Análise: Questão da eleição britânica é descobrir quem será a nova oposição

Kenan Malik

Em Londres

  • Andrew Yates/ AFP

    19.abr.2017 - Primeira-ministra britânica Theresa May discursa para os membros do Partido Conservador , em Bolton, Inglaterra

    19.abr.2017 - Primeira-ministra britânica Theresa May discursa para os membros do Partido Conservador , em Bolton, Inglaterra

Theresa May conseguirá o que quer em junho: uma vitória praticamente sem oposição

Esta, como continuamos a descobrir, é uma era de resultados eleitorais inesperados. A decisão tomada na terça-feira pela primeira-ministra britânica, Theresa May, de convocar uma eleição geral para 8 de junho, certamente foi inesperada. Em uma era na qual poucos segredos permanecem secretos, nenhum jornalista ou político parecia ter a mínima suspeita sobre o anúncio até que ele foi feito. Mas mesmo na era do inesperado, é difícil ver qualquer resultado além de uma sólida vitória do Partido Conservador, devolvendo May ao governo britânico confirmada como primeira-ministra.

A verdadeira questão levantada pela eleição de junho não é qual partido formará o próximo governo britânico, mas sim qual partido assumirá o papel da oposição.

Certamente há uma insatisfação generalizada com as políticas do governo conservador, desde sua desastrada abordagem para as negociações do Brexit até um ressentimento com os seguidos cortes nos gastos públicos. No entanto, a insatisfação com a oposição e, em especial, com o Labour, Partido Trabalhista, é muito mais nítida.

O Partido Trabalhista está em desordem. Ele perdeu recentemente uma eleição parlamentar parcial em um reduto tradicionalmente sólido, desabou nas pesquisas de opinião e se encontra abalado por brigas internas. Uma pesquisa realizada depois de May anunciar a eleição, mostrou uma liderança de 21 pontos para os conservadores sobre os trabalhistas. Para termos de comparação, quando Margaret Thatcher derrotou Michael Foot na eleição de 1983, algo que foi visto como o ponto mais baixo para o Partido Trabalhista, sua liderança não era nem de 15 pontos.

Muitos consideram que os problemas do Partido Trabalhista se devem principalmente ao seu líder, o esquerdista Jeremy Corbyn. Corbyn tem sido notoriamente ineficiente como líder, incapaz de empolgar até mesmo seus principais defensores. Uma pesquisa recente sugeriu que menos de 40% dos eleitores do Labour acreditam que ele seria um primeiro-ministro melhor do que May.

Um membro do Partido Trabalhista no Parlamento, John Woodcock, disse a seus eleitores: "Não vou nunca permitir que se vote para tornar Jeremy Corbyn primeiro-ministro do Reino Unido". Quando os próprios parlamentares do partido não conseguem enfrentar a ideia de seu líder como primeiro-ministro, é difícil saber por que qualquer um deveria votar no Partido Trabalhista.

No entanto, a crise do Labour é mais profunda do que o problema com seu líder. Ele não sabe mais que tipo de partido ele é, ou quem ele procura representar. Então ele não tem conseguido assumir um posicionamento nas questões importantes da atualidade, em especial o Brexit. Com medo de perder a base operária que lhe restou, o partido evitou apoiar completamente a campanha pela permanência na UE. Contudo, o Partido Trabalhista tampouco pode realmente apoiar o Brexit, preocupado em não alienar os eleitores urbanos e da classe média.

O resultado foi uma indecisão que perdeu o apoio de ambos os eleitorados. A hesitação do Partido Trabalhista a respeito do Brexit levou muitos esquerdistas de classe média a migrarem para os Liberais Democratas, ou simplesmente se afastarem. Tony Blair já convocou os eleitores a apoiarem candidatos anti-Brexit, independentemente de afiliação partidária. Há relatos de que o ex-líder do Partido Trabalhista pode fazer campanha sobre essa plataforma junto com o líder dos Liberais Democratas, Tim Farron.

Dizimados na eleição de 2015, após sua infeliz fase como parceiro menor em um governo de coalizão com os conservadores de David Cameron, os Liberais Democratas agora se reposicionaram como o partido da Europa. Em uma jogada para conquistar o apoio dos eleitores a favor da permanência que ainda se sentem ressentidos com o resultado do referendo do ano passado a respeito da continuidade do Reino Unido na União Europeia, eles estão defendendo a realização de um segundo referendo no final das negociações do Brexit.

Os Liberais Democratas podem recuperar algumas das cadeiras perdidas no Parlamento, mas seu apelo eleitoral é estreito demais para formar uma oposição séria. Seria um triunfo para os Liberais Democratas se eles reconquistassem até mesmo 50 cadeiras nas próximas eleições.

Quanto ao Partido da Independência do Reino Unido, a votação a favor do Brexit tirou dele sua razão de ser. Desde o referendo, o partido implodiu em uma brutal guerra interna. Atualmente ele não tem representantes no Parlamento, e é improvável que ele tenha qualquer um após a eleição de junho.

Na Escócia, o partido governante é o Partido Nacional Escocês. Nas últimas eleições gerais, ele conquistou a extraordinária marca de 56 das 59 cadeiras, deixando ao Labour, aos Liberais Democratas e aos Conservadores uma cadeira para cada um.

O líder do partido e primeiro-ministro da Escócia, Nicola Sturgeon, tentou explorar o resultado do Brexit para forçar outro referendo sobre a independência da Escócia, apontando que uma maioria de escoceses votou a favor da permanência na União Europeia. May insistiu que qualquer referendo, se é que haverá um, só poderá ser realizado depois que as negociações sobre o Brexit forem finalizadas, e o Reino Unido tiver deixado a União. Esse conflito irá pairar sobre a próxima eleição, mas há poucos indícios de que os escoceses estejam muito ansiosos por um novo referendo ou pela independência em si.

Considerando seu exagerado sucesso nas últimas eleições, não seria surpreendente se os nacionalistas perdessem alguns distritos eleitorais desta vez. No entanto, assim como na Inglaterra e no País de Gales, a verdadeira disputa não será a respeito de quem governará, mas sim sobre quem, entre uma oposição exaurida, conseguirá aproveitar ao máximo do que quer que reste da política.

Mais uma vez, o Partido Trabalhista provavelmente terá o pior desempenho. Há vinte anos, o partido parecia incontestável na Escócia. Mesmo no final de 2010, ele detinha 41 dos 59 distritos eleitorais da Escócia no Parlamento de Westminster. Depois de 8 de junho, o Labour pode acabar ficando sem nenhum.

Essa poderia, e deveria, ser uma eleição vital, foco para um grande debate sobre que tipo de Reino Unido pós-Brexit as pessoas querem, uma disputa acirrada sobre questões que vão desde a austeridade até a imigração. Mas o vácuo onde uma oposição deveria estar significa que nada de muito substancial será debatido.

Certamente haverá debates exaltados a respeito do Brexit, e muitos tentarão usar essa eleição para reprisar o referendo do ano passado. Mas, depois de 8 de junho, um governo conservador entrará em negociações com a União Europeia com suas políticas e estratégias mal testadas em público.

A eleição geral-surpresa do Reino Unido vem em meio a uma série de votações nacionais extremamente controversas e imprevisíveis —desde a votação do Brexit e a eleição americana no ano passado até a eleição geral holandesa e o referendo turco esta primavera, e com o primeiro turno das eleições presidenciais francesas no próximo final de semana, antes das eleições federais da Alemanha em setembro.

Todas essas sondagens democráticas deverão fornecer uma importante plataforma para um debate público e um termômetro vital da vontade popular. Então é uma pena se a eleição britânica se tornar aquela que menos importa.

*Kenan Malik* é autor de "The Quest for a Moral Compass: A Global History of Ethics" e colunista do "NYT".

Tradutor: UOL

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