Opinião: É preciso criar condições para que um acordo entre israelenses e palestinos volte a ser vislumbrado

Charles R. Bronfman e Susie Gelman

  • Creative Commons/Michael Rose

    Mural em Belém, na Cisjordânia, pede paz entre Palestina e Israel

    Mural em Belém, na Cisjordânia, pede paz entre Palestina e Israel

Mesmo que comecem as negociações entre Israel e Palestina, um acordo final de paz está fora de alcance no momento. É necessário um plano B que possa preparar ambos os lados para um momento mais propício

Vamos encarar a verdade: a atual realidade política tornou um acordo final entre israelenses e palestinos em algo inalcançável neste momento. Então os israelenses precisam focar em criar condições, de ambos os lados, nas quais um acordo possa ser possível no futuro.

É claro, a visita do secretário da Defesa Jim Mattis a Israel no mês passado e a reunião programada do presidente Donald Trump nesta quarta-feira (3) com o presidente palestino, Mahmoud Abbas, poderiam levar a novas conversas.

Mas mesmo que levem, uma retomada das negociações agora quase que certamente fracassaria ou até mesmo teria o efeito oposto do desejado. Todas as outras tentativas de negociações diretas e bilaterais fracassaram, e muitas vezes houve violência na sequência. Cada novo desapontamento só agrava a profunda desconfiança e os mal-entendidos entre os líderes de ambos os lados, que corrói ainda mais a confiança entre israelenses e palestinos de que a paz possa um dia ser alcançada.

Em suma, o processo de paz foi rompido.

Contudo, continua sendo verdade o fato de que somente uma solução de dois Estados pode proteger o sonho sionista, um Estado que seja judaico, democrático e seguro. Um Estado único não seria mais judaico se uma população de maioria árabe o controlasse, nem uma democracia se uma minoria judaica governasse uma maioria árabe. Ele acabaria sendo um terreno fértil para uma longa guerra civil.

Portanto, a meta de se obter um acordo de paz abrangente precisa ser posta de lado por enquanto, e o objetivo deve passar a ser preservar a esperança de uma solução de dois Estados. A meta imediata deveria ser um acordo temporário realista que possa acalmar os antagonismos e melhorar as perspectivas para um clima político e psicológico de ambos os lados que permita um acordo de paz de dois Estados em algum momento no futuro.

Os Comandantes para a Segurança de Israel, uma rede de 270 generais aposentados israelenses que serviram nos mais altos escalões das forças armadas, policiais e de inteligência israelenses, desenvolveram um programa para um acordo como esse. Suas propostas pragmáticas melhorariam imediatamente a segurança de Israel, conteria e reverteria a erosão das condições para uma solução negociada de dois Estados e melhoraria as condições de vida e econômicas para os palestinos em Jerusalém Oriental, na Cisjordânia e em Gaza. E ele pode ser colocado em prática agora.

O programa permitiria que os colonos judeus hoje na Cisjordânia permanecessem onde estão, enquanto aguardam um acordo final, com a Força de Defesa Israelense como a única força militar ocidental do Rio Jordão. Mas a construção para além de áreas construídas nos principais blocos de assentamentos, onde 80% dos colonos residem, seria proibida, e Israel reconheceria que 92% das terras na Cisjordânia a leste da barreira de segurança de Israel seriam incluídas em um futuro Estado palestino.

Israel fecharia brechas nessa barreira de segurança, mas também redirecionaria segmentos dela para minimizar a perturbação na vida dos palestinos.

Baseando-se nos sucessos até hoje de cooperações entre Israel e Palestina em questões de segurança, a força policial palestina expandiria gradualmente sua cobertura para incluir cerca de 700 mil palestinos que hoje não têm proteção policial. Isso se conseguiria fazendo a redesignação de segmentos da Cisjordânia que hoje estão sob controle total civil e militar israelense (cerca de 10% da terra) e colocando-os sob controle civil e administrativo palestino. A expansão produziria uma maior contiguidade territorial palestina.

Ao perceber um alinhamento atual de interesses regionais entre Israel e Estados árabes sunitas moderados, Israel aceitaria a Iniciativa de Paz Árabe oferecida em 2002, com reservas, como base para futuras negociações.

Esses e outros passos podem ser tomados de forma independente por Israel hoje. Eles não requerem o desmantelamento de nenhum assentamento ou a evacuação de nenhum soldado israelense antes que um acordo seja negociado. No entanto, eles conteriam a entrada no pesadelo de um Estado único, mesmo que melhorassem a segurança diária de Israel.

Embora a proposta dos comandantes —que é endossada por nossa organização— não fosse trazer um acordo final agora, ela aumentaria a confiança pública entre israelenses e palestinos de que uma paz duradoura é, de fato, possível melhorando-se de forma tangível suas vidas cotidianas.

Para os israelenses, isso reduziria a infiltração nas fronteiras que possibilita o terrorismo. Para os palestinos, isso melhoraria sua economia e seu cotidiano, não somente por tornar sua terra mais contígua, mas também por expandir o papel de sua própria polícia na proteção de sua segurança.

E, para ambos os lados, suspender a expansão dos assentamentos israelenses aumentaria as expectativas de possibilidade de se alcançar uma solução de dois Estados.

Por fim, uma melhoria no clima para as conversas poderia facilitar as negociações em duas vias: entre israelenses e palestinos para a separação em dois Estados, e entre Israel e países árabes para normalizar as relações e alcançar uma estrutura de segurança regional.

O grupo dos comandantes sabe, assim como nós, que isso não será fácil; provocadores de ambos os lados tentariam evitar uma solução de dois Estados. No entanto, um período estendido de tranquilidade e uma diminuição nos pontos de atrito reduziria a capacidade desses sabotadores de influenciarem as políticas e a opinião pública.

Com o tempo, um clima renovado permitiria que os líderes resistissem a provocações e se movessem na direção de um acordo final negociado, encorajados pelo desejo de suas populações de viver em dois Estados separados, e por sua confiança de que isso é possível.

Os Estados Unidos deveriam apoiar esse plano, incentivar Israel a executá-lo e pedir que os palestinos e os Estados árabes moderados ajam de forma recíproca em relação a Israel com medidas igualmente construtivas.

O programa dos generais é uma forma pragmática de se preservar uma Israel que seja judaica, democrática e segura. A grande maioria dos judeus americanos —na verdade, todos os americanos— deveria apoiá-lo, assim como todos os israelenses.

*Charles R. Bronfman é presidente do conselho consultivo e Susie Gelman é presidente do conselho do Israel Policy Forum.

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