Opinião: Por que Israel não se parece em nada com a África do Sul do apartheid

Benjamin Pogrund

Em Jerusalém (Israel)

  • Reprodução/Apartheid Museum

    Protesto contra o apartheid nas ruas da África do Sul

    Protesto contra o apartheid nas ruas da África do Sul

O movimento BDS usa a comparação como um slogan cínico. Mas os que viveram sob o apartheid sabem a diferença

Entre os críticos de Israel, torna-se cada vez mais comum acusar o Estado judeu de imitar a África do Sul do apartheid. Neste mês, um órgão obscuro da ONU, a Comissão Econômica e Social para a Ásia Ocidental, cujos membros incluem 18 Estados árabes, causou furor quando emitiu um relatório acusando Israel de aplicar em seu conflito com os palestinos o mesmo racismo que tornou a África do Sul um pária internacional. O secretário-geral da ONU rapidamente repudiou o relatório, e ele foi retirado do site da agência na web.

A ideia de que Israel é um Estado de apartheid é um elemento básico do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), que tornou a comparação com a África do Sul praticamente a língua franca do ativismo contra Israel. É uma acusação grave: se for válida, Israel merece a censura, os boicotes e o isolamento que o movimento BDS exige. Mas anunciá-la com força e incessantemente, como faz o movimento, não a torna verdadeira.

Eis por que a comparação com o apartheid não se sustenta:

O apartheid na África do Sul mantinha os privilégios da minoria branca e condenava as pessoas não brancas à subserviência; determinava todos os aspectos da vida --a escola que você frequentava, o trabalho que você fazia, onde você morava, que hospital e ambulâncias você usava, com quem se casaria, até em que banco no parque podia se sentar sem ser preso.

Eu sei porque vivi isso.

Nascido na Cidade do Cabo nos anos 1930, fui trabalhar em 1958 no jornal "The Rand Daily Mail", de Johannesburgo, que foi pioneiro na cobertura abrangente da vida negra na grande imprensa: a prisão todos os anos de mais de 350 mil negros que infringiam as "leis de passe" que controlavam onde eles podiam morar e trabalhar; a penúria nas áreas rurais, com bebês morrendo de desnutrição severa; habitação, transporte e atenção à saúde terríveis; tortura pela polícia de segurança e detenção sem julgamento.

Durante mais de 25 anos, relatei e analisei os males do apartheid. Por meio de meu trabalho, fiz amizade com líderes negros, notadamente Nelson Mandela, do Congresso Nacional Africano, e Robert Sobukwe, do Congresso Pan-Africanista. Com meu editor, o renomado Laurence Gandar, passei quatro anos em julgamento por minhas reportagens sobre condições abusivas nas prisões. Não consegui tirar passaporte durante cinco anos.

Em 1985, "The Rand Daily Mail" foi fechado por seus proprietários comerciais sob pressão do governo. Eu estava tão identificado com seu liberalismo que não conseguia um emprego. O Reino Unido me deu um santuário e me tornei um jornalista na Fleet Street.

Então veio um convite para iniciar um Centro de Diálogo em Jerusalém. Minha mulher e eu nos mudamos para cá em 1997. Passei os 12 anos seguintes trabalhando para unir as pessoas: judeus de convicções políticas opostas; judeus, cristãos e muçulmanos; e cada vez mais israelenses e palestinos. Na época e mais tarde pesquisei e escrevi extensamente sobre o país que se tornou meu segundo lar.

Continuo comprometido com Israel e com a África do Sul, e vivo nas duas sociedades. Sou agudamente consciente dos problemas e das falhas de Israel, mas não é nada parecido com a África do Sul anterior a 1994. Os que acusam Israel de apartheid --alguns dizem até "pior que o apartheid"-- esquecem o que foi o apartheid de verdade, ou o ignoram, ou são mal intencionados.

As diferenças começam com "Israel propriamente dito", como definido pelas fronteiras depois das guerras de 1948 e 1967, onde os árabes são 21% da população.

Aqui, os árabes certamente sofrem discriminação. A maioria dos árabes é isenta do serviço militar, assim perdendo os benefícios dos veteranos; mas os árabes drusos são recrutados como os judeus, e os beduínos podem ser voluntários. As cidades árabes não são facilmente autorizadas a se expandir, mas as populações crescentes precisam de moradias, então as pessoas constroem de forma ilegal, e depois o governo demole suas casas.

E também há racismo --seja o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fazendo um apelo claramente antiárabe no dia da eleição em 2015, quando pediu que seus seguidores judeus votassem, ou rabinos pedindo que os judeus não alugassem ou vendessem imóveis para árabes.

Diferentemente dos sul-africanos não brancos sob o apartheid, porém, os árabes israelenses podem votar e gozam de plenos direitos como cidadãos. A Suprema Corte tem um juiz árabe, o chefe da cirurgia em um hospital importante é árabe e árabes dirigem departamentos de universidade. Em hospitais e clínicas, médicos e enfermeiros árabes e judeus, seculares e religiosos, trabalham juntos, cuidando igualmente de pacientes árabes e judeus --algo impensável sob o apartheid. Até o atual governo de direita prometeu bilhões de dólares para melhorar as condições de vida e a educação dos árabes (embora ainda tenha de entregar muito).

Quanto à Cisjordânia e Jerusalém Oriental, que Israel capturou da Jordânia em 1967, é uma ocupação. O Exército essencialmente controla cerca de 2,7 milhões de palestinos, seja nos 60% da Cisjordânia sob controle direto israelense ou em outras partes nominalmente sob a Autoridade Palestina.

Os acordos de Oslo de 1993 entre Israel e palestinos deveriam produzir a paz e um Estado palestino na Cisjordânia, mas os dois lados estragaram tudo. Os palestinos intensificaram os ataques terroristas, ajudando a levar muitos judeus israelenses para a direita. Na falta de um acordo de paz, Israel continuou construindo assentamentos: cerca de 600 mil judeus hoje vivem na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.

Sem dúvida, Israel se abre para ataques por seus atos na Cisjordânia. Seus malfeitos e a sabotagem da solução de dois Estados, por meio da construção de assentamentos, fornecem munição abundante para os críticos.

O que o movimento BDS chama de "muro do apartheid" --na verdade, principalmente uma cerca de arame, exceto nas áreas povoadas-- foi erguido entre Israel e a Cisjordânia por motivos de segurança, principalmente para manter afastados possíveis homens-bombas. Lamentavelmente, quando foi construído, o muro também se tornou uma maneira de encerrar e invadir mais terras palestinas na Cisjordânia. Isso foi feio e indigno, mas não tem nada a ver com a segregação racial no estilo do apartheid.

A ocupação é uma opressão. Nenhuma dominação de um povo que discorda e resiste pode ser agradável, e o policiamento é duro. Mas da minha perspectiva não há o racismo institucionalizado, a intencionalidade, que sustentou o apartheid na África do Sul. Então por que o movimento BDS insiste de modo diferente?

Fundado pelos palestinos em 2005, o movimento se espalhou internacionalmente e hoje é apoiado por uma aliança heterogênea de muçulmanos, cristãos, judeus antissionistas, pessoas de direita e de esquerda. O antissemitismo é evidente entre certos apoiadores do BDS. Mesmo em Israel, alguns na esquerda admitem a acusação de apartheid por desespero de ser incapaz de pôr fim à ocupação ou conter o avanço do país para o extremismo de direita.

O movimento indica os boicotes que, segundo ele, derrubaram o apartheid e afirma que essa é a maneira de atacar Israel. Essa crença é simplista e errônea. Enquanto os boicotes certamente foram importantes, não foram tão decisivos quanto afirmam os seguidores do BDS. Uma combinação de fatores pressionou a África do Sul a entregar o poder. O mais importante deles foi o fim da Guerra Fria, que significou que os movimentos de libertação negros perderam o apoio soviético, mas os brancos perderam o apoio crucial de seus patrocinadores ocidentais anticomunistas.

Durante os anos de luta por liberdade na África do Sul, o Congresso Nacional Africano, hoje no governo, conteve a violência contra civis brancos, com muito poucas exceções. Essa foi em grande parte uma decisão estratégica para evitar assustar os brancos a se recusarem a ceder o poder. Os ataques suicidas e assassinatos atirando veículos contra pedestres nunca aconteceram na África do Sul. Mas Israel teve muitos deles. Preocupações de segurança ditaram as precauções e reações de Israel, não uma ideologia racista de apartheid.

A mais enganosa exigência do movimento BDS é pelo retorno dos palestinos que fugiram de Israel ou foram expulsos à ponta de rifle, principalmente na guerra de 1948. Esse "direito de retorno" parece razoável e justo, mas relativamente poucas pessoas percebem que --de forma única entre os 65 milhões de refugiados do mundo--, os descendentes de palestinos são definidos como refugiados. Os 750 mil refugiados palestinos originais hoje chegam a 6 milhões ou 7 milhões. Um retorno em massa destruiria Israel como Estado judeu, que é todo o propósito de sua existência.

O apartheid sul-africano aplicava rígidas leis raciais. Israel não é remotamente comparável. Mas os membros do movimento BDS não são idiotas. O fato de eles propagarem essa analogia em nome dos direitos humanos é cínico e manipulador. Revela sua verdadeira atitude em relação aos judeus e o Estado judeu. Seus objetivos eliminariam Israel. É isso que está em jogo quando permitimos a comparação com o apartheid.

*Benjamin Pogrund é o autor de "Drawing Fire: Investigating the Accusations of Apartheid in Israel".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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