Opinião: A arte de um acordo com o Taleban

Richard G. Olson*

Em Washington

  • Rahmat Gul/AP

    Homens observam Cabul a partir do monte Nadir Khan, no Afeganistão

    Homens observam Cabul a partir do monte Nadir Khan, no Afeganistão

A guerra de anos dos Estados Unidos no Afeganistão nos custou centenas de bilhões de dólares e milhares de vidas. Está na hora de termos negociações de paz.

Neste ano, a guerra dos Estados Unidos no Afeganistão atingirá um triste marco, ao superar a Guerra Civil em termos de duração, tendo como referência a retirada final das forças da União do Sul. Somente o conflito no Vietnã durou mais tempo que isso. As tropas dos Estados Unidos se encontram no Afeganistão desde outubro de 2001, como parte de uma força que atingiu seu auge em quase 140 mil soldados (sendo cerca de 100 mil deles americanos) e, estima-se, custou aos contribuintes pelo menos US$ 783 bilhões (R$ 2,45 trilhões).

Apesar desse grande dispêndio, o comandante dos Estados Unidos no Afeganistão, o general John W. Nicholson Jr., pediu recentemente por um modesto incremento no número de tropas para evitar um impasse que deterioraria a situação. O fato de Sangin, na província de Helmand, ter caído nas mãos do Taleban este mês é uma perda tática que pode ser revertida, mas certamente sugere que a situação está ficando pior. Com o plano do governo Trump de aumentar o orçamento militar ao mesmo tempo em que corta o orçamento diplomático, existe um risco de que a política americana em relação ao Afeganistão seja definida em termos puramente militares.

O que está ausente do debate atual é uma afirmação clara de nossos objetivos —e  uma forma de encerrar a guerra afegã ao mesmo tempo em que se preservam os investimentos que fizemos e as conquistas que tivemos, ao custo de aproximadamente 2.350 vidas americanas. Sempre foi claro para oficiais militares de alto escalão como o general David H. Petraeus, que foi o comandante americano no Afeganistão de 2010 a 2011, bem como para diplomatas como eu, que a guerra só poderia terminar com um acordo político, um processo através do qual o governo afegão e o Taleban reconciliassem suas diferenças em um acordo também aceitável para a comunidade internacional.

Os desafios de se conseguir uma reconciliação como essa são tremendos, mas o esboço básico de um acordo é tentadoramente óbvio. Apesar de mais de 15 anos de guerra, os Estados Unidos nunca tiveram uma disputa fundamental com o Taleban em si; foi o fato de o grupo abrigar a Al Qaeda que levou à nossa intervenção após os ataques do 11 de setembro. O Taleban, por sua vez, nunca expressou qualquer desejo de impor sua ideologia medieval fora do Afeganistão, e certamente não nos Estados Unidos.

Os principais requerimentos do governo afegão para um acordo são que o Taleban cesse a violência, rompa com o terrorismo internacional e aceite a Constituição afegã. Já o Taleban insiste que todas as forças estrangeiras devem se retirar. É claro, ambos os lados têm outros desejos, mas os posicionamentos básicos não parecem intransponíveis. Esse é particularmente o caso agora que o Estado Islâmico emergiu no Afeganistão, em conflito tanto com o governo quanto com o Taleban.

Durante o mandato do presidente Ashraf Ghani e do oficial-chefe executivo Abdullah Abdullah, o governo afegão apoiou esforços de conciliação. E não há dúvidas de que os afegãos comuns sejam em sua grande maioria a favor da paz, ainda que a maioria também seja contra uma volta do brutal regime do Taleban dos anos 1990.

Em sua essência, o conflito afegão se dá entre tradicionalistas rurais e modernizadores urbanos, e tem sido assim desde que os comunistas afegãos tomaram o poder em 1978. No entanto, potências regionais também tiveram um papel predatório.

O cínico apoio do Paquistão ao Taleban é meramente a mais visível das estratégias contra riscos que diversos vizinhos, inclusive os iranianos e os russos, adotaram para garantir que eles tenham alguma facção armada afegã obrigada a seus interesses. Um acordo abrangente político removeria o dilema da segurança que provoca essas intervenções contraproducentes.

Então qual é o caminho para se avançar em um processo de paz no Afeganistão?

O primeiro passo é claro, e quase se concretizou ao longo dos anos. O Taleban deveria ter a permissão de abrir um escritório, provavelmente em Doha, no Qatar, para conduzir negociações de paz com o governo afegão. Isso quase foi conquistado em 2013, mas o Taleban foi longe demais ao hastear sua bandeira e colocar placas identificando o escritório como uma representação do "Estado Islâmico do Afeganistão". O governo americano e o governo afegão, durante o mandato do presidente Hamid Karzai, rejeitaram com razão essas insígnias de uma embaixada, e o acordo caiu.

Todos os parceiros em potencial, inclusive o governo do Qatar, aprenderam as lições desse fiasco e têm todos os motivos para evitar repeti-lo. Essa é uma área para uma diplomacia discreta, liderada pelos Estados Unidos.

Uma vez iniciadas as negociações, nosso governo terá de definir sua posição. Mesmo depois de todos esses anos de combates, os Estados Unidos às vezes se ilude pensando que não é parte do conflito; já o Taleban pensa diferente. Em coordenação com nossos aliados afegãos, os Estados Unidos deveriam estar preparados para colocar sobre a mesa as condições sob as quais nós consideraríamos retirar nossas forças do Afeganistão. Qualquer retirada teria de ser executada em fases, de acordo com o cumprimento de promessas do Taleban, incluindo garantias de que o território afegão nunca será usado para possibilitar ataques contra os Estados Unidos.

O aspecto mais difícil da discussão estará entre os próprios afegãos, uma vez que eles abordem as questões centrais que os dividiram por décadas. O posicionamento americano deveria ser garantir que não haja retrocessos no progresso que o Afeganistão fez quanto aos direitos humanos, inclusive os direitos das mulheres, e o governo constitucional.

Como ainda não houve negociações, é difícil avaliar quais seriam as atuais demandas do Taleban. A preocupação deles quanto à Constituição afegã pode ser simplesmente por eles não terem participado de sua escrita. Assim como as constituições de outros países, a do Afeganistão pode sofrer emendas.

Os Estados Unidos precisam permanecer completamente comprometidos em fortalecer o Estado afegão, inclusive dando apoio ao Exército afegão, de forma que a delegação do governo afegão tenha uma posição forte de negociação. Qualquer acordo final terá de incluir os termos sob os quais o Taleban entrará no sistema político através da Constituição, arranjos específicos para garantir que o território afegão não seja usado para atacar outros e compromissos regionais para acabar com a guerra por procuração no território afegão.

Não estou defendendo o Taleban. Dois de meus amigos foram assassinados pelo grupo. Ele é brutal e indiscriminado em sua violência, e sua posição sobre os direitos das mulheres foi condenada com razão pela comunidade internacional. Mas esses não são bons argumentos para se perpetuar o conflito em um dos países mais pobres do país. Isso seria não somente um desserviço para o povo afegão, como também provavelmente seria indefensável entre o povo americano.

Temos um presidente que acredita na arte de um acordo. Deveríamos negociar firmemente um acordo com o Taleban.

*Richard G. Olson foi embaixador dos Estados Unidos para o Paquistão de 2012 a 2015 e representante especial para o Afeganistão e o Paquistão de 2015 a 2016.


 

Tradutor: UOL

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