Ataques a estudantes africanos expõem problema racial na Índia

Niha Masih*

Em Nova Délhi (Índia)

  • AFP

    Policiais indianos e curiosos cercam africanos em shopping center em Greater Noida, cidade satélite de Nova Délhi, na Índia

    Policiais indianos e curiosos cercam africanos em shopping center em Greater Noida, cidade satélite de Nova Délhi, na Índia

Em 24 de março, Manish Khari, um estudante colegial de Greater Noida, subúrbio de Nova Déli, não chegou em casa após uma caminhada ao entardecer. Alguns vizinhos de Khari disseram tê-lo visto com cinco estudantes nigerianos que moram na área.

Uma multidão irada invadiu o apartamento dos estudantes nigerianos, mas não encontrou o menino desaparecido. A família dele e os moradores locais acusaram os estudantes nigerianos de canibalismo. A polícia prendeu os cinco estudantes nigerianos, mas os liberou por falta de evidências. Khari voltou para casa não se sentindo bem e morreu pouco depois, aparentemente por overdose de drogas.

Greater Noida simboliza as aspirações da Índia pós-liberalização, a Índia do novo dinheiro, das torres de apartamentos, dos escritórios de corporações, das universidades particulares e dos shopping centers. O verniz de modernidade mal esconde as posturas sociais racistas e regressivas.

Dois dias depois, uma vigília pelo garoto falecido foi realizada em uma rotatória em Greater Noida. Endurance Amalawa e Precious Amalawa, irmãos nigerianos que estavam se formando em uma universidade na área, seguiam para casa após o jantar em um restaurante em um shopping próximo.

Os participantes da vigília viram os Amalawas. Ser africano já é crime o bastante: um vídeo terrível mostra como Endurance Amalawa foi chutado, agredido com paus e com latas de lixo.

O preconceito contra pele mais escura está profundamente arraigado na sociedade indiana. Quando eu era pequeno, minha avó me esfregava com "pasta clareadora" caseira, porque minha pele não era tão clara quanto a de meus primos. Produtos para branqueamento da pele substituíram a pasta da vovó, e as vendas cresceram para US$ 460 milhões. A Fair & Lovely, a líder de mercado em cremes clareadores, apresenta vendas anuais de mais de US$ 310 milhões.

Os africanos na Índia convivem diariamente com o racismo. Ofensas como "macaco" e "kalu" (termo pejorativo para negro) são usadas de forma liberal; é perguntado a eles com frequência se comem seres humanos; são impedidos de entrar em casas noturnas e lhes é cobrado um preço mais alto nos transportes públicos. Os homens africanos são vistos como narcotraficantes e as mulheres como prostitutas.

Os incidentes de ataques racistas aumentaram à medida que um maior número de estudantes africanos passou a vir ao país. Segundo o Ministério do Desenvolvimento de Recursos Humanos da Índia, havia 11.442 estudantes africanos no país em 2015, metade deles da Nigéria e do Sudão. A maioria deles estava matriculada em novas universidades particulares que realizam esforços agressivos de recrutamento em vários países africanos, onde a infraestrutura educacional é deficiente.

Os estudantes africanos acabam alugando apartamentos nas proximidades de suas universidades, em bairros de classe média baixa ou de classe média. O preconceito racial dificulta a locação. Eles são obrigados a pagar aluguéis mais altos. Senhorios e vizinhos os veem com suspeita. Esse atrito tem cada vez mais levado a violência.

Na semana passada em visitei Michel Kyungu Kitanda, um congolês de 27 anos que trabalha como tradutor para os africanos que visitam a Índia para tratamento médico. Eu queria conversar com ele sobre seu irmão, Olivier Kitanda. Em maio de 2016, Kitanda, um professor de língua francesa, foi espancado até a morte por três homens em uma rua do sul de Délhi, após uma disputa em torno da contratação de um riquixá. O acusado começou a fazer ofensas raciais e o agrediu com pedras. Ele morreu no hospital.

Mal tinham se passado 10 minutos de minha entrevista com Michel Kitanda, em seu apartamento no sul de Délhi, quando a senhoria bateu à porta dele e pediu que eu saísse. Minha presença no apartamento dele "não era apropriada". Com um despeito pouco velado, ela insistiu que eu realizasse a entrevista em um espaço de escritório no andar de baixo.

A onda de ataques racistas a visitantes africanos mancha o relacionamento mais velho e melhor entre africanos e indianos. "Vocês nos deram Gandhi; nós lhe devolvemos Mahatma", disse famosamente Nelson Mandela.

Foi de fato na África do Sul que Mohandas Karamchand Gandhi, um jovem advogado, superou seus iniciais preconceitos raciais contra os africanos e despontou como um cruzado contra o apartheid, muito antes de se tornar o líder santo e amado do movimento pela independência da Índia.

A Índia foi uma grande apoiadora das lutas anticoloniais na África. Diásporas indianas cresceram por toda a África; estudantes e acadêmicos da África visitavam e moravam rotineiramente na Índia.

Nos anos 60, um jovem estudante somali rejeitou uma bolsa de estudos americana e optou por viajar para a Índia para estudar na Universidade de Panjab, na cidade de Chandigarh, no norte. Ele escreveu seu primeiro romance naquele campus. Era o grande romancista Nuruddin Farah.

"A Índia e a África estão relacionadas de muitas formas diferentes, algo que nenhuma delas entende apropriadamente", Farah disse a uma revista indiana. "Estamos mais interligados e em sintonia uns com os outros."

A Índia mudou. Um Estado indiano mais assertivo e cada vez mais nacionalista tem limitado a paciência com as solidariedades do passado; a simples sugestão de intolerância racial provoca uma resposta irritadiça. Após o ataque a Amalawa, diplomatas africanos na Índia descreveram o ataque como "de natureza xenofóbica e racista".

Sushma Swaraj, a ministra das Relações Exteriores da Índia, respondeu chamando essa resposta de "infeliz". Swaraj insistiu que o incidente não poderia ser descrito como racista até a conclusão da investigação policial.

Um ano antes, após a morte de Kitanda, o professor congolês em Délhi, Swaraj também negou o aspecto racial do assassinato. Ela postou no Twitter: "Gostaria de assegurar aos estudantes africanos na Índia que trata-se de um incidente infeliz e doloroso envolvendo valentões locais".

A recorrente negação pelo governo de racismo ecoa a aceitação social do preconceito. Com frequência o racismo e violência contra os africanos são explicados por meio dos estereótipos de criminalidade entre os africanos que vivem na Índia.

Eu conversei com Vinod Singh, um professor de escola pública que vive em Greater Noida. O filho dele foi um dos garotos que foram presos pela agressão a Amalawa no shopping.

Singh defendeu seu filho, o descrevendo como um "espectador" e falou sobre os africanos em seu bairro: "Quem são os fornecedores de drogas? Todos sabem o que os nigerianos fazem. Eles perambulam bêbados por volta das 2h da manhã. Eles trocam de faculdade quando são reprovados. Há alguns cujo visto já expirou".

Posteriormente, ele acrescentou: "Mas também há algumas pessoas de bem".

Os estudantes africanos se sentem insultados pela negação indiana de racismo. Há debates na imprensa, mas não há solidariedade pública. Ashis Nandy, o sociólogo político mais proeminente da Índia, atribui isso a uma mudança no sentimento político e social.

"Assim que você entra no jogo de antipatizar outras comunidades, culturas e civilizações, assim que você começa a pensar em si mesmo como uma maioria sitiada, uma maioria agindo como uma minoria acuada, você estabelece a base para uma sociedade racista", ele disse.

*Niha Masih, formada pela Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, é uma jornalista baseada em Nova Délhi
 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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