientou que está pronto para "dar as mãos" para trabalhar com qualquer um no Sul que queira melhorar as relações intercoreanas.

Essa abertura para que o próximo governo de Seul trabalhe com Kim é também uma oportunidade para Trump. O jogo inteligente para Trump seria retornar às quatro sábias palavras que ele disse sobre Kim durante a campanha eleitoral: "Eu falaria com ele". Os EUA devem rapidamente negociar um acordo bilateral que congele o programa nuclear e de mísseis de Kim.

Os sul-coreanos ficariam aliviados ao ver Trump seguindo a diplomacia prudente, em vez do belicismo insensato, um acordo de "limite e congelamento" daria ao novo governo de Seul uma base melhor para iniciar seu esforço maior de ajudar Kim a levar seu país na direção da integração regional e do crescimento econômico.

Um novo presidente sul-coreano preferiria começar abrindo-se para o Norte com um acordo nuclear EUA-Coreia do Norte implantado. Apesar disso, o próximo líder em Seul deveria avançar na melhora das relações intercoreanas e esperar que Washington acabe enxergando a sabedoria de uma abordagem mais aberta.

*John Delury é professor-associado de estudos chineses na Escola de Graduação em Estudos Internacionais da Universidade Yonsei.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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