Análise: O Kremlin pode influenciar a eleição francesa?

Cécile Vaissié

Em Paris (França)

  • Mikhail Klimentyev/Associated Press

    Putin recebe a dirigente da extrema-direita francesa Marine Le Pen

    Putin recebe a dirigente da extrema-direita francesa Marine Le Pen

Nunca, segundo dizem, uma eleição francesa pareceu tão incerta. E nunca houve tanta preocupação sobre possíveis tentativas do governo russo de afetar, ou mesmo interferir, no resultado.

No mês passado, o presidente François Hollande denunciou os esforços do Kremlin para "influenciar a opinião pública" por meio de "operações ideológicas" e sua "estratégia de influência, de redes" na França. Seus comentários se seguiram a outra acusação, de Richard Ferrand, o secretário nacional do movimento En Marche! [Avante!], que afirmou que o Kremlin foi responsável por uma série de ataques cibernéticos contra o site do partido e que estaria tentando minar Emmanuel Macron, o candidato presidencial do En Marche, por ser, entre outras coisas, demasiado favorável à União Europeia. O Kremlin negou isso.

O governo francês está preocupado que invasões de hackers ou ataques cibernéticos possam ocorrer durante as próximas eleições --para presidente, em abril e maio, e para a Assembleia Nacional em junho. Parcialmente em consequência disso, os franceses que vivem no exterior não poderão votar por meio eletrônico na eleição legislativa. (A opção nunca existiu para a eleição presidencial.)

Invasão de computadores, propaganda, desinformação e até financiamento de campanha --realmente há muitas razões para se preocupar. E mais ainda porque a ofensiva na França é um projeto antigo e amplo.

As autoridades russas montaram pelo menos três organizações influentes lá. O Diálogo Franco-Russo é uma associação criada em 2004 sob os auspícios do então presidente francês, Jacques Chirac, e do russo Vladimir Putin. Inclui empresas envolvidas no comércio entre os dois países e afirma que sua meta é desenvolver "a cooperação econômica e as relações comerciais". Mais que tudo, porém, ela parece defender a tese do levantamento das sanções contra a Rússia e promover as visões geopolíticas do Kremlin. O Diálogo Franco-Russo ajudou a organizar uma conferência sobre a Síria em 11 de abril, da qual participou o vice-ministro das Relações Exteriores sírio. Segundo o serviço secreto francês, a organização está "infectada" pelo serviço de inteligência estrangeiro russo.

Saiba como funcionam as eleições presidenciais na França

O Instituto de Democracia e Cooperação foi fundado em Paris em 2008. Ele declara que sua meta é criar "uma ponte de sólida amizade entre duas grandes nações europeias, França e Rússia". Mas em diversas entrevistas sua diretora, Natalia Narochnitskaya, apresentou opiniões muito hostis. O Ocidente quer subjugar a Rússia, impor regras e até "desmembrá-la", disse ela, e para esses fins usa de forma oportunista as questões de direitos humanos. Para Narochnitskaya, a Rússia oferece "uma alternativa ao Ocidente".

A terceira maior organização que representa o Kremlin na França é o muito menos formal Fórum dos Compatriotas. Ele se reuniu pela primeira vez em 2011 e congrega emigrados que falam russo e descendentes de emigrados em reuniões realizadas na embaixada da Rússia em Paris. Esse forum, e outros como ele em outros países, estão no centro da iniciativa "Mundo Russo" de Putin: um esforço para mobilizar a diáspora russa em vários projetos linguísticos, culturais ou econômicos, mas também para angariar apoio ao Kremlin sobre questões geopolíticas como a guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

Os líderes dessas três organizações aparecem regularmente na mídia francesa, em francês e em outras línguas, que o Kremlin criou e financia totalmente. Os dois mais importantes destes, ambos muito ativos em redes sociais, são Sputnik e RT (Russia Today), que deverá começar a ser transmitida em francês neste ano.

A Sputnik e a RT publicaram diversos artigos sobre problemas ostensivamente causados por imigrantes, por exemplo, assim reforçando o medo e a reação provocados pelos recentes ataques terroristas. Elas não hesitam em distorcer fatos e até inventar alguns. Essa técnica, que costumava ser ensinada em algumas faculdades de jornalismo na antiga União Soviética, busca criar um choque emocional e suprimir toda a capacidade de análise. Ao sugerir que os fatos não importam, ela também alimenta teorias conspiratórias.

Em relação à eleição presidencial, Sputnik e RT atacam Macron e apoiam as candidaturas de Marine Le Pen, de extrema-direita, e François Fillon, de uma direita da corrente dominante que se radicaliza. Foi no Sputnik News (em inglês) que Nicolas Dhuicq, membro do Diálogo Franco-Russo e representante do partido de Fillon, Os Republicanos, na Assembleia Nacional francesa, recentemente acusou Macron de ser "um agente do grande sistema americano de bancos" e de receber apoio de "um lobby global muito rico".

O apoio da Rússia também pode ser mais concreto, especialmente financeiro. Até agora o único caso conhecido é na França, mas talvez não seja o único. Em 2014, Le Pen, a líder da Frente Nacional, recebeu um empréstimo de 9 milhões de euros (cerca de R$ 30 milhões) do First Czech Russian Bank. (Hoje em falência, o banco contava com Vyacheslav Babusenko, um ex-chefe da KGB, entre seus principais diretores.) Uma companhia de Chipre deu 2 milhões de euros para a Cotelec, o micropartido de Jean-Marie Le Pen, pai de Marine e ex-líder da Frente Nacional. A empresa parece pertencer a um russo que deve sua carreira a conexões com o serviço secreto, segundo a edição russa da revista "Forbes".

Essas transações foram empréstimos, ou foram trocas de favores? A FN tem apoiado ativamente o Kremlin nos últimos tempos, e afirmou que se "opõe às sanções contra a Rússia". Putin recebeu Le Pen em Moscou recentemente, dizendo que está "muito feliz" por vê-la. Ela o chamou de "um homem comprometido com seus valores", em particular "o legado cristão da civilização europeia".

Os franceses, por sua vez, parecem céticos. Em uma pesquisa de 2015 (a mais recente sobre o assunto), 85% dos entrevistados não confiavam em Putin ou em suas opiniões sobre política externa. Entre 2003 e 2015, o nível de confiança do público nele despencou de 48% para 15%.

Mas nada disso faz muita diferença para Moscou. Como demonstrou de modo convincente um recente artigo no jornal "Die Zeit", no caso da Alemanha, o objetivo central dos canais de mídia e redes do Kremlin é fomentar o medo e a desconfiança fora da Rússia e minar a fé dos ocidentais na segurança de seus países, na integridade de suas instituições e na estabilidade de suas vidas.

Em uma resolução em novembro passado, o Parlamento Europeu advertiu contra "a guerra de desinformação e propaganda da Rússia", chamando-a de "uma parte integral da guerra híbrida moderna", "uma combinação de medidas militares e não militares de natureza encoberta e aberta". Essa guerra está realmente acontecendo.

Seu objetivo é construir a "ordem mundial pós-Ocidente" que Sergey Lavrov, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, anunciou em um discurso que fez em Munique em fevereiro. E qualquer pessoa que conheça a situação interna da Rússia --corrupção generalizada, economia vacilante, ampla pobreza, a evidente deterioração das liberdades políticas e civis-- só pode tremer diante da perspectiva de que Putin possa ter alguma influência na eleição presidencial da França.

*Cécile Vaissié é professor de estudos russos na Universidade de Rennes II e autor de "Les Réseaux du Kremlin en France".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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