Análise: O que Macron poderia fazer para consertar a economia francesa

Ruchir Sharma

  • Eric Feferberg/AFP Photo

    8.mar.2017 - Candidato na eleição presidencial da França Emmanuel Macron

    8.mar.2017 - Candidato na eleição presidencial da França Emmanuel Macron

Se vencer o segundo turno em maio, Emmanuel Macron provavelmente se empenhará em reduzir um dos maiores Estados de bem-estar social do mundo.

O mundo assistiu com atenção ao primeiro turno das eleições para presidente na França no último domingo por causa da ascensão de Marine Le Pen, que quer tirar o país da União Europeia e impedir a entrada de imigrantes na França. Mas ela chegou em segundo lugar atrás de um centrista, Emmanuel Macron, que se posicionou como o anti-Le Pen e "anti-sistema". Ele atribui os problemas do país não aos forasteiros, como funcionários e imigrantes europeus, mas ao próprio sistema de bem-estar social da França, "esclerosado" e insustentável.

A próxima revolução francesa provavelmente não será um levante popular. As pesquisas preveem que Macron vencerá Le Pen com facilidade no segundo turno de maio e, se ele vencer, seu governo trabalharia para fortalecer a União Europeia, em vez de realizar uma votação sobre sua saída. Ele investiria mais em integrar os imigrantes à sociedade francesa, em vez de bani-los. O mais notável é que Macron trabalharia para reduzir um dos maiores Estados de bem-estar social do mundo, em vez de aumentá-lo, como Le Pen faria.

É claro que a França tentou uma reforma do Estado de bem-estar social antes, sem sucesso. A tentativa mais recente foi no ano passado, quando Macron era ministro do governo socialista e redigiu as leis Macron, abrindo indústrias reguladas para a concorrência. Esses planos desencadearam protestos em massa e foram reduzidos, mas Macron diz que há uma grande diferença agora: governos anteriores não foram eleitos com um mandato para reduzir o Estado de bem-estar social, ao passo que o seu poderia ser.

Claramente, uma mudança se tornou mais urgente. O Estado forte vem de séculos na França, e seus absurdos são motivo de piadas há tempos. Georges Clemenceau, que atuou duas vezes como primeiro-ministro entre 1906 e 1920, brincou que seu país era muito fértil: "Você planta burocratas e os impostos crescem". Ao longo da última década os gastos estatais cresceram ainda mais, de 51% para 57% do PIB.

É um índice mais alto do que em qualquer outra nação do mundo, e 18 pontos percentuais acima da média para nações desenvolvidas. É difícil dizer o quanto seria um gasto estatal excessivo, mas a França claramente está desequilibrada, e Macron tem razão ao dizer que a tendência "não é mais sustentável". A folha de pagamentos pública está igualmente inchada, e Macron pretende reequilibrar a economia cortando 120 mil cargos públicos, modernizando o sistema de aposentadoria e cortando os gastos estatais de volta para 52% do PIB.

Macron tem liderado um consenso centrista emergente que reconhece que, mais do que imigrantes ou o euro, o principal obstáculo que atrasa a economia da França é seu apego a uma cultura de Estado de bem-estar social de semanas curtas de trabalho e benefícios generosos. Depois que teve início a crise da dívida na Europa em 2010, a Espanha, Portugal e até mesmo a Itália fizeram algum esforço para se tornarem mais competitivas, seja reduzindo dívidas, restringindo os gastos públicos, diminuindo os custos trabalhistas ou todos os três.

A França foi na direção contrária. Os custos trabalhistas aumentaram, e nos últimos cinco anos a dívida total pública e privada aumentou em 38 pontos percentuais como uma parte do PIB, em comparação com os 15 pontos percentuais em média para países da zona do euro. Essa dívida crescente fez pouco pelos trabalhadores franceses necessitados: o PIB per capita tem crescido significativamente mais devagar do que a média da zona do euro.

Quando Macron critica o sistema esclerosado, ele está se referindo ao tamanho do Estado e à forma como suas inúmeras regras beneficiam "gente de casa" com empregos protegidos no governo ou em sindicatos. A vida política e econômica da França gira em torno do governo em Paris, a mais dominante capital de qualquer país desenvolvido, com uma população seis vezes maior que a da segunda maior cidade do país, Lyon.

As regras que jorram da burocracia de Paris tornam difícil para os recém-chegados crescerem nos negócios franceses, que são dominados por famílias antigas. De acordo com dados da "Forbes", uma porcentagem impressionante da riqueza de bilionários, 73%, vem de fortunas herdadas na França, em comparação com menos de 50% na maioria dos outros países.

O ressentimento com a desigualdade crescente de classes e regional alimenta uma cultura profundamente anticapitalista. Nos últimos anos os altos impostos sobre a renda na França têm espantado artistas, executivos e empresários do país. No ano passado, 12 mil milionários emigraram, o maior êxodo milionário de qualquer país até hoje. Macron, que uma vez chegou a dizer que impostos sufocantes ameaçavam transformar a França em uma "Cuba sem Sol", usufrui de amplo apoio entre eleitores urbanos jovens e profissionais liberais que prefeririam uma oportunidade em casa a uma vida de expatriado em Londres.

A França tem resistido tanto a mudar, que ela pode parecer um museu a céu aberto, mas Macron pode ter mais apoio do que reformistas do passado. O líder de centro-direita François Fillon terminou em terceiro no domingo, prometendo cortes ainda maiores em empregos públicos e pensões que reduziriam os gastos estatais para até 50% do PIB. Diferentemente de Macron, Fillon combinou sua mensagem anti-Estado com uma linha dura anti-imigrantes, atraindo eleitores que acreditam que o Estado de bem-estar social é generoso demais com pessoas de fora. Ele está apoiando Macron, o que o ajudaria a roubar votos conservadores de Le Pen.

A batalha iminente poderá ser brutal. A França está profundamente dividida. Juntos, Macron e Fillon tiveram 43,5% dos votos, um sinal do profundo descontentamento com o status quo do Estado de bem-estar social. No entanto, Le Pen é uma estatista francesa à moda antiga, assim como o candidato de extrema esquerda Jean-Luc Mélenchon, que prometeu um imposto de 100% sobre altas rendas e terminou em quarto. Juntos, ele e Le Pen tiveram 41% dos votos.

Independentemente de quem vença o segundo turno, o outro lado provavelmente se revoltará. E se Macron sair vitorioso, esses protestos provavelmente serão menos sobre a Europa e os imigrantes do que a respeito do futuro de um dos maiores Estados de bem-estar social do mundo.

*Ruchir Sharma, autor de "The Rise and Fall of Nations: Forces of Change in the Post-Crisis World," é colunista e estrategista-chefe global na Morgan Stanley Investment Management

Tradutor: UOL

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